"Pace is the essence"

Fim do mundo?

Publicado em contos por igormoura em janeiro 24, 2012

Eu estava em alguma distante praia do caribe quando tudo aconteceu. As sirenes soaram e avisavam que o pior estava por vir. Não apenas um, mas uma série de tsunamis estava a caminho das costas do mundo todo. Como esse dia já era esperado, cientistas haviam desenvolvido enormes placas de algum material leve, porém altamente resistente, que supostamente deveriam conter as enormes ondas. A descoberta se deu graças a um estudo detalhado das cascas dos besouros encontrados na Namíbia. Para o invento funcionar, era necessário que formássemos gigantescos cinturões humanos em cada orla de praia, e assim, cada pessoa seria responsável por manter de pé cada uma dessas placas, da altura de prédios. É claro que países menos desenvolvidos e economicamente escassos não teriam as tais placas e por isso, nesses lugares, era certo que milhões de pessoas morreriam por falta de estrutura. Literalmente. Mas como nesse dia eu estava em uma praia e felizmente em um país onde o governo, a duras custas, havia comprado centenas de milhares de placas, fui até a orla e me posicionei ao lado de outras milhares de pessoas, cada uma segurando a sua placa, que supostamente deveria salvar sua vida. O conceito era bem simples, uma vez formado o grande cinturão, o tsunami passaria por cima das pessoas, ou melhor, do enorme escudo que elas formariam.

O primeiro deles veio e ao vê-lo se aproximando, confesso que senti um frio na espinha como nunca havia sentido antes, afinal, quem era eu para achar que iria sobreviver em uma situação dessas, um jovem louco que nem nadar sabia. E a onda era realmente de proporções absurdamente exorbitantes, o que fez muita gente gritar na hora do impacto. E gritar novamente, após o alívio de saber que as placas haviam de fato funcionado nesse primeiro instante. Minutos depois veio outro, tão grande quanto o primeiro, mas como já estávamos relativamente menos nervosos, seguimos no mesmo plano. No final, após uns sete ou oito, o que mais vi foram pessoas se abraçando e celebrando a vida, como jamais imaginei que fosse testemunhar em minha vida. Como estava sozinho, sem família ou amigos próximos, tive que pedir emprestado um celular de algum desconhecido para ligar para meu pai. Ele atendeu e me contou que estava esperando receber notícias minhas e de meu irmão que morava nos Estados Unidos. Minha mãe permanecia incomunicável e isso me deixou extremamente apreensivo. Perguntei pra ele se havia morrido muita gente em Curitiba e ele disse que algumas centenas, devido à falta de precaução. Em cidades montanhosas, a instrução era permanecer em terraços altos. Desesperado por não conseguir falar com minha mãe e saber como ela estava e principalmente se ela ainda “estava”, acordei suando frio. Liguei em seguida pra ela, que me atendeu do mesmo jeito de sempre. Surpresa por eu ligar. Minha interpretação do sonho? Talvez isso tudo tenha sido algum sinal premonitório sobre o fim do mundo eminente ou apenas alguma projeção do meu cérebro após assistir tantos programas sobre o assunto. O fato é que eu realmente deveria ligar mais vezes pra minha mãe.

7 Respostas

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  1. Gisele Carol disse, em janeiro 24, 2012 às 6:03 pm

    Eu também…
    Adorei!

  2. Julio Schneider disse, em janeiro 24, 2012 às 7:03 pm

    Excelente!

  3. Paulo André Munhoz disse, em janeiro 24, 2012 às 7:14 pm

    Muito bom o texto Igor ! Realmente é massa ver a misturança que nossa cabeça faz com as vivências que temos, com as culpas que sentimos, com as pessoas que estão a nossa volta… você sintetizou muito bem isso… também tenho sonhos psicodélicos neste estilo… algum dia quem sabe eu começo a relatá-los… hehehe

    • igormoura disse, em janeiro 25, 2012 às 3:18 pm

      Bacana Paulo, esses sonhos são realmente mais comuns do que a gente pensa. E é interessante coloca-los no papel pra tentar aprender alguma coisa com eles, já que dessa forma, a gente nunca esquece. Abração.

  4. Carmen Costa disse, em janeiro 24, 2012 às 10:21 pm

    Igor, ligue mais pra sua mãe. Esse sonho é coisa de consciência pesada.

  5. Murilo disse, em janeiro 25, 2012 às 2:40 am

    Ou não more perto do litoral.


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