Um Novo Tom
Tom tinha 30 anos quando largou o conforto de seu lar europeu para viver na América do Sul. Queria aprender o espanhol, a salsa e um novo tom para sua vida, tão especial. Deixou a mãe, o pai, o cigarro, o emprego certo e alguns poucos amigos. Foi ver os diamantes no oceano, sentir o pó da estrada e decifrar o segredo das pedras paradas num mesmo lugar. Buscava encontrar uma latina de pernas grossas e seios firmes, maravilhada pela brancura de seu tom de pele e pela frieza de seu sangue europeu.
Por mais de 300 dias viveu como quis, sem gilete, celular ou endereço fixo. Conheceu os quatro cantos do continente e fez alguns bons amigos no caminho. Andou por desertos brancos, megalópoles medonhas, praias paradisíacas, vales verdes, cemitérios malditos, igrejas endinheiradas, montanhas gigantes, bosques nublados e ilhas indígenas. Teve contato com políticas fracassadas, discursos repetidos, pernas abertas, filosofias ancestrais, alimentos estranhos, animais perseguidos, plantas medicinais, seitas ocultas e gente feliz. Aprendeu as gírias do espanhol, as manhas da salsa e incorporou novas cores em seu mundo, cada vez mais azul. Descobriu um tom diferente, mais verdadeiro e menos complicado. Ao invés de encontrar a latina de seus sonhos, encontrou alguém que pensava nunca mais encontrar: si mesmo.

=)
Que bom!
Encontrando a si mesmo encontrou tudo que precisava. Adorei, ótimo texto.