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Caminhos escuros demandam escudos

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São os minutos iniciais de um domingo ensolarado e a velha missão de juntar os retalhos de outro começo de ano parece tão complexa como a enxurrada de símbolos e mensagens oriundas de sonhos intranquilos, porém mais vívidos e reveladores como jamais havia experienciado. O corpo tenta se adaptar ao confuso novo fuso e o silêncio das primeiras horas da manhã na casa dos madrugueiros parece auxiliar nessa difícil tarefa de ligar os pontos e as pontas secas de um dois mil e dezoito fumegante e tão ligeiro como o coito adolescente de outrora. “O calendário resumiu-se a quase um mês”, cantaria o místico Zé das ramas brancas, e nesse mês a roda da fortuna girou, parou e retornou no sentido inverso. Seus ponteiros procuram a direção ou algum alinhamento suficiente para transformar a eletricidade dos pensamentos coletivos e assim religarmos os postes dessa estrada esburacada que decidimos trilhar. Caminhos escuros demandam escudos. Espirros sugerem lenços enquanto as rimas iluminam seres cascudos. A pior censura continua sendo aquela que nasce do próprio autor, por isso me esforço para pescar o máximo de criaturas possíveis: peixes, polvos, cavalos marinhos, tubarões, sereias e principalmente aqueles seres alienígenas que estão lá no fundo desse oceano escuro e profundo popularmente conhecido como inconsciente.

Outro festival multicolorido passou e com ele ficam as experiências e sacações dos dias de chuva dormindo na rede amiga protegida pela lona preta dos colegas. A sopa de cultura por vezes teve um gostinho amargo, assim como os papéis com nomes transcendentais, mas que na prática produzem apenas coceiras na nuca de Joe Cocker. Nada que uma kombi, uma meia dúzia de hippies bem intencionados e alguns cristais naturais não possam resolver. Continuo sem entender o propósito daquela luz vermelha enquanto permanecia com os olhos fechados. A moda agora é cílios de LED e selfies de bandas nos fins dos shows. No palco das ruas uma ode ao improviso e aos projetos autorais desconhecidos, mas não menos promissores. Teve orquestra de sinais comandada pelo Peter Q, teve teremim como trilha mágica para luminosos círculos performáticos, teve trombone de uma argentina encantando jovens de todas as idades, teve o funk malemolente de um comboio de sacis brancos, teve cearense ladrão de nuvens acompanhado por uma tríplice aliança de brows, teve hip hop e seus versos expansivos, teve o imperador sem teto e teve tantas outras atrações que a memória jamais conseguirá computar. Em paralelo, no palco do lago bambus e pallets embelezam o cenário das linhas tortas de um capixaba da peste.

A senhora dos cabelos grisalhos e dos feijões alucinantes me lembra a data de ontem. Há seis anos atrás um acontecimento marcaria e mudaria minha vida para sempre. Sem lamentos ou julgamentos, sigo retribuindo todo esse amor recebido desde os primeiros respiros dentro de sua barriga. Mamma, don’t worry, I’m still here.  E se a bomba atômica dos Raveonettes nos atingir, eu estarei feliz em ir contigo para as estrelas.

E é esse amor fraternal de proporções cósmicas que precisa prevalecer, emerso em rios amazônicos repletos de piranhas oportunistas: furtadores de barracas, histéricas mulheres destruidoras de portas, xamãs de boutique, inquilinos malandros, manifestantes fantoches, ilegítimos presidentes vampiros e todos aqueles pequenos seres tão bem retratados na ala da escola de samba campeã em repercussão, responsável por chacoalhar cabeças inertes no carnaval dos milhões, há quilômetros de distância.

Aproveito mais esse texto sem propósitos claros, para saludar meu caro amigo e poeta junkie pelo seu aniversário, em breve pretendo te visitar. Por enquanto mando notícias nesse blog: Aqui na terra tão jogando futebol, tem muito samba, muito choro e rock’n’roll. Uns dias chove, noutros dias bate o sol, mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta.” 42 anos se passaram e a história continua praticamente a mesma. Um dia ainda ficarei velho e descompromissado para me retirar nesse país tranquilo e nanico que escolheste para viver, e juntos, fumaremos um charro despreocupados, compartilhando um mate de qualidade. Bye Bye Brasil!

 

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O Sono Que Vicia

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Certa manhã acordei de sonhos intranquilos, assim como na canção do sósia da fase gorda e com barba estilo capacete, comentado pelo americano Dan séculos quânticos atrás. Acordei de sonhos intranquilos, e por intranquilos, quero dizer aflitos, reveladores, quem sabe até premonitórios ou curativos. Curitiba se tornou o berço dos puretas, da caretice institucionalizada, da chuva infinita, dos amigos hippies quarentões recém convertidos nas velhas balelas religiosas que fazem homens prodígios se transformarem em enferrujados cabos eleitorais de baleias ditatoriais, dos policiais turbinados com grana do Estado e a cocaína do Morro sobressalente em seus olhos cheios de sangue e ódio, e que fazem esses seres opacos baterem e prenderem músicos de rua. Novamente, não estou falando de garotos revoltados berrando discursos ultrapassados em microfones distorcidos, mas de homens na faixa dos trinta tocando o mais belo funk instrumental com a técnica e o improviso dos grandes. Falo de “Coolritiba” e seus covardes bandidos roubando espelhos pretos como doces de criança, ladrões bundões furtando flautas e trompetes para trocarem por pedras. Tempos obscuros como esses demandam mudanças bruscas, e talvez todas essas injustiças recentes tenham reordenado o fundo dos quintais da mente, fazendo com que eu agora fosse um escritor que acorda cedo, sempre com um sorriso no rosto amassado, sinal de que a noite havia produzido sonhos no mínimo curiosos. E se os tempos modernos na cidade dos fantasmas governada pelo vilão do Batman ou por outro bebê dourado e mimado, nesse antro fedido e cheio de almas fodidas, mães psicóticas que abandonam seus filhos para depois ameaçarem pais argentinos com valores reais, patéticos advogados e médicos em busca dos reais, dólares e euros para gastarem em suas aburridas viagens por terras manjadas, essas palavras vão para todos aqueles que por qualquer motivo cabível, precisam habitar esse vilarejo chinfrim vendido como um comercial de margarina transgênica, e que já se cansaram de todas as drogas no mercado, drogas mais que necessárias para suportar o peso existencial de uma vida aparentemente sem sentido e com tantas merdas por todos os lados, e não me refiro somente as costumeiras: a pinga do dia, os triátlons de Tim, a coca-cola de Che, ou essas balas hipsters e papéis com nomes infantis ou pseudo espirituais droga nessa cidade pode ser a garota gostosa do seu lado, a faculdade para agradar os papais, a academia, o veganismo e todos esses malditos ismos, a banda mais bonita, o chocolate gourmet com 80% de cacau, a barbearia ou a hamburgueria que você investiu seus milhares, as novas séries do Netflix, a linha do tempo do seu feice, o grupo imaturo do whats, a igreja da esquina ou o espelho que você encara todas as manhãs.

Redescobri um barato novo, cantado lindamente há mais de meio século pelos irmãos Everly, “all I have to do is dream, dream, dream, dream”, ou “darn that dream” da bela Billie,… Ah! Sonhar faz um bem da porra! Definitivamente a droga mais potente se encontra nas profundezas do pensamento ilógico, no buraco da razão e na antena cósmica que faz a gente lembrar que apesar dos pesares e desse mundo populado por titicas desprezíveis, estamos conectados com realidades ilimitadas, planos e dimensões paralelas capazes de gerar histórias com roteiros imprevisíveis, personagens eternos, locações intercontinentais e lições espirituais. No final da jornada sigo questionando paradigmas e conceitos básicos como a morte, a matéria e a realidade. Sonhar é navegar por um mar de possibilidades sem as barreiras mundanas e gigantescas aqui na capital do pinhão e da jacuzice. A burrice, a vaidade e a pobreza de espírito não encontram solo fértil nesse campo imaginário, nessa terra sem dono, full of colours, emoções, experiências e sacações.

Poderia citar escândalos freudianos, esquemas junguianos, diálogos em páli inspirados por retiros zen-budistas, orgasmos olímpicos como nos versos de Simon, onde todas as ex-namoradas, ficantes e amantes estariam juntas para uma última noite, afinal, no sonho tudo é possível e tangível como a xícara do chafé que tomo pela manhã, e que muda de cor pela temperatura do líquido. Há mágica no sonho, a mágica que te teletransporta por entre ambientes difusos, situações malucas e te deixa com os olhos arregalados, com aquele gostinho de quero mais.

Quero mais dessas viagens lisérgicas atemporais, quem sabe Hofmann não estava atrás disso também, afinal a transcendência ou qualquer possibilidade de salvação passa longe de livros mortos, líderes podres, drogas fáceis, falsos iluminados ou como diria o John que você costumava imitar, “Você me diz que encontrou Jesus Cristo, que bacana e ele é o único, você me diz que encontrou Buda e ele está sentado com sua bunda no sol, você me diz que encontrou Mohammed de joelhos num maldito tapete, mirando pro leste, você me diz que encontrou Krishna, com a cabeça careca dançando pelas ruas. Você precisa servir a você mesmo, ninguém fará isso por ti.” E se for para agradecer alguém, que seja a sua mãe, jamais se esqueça dela e de tudo que ela fez por ti. De resto deixe que os sonhos derretam suas ideologias desbotadas, seus discursos políticos e toda essa ladainha que você comprou na liquidação do bairro decadente onde você provavelmente nasceu.

O mistério incandescente do superconsciente parece distante, mas não o ignore, ele pode ser a ponte para a verdade além das palavras humanas, a ponte brilhante que fará a esperança iluminar seus olhos cansados.

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Crônicas de Nácar #09: Cálices e a Santa Paciência

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O cálice de Chico e Milton explanado por Gil me faz lembrar do “cale-se” mental que ressoa mais uma vez na cabeça crescente e incandescente, borbulhando ideias persecutórias no vilarejo das mentiras convenientes. Essa história envolvendo o tio Jordi e seus parceiros do bom senso havia chacoalhado cantos obscuros carentes de sentido, e são nesses momentos e becos que sabemos onde precisamos estar, fortalecendo conexões sinceras de um passado recente, com gente massa que merece respeito, gente que sabe o que faz, gente sem a necessidade de gritar para o infinito horizonte todas as injustiças da humanidade, gente que entende que o verdadeiro papel do artista da vida é simplesmente continuar sendo e coexistindo em todos os espaços possíveis. Deixe a resistência para os indecisos, artistas não resistem, apenas vão continuar fazendo aquilo que sempre fizeram: arte em sua essência, seja no sax enferrujado do velho mestre e que ecoa nos prédios históricos de uma São Francisco cada vez mais decadente, ou no groove do baixo pulsando e se entrelaçando harmoniosamente com cada batida dos corações partidos de uma plateia de rua sedenta por cultura. A música seguirá guiando espíritos livres nas baladas solitárias de um mundo à beira do colapso, mais que necessário. As barreiras estão mais nítidas do que nunca. A paciência chegou em seu nível master, enquanto o grande mistério permanece lindo e tão puro quanto o brilho nos olhos dos velhos jovens. El amor despues del amor citado triplamente nesse espaço imaginário onde a liberdade plana sobre as nuvens cibernéticas, por entre fumaças coloridas, sinais eternos e limites invisíveis, esse amor precisa chegar no outro, ainda que esse outro esteja armado até os dentes e com músculos de algum personagem do quadrinho aventureiro de sua arrastada adolescência.  

Poderia berrar para os pais do vento algumas das atrocidades frequentes por essas bandas, bandas corrompidas por valores irreais, bandas e lugarzinhos tão pequeninos e mesquinhos, ocupados por seres opacos com cabeças cheias de vácuo. Caetano sabe que “o mundo é um fluxo sem leito e é só no oco do seu peito que corre um rio”. Policiais, médicos e advogados: vocês receberão os primeiros raios luminosos mais poderosos do universo, raios que romperão cada célula de seus corpos robóticos e que já não respondem por si há séculos. O poder e a ilusão do dinheiro comeram suas essências amargas, talvez em algum momento oportuno de suas escolas inventadas e com princípios maldosos. Chegou a hora desses raios penetrarem seus suados poros e fazerem vocês lembrarem da existência de algo que costumamos chamar de consciência. A consciência que fará vocês entenderem de uma vez por todas o real significado de suas supostas profissões, algo que clareie as relações interpessoais e faça vocês perceberem que do outro lado haverá outro ser humano, que precisa ser respeitado e compreendido. Deixe a arrogância no baú da ganância e que começará a ser enterrado assim que esses raios se aproximarem. Políticos, vocês também estão nesse bolo fecal construído por falsos pilares e ícones desprovidos de valores básicos, tão básicos como a terra que vocês um dia pisaram, pra depois cementarem e estragarem as esperanças de povos inteiros, cansados de serem humilhados e tratados como o lixo que vocês também esqueceram de reciclar. O admirável Novo subiu em suas cabeças e seus discursos bonitinhos estão tão desbotados como suas almas ou o brilho de seus olhos.

Sim, estamos nesse pálido planetinha inundado por belezas mil, populado por oito milhões de espécies não-especistas, espécies de todos os tamanhos e cores, espécies que valem infinitamente mais do que o seu prato de comida, seus diplomas ou seus contatos profissionais. Nesse mesmo espaço habitam seres obscuros enfeitiçados por antigos mitos e ritos, as velhas verdinhas e o eterno medo de diminuir o padrão econômico construído pela família ou seja lá o que for. Sim, estamos em um universo lindo e maravilhoso, mas com advogados que pedem instrumentos musicais em troca de serviços, médicos que preferem deixar mães nos hospitais em pleno dia das mães para assim receberem mais plata do plano de saúde, policiais que agridem, prendem e roubam equipamentos dos artistas de rua e depois ignoram assaltos covardes no largo da ordem higienizada pelos mesmos políticos que mandam bater em professores mal pagos. A lista de injustiças cresce exponencialmente, em especial em países onde as diferenças sociais berram. E serão nas republiquetas sem história que a ignorância será evidenciada, afinal são nessas “crises” permeadas por terrorismos midiáticos que a população sem reflexão clama por mais violência e pelo “mito” salvador que irá limpar o “crime” e a “indecência”, utilizando seus aprendizados oitentistas dos G.I. Joe´s ou “Comando em Ação”. Enquanto isso, esse sonhador de acá, continuará clamando pela intervenção alienígena que nos livrará do mal maior.

A esperança, o amor e essa utopia da liberdade precisam persistir, encontrando lugar no âmago da alma encardida e na terra das redundâncias permitidas, e nem que pra isso precisem passar por caminhos tão tortuosos, malucos e sem respostas fáceis. Hay que sentir, deixar as vibrações provocarem os saltos quânticos das bolhas mágicas e que farão você: policial, advogado, médico, político ou blablablá, sair dessa falsa zona confortável que você criou para si mesmo. E que a consciência de suas ações ressoe nos minutos antecedentes dos vossos sonhos, embalados pelo refrão country do velho Allen: “você precisa abrir a sua vida para algumas coisas melhores, você precisa abrir sua alma como uma porta, deixe o seu coração ir para onde precisa ir”. Isso sim, é vida real. Para os outros, temos o natal, a coca-cola e o sexo convencional.

 

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Crônicas de Nácar #08: Excrementos e Falsos Padres

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Sonhos intranquilos, sonhos coletivos e individuais. Sonho de religião, sonho da casa própria, sonho de comunhão, sonho que surge do nada e vai para a nata de outro sonho promocional recheado com o doce de leitevegano para os fundamentalistas e azedo para os fatalistas. Que nada, quero o bem deles, o sol é de todos e para brilhar basta não esquecer do protetor solar de Michael Douglas. Spray para os globais, óleo de coco para os naturalistas. Códigos e bizarros sinais, senhas implantadas, frases de sax, solos em fruit loops e la mala leche para los puretas, especialmente na cidade das frias primaveras e das verdades absolutas absortas em ideologias furadas. Ontem vi um cara defecar e depois manipular seus excrementos na parede esculpida por artistas consagrados de um passado distante. Enquanto encenava um quadro vivo de Sade, uma plateia o observava em plena praça púbica, os colegas riam e aplaudiam, enquanto outros seguiam na pergunta ocidental mais enferrujada e caduca desse meio. “O que é Arte?” Confesso que senti um leve contentamento quando o rapaz chupou seus dedos e assim demonstrou, ao menos para si próprio, esse lance de sermos uma coisa só e porquê tanto nojo de algo que sai de você? “Ah, mas eu estudo e pratico pra chegar onde estou, esse cara só precisou comer algo para poder cagar na frente daquelas cinquenta pessoas, pessoas que não tinham um programa melhor pra fazer.” É bro, mas por trás daquela cena havia um texto, memorizado e interpretado enquanto os olhos e os narizes se concentravam apenas nas fezes. Havia um contexto libertário e transgressor importante para tempos cinzentos e temerosos típicos das repúblicas sem histórias. Novamente me recordo da frase dita no megafone gralhento: “É preciso conhecer as estranhezas que acontecem por aí”. Hoje posso dizer que vi tudo isso pertinho de casa, bebendo um vinho com amigos. Percebendo e respeitando seus limites, como peixes em oceanos ou pássaros em altitudes pré-definidas. Deixe suas regras e suas leis pra depois, somos seres cósmicos e universais, mas deixe esse discurso nova era pós-tropicalista pra depois também, a mesma conexão espacial infinita está no chão que você pisa e nesse pó terrestre que nos criou. Seja humilde e respeitoso, de resto, viaje a vontade, viaje nos baratos filosóficos, canábicos ou cachaceiros de possibilidades mil, anos-luz de qualquer milícia com ou sem malícia, onde a censura mais profunda nasça desse autor de histórias sem fim e que deixou de ser ator de storylines repetidas com finais previsíveis para se tornar a água mutante de Bruce Lee.

A lua rosa do tio Drake aparece novamente, por entre xícaras da silva, folhas e pães caseiros, por entre lágrimas de frustrações, discursos vazios e sentimentos vulgares. O mago precisa ir pro lago para perceber que a realidade estava somente no lago. “It was forty years ago”, a luz estava lá e jamais deixe que a obscuridade familiar dos ciclos aparentemente diferentes atrapalhe sua cura interna. Tivemos paciência, porém uma hora a corda da inocência é rompida e os fiapos que ficam são lembranças de atitudes contaminantes, sujeiras no chão quadriculado de outro palco improvisado e que também fora aberto pra ti um dia.

Preciso dessa brecha e desses brechts inexplorados, preciso desse blues acústico do eterno garoto de 27 anos que morava em um castelo, preciso do tabaco bolado ressuscitador de ritmos esquecidos, preciso desses reluzentes olhos negros da mamma mia dos meus dias, olhos puros sem julgamentos prematuros, olhos jequieticongues e tibetanos, ojos del amor después del amor, olhos da maçã antes da mordida, observadores e hinduístas olhos de shiva que se aproximam do aniversário em inglês. Yes! It’s your birthday and we are gonna have a birthday party, afinal, o que vemos pode ser apenas a superfície de um oceano de conexões e incríveis mistérios compreendidos por seus baby eyes. Você é o que é e nunca ninguém precisa entender o porquê de você ser assim, me explicou Caldabranca, outro eterno jovem e que agora voa por praias celestes de países menos complicados. E que você também seja as free as a bird can be, ou como assobiaria outro Bird amigo, break it yourself. Nadie fará isso por ti.

I’m sorry, mas palavras não te salvarão. Sua história muito menos. Aceita-la pode ser o começo. Boas intenções ajudarão, pois os receptores estão cada vez mais atentos.

Luz, câmera… Ação!

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Crônicas de Nácar #07: Va Pa I!

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O calendário corre cego, os números, as datas e as fechas latinas de flechas incertas engolem os prazos e as aburridas deadlines, pra depois serem cuspidas e lembradas nas artificiais explosões de mais um fim de ano que se aproxima a passos largos, enquanto reparo nos itálicos caracteres que inspiram velocidade. Logo invadiremos o ar e os Arcaicos Módulos dos revolucionários e perseguidos, dos ratos e moscas que coabitam esse universo holográfico infestado por seres míopes e daltônicos, velhos rostos quadrados capazes de enxergar apenas duas cores e cinco bundas, porém com a incrível capacidade nomeadora de defeitos em série. Defeitos que estão lá fora, bem longe de si. LOL, escreveria algum boboca norte-americano. O colapso emergente mais que necessário carece de espaço em um plano reto visível ilusório e que fazem humanoides despedaçados acreditarem que estão em um patético tribunal, e o que nos resta é defender, acusar, ameaçar e cobrar, cobrar especialmente tudo aquilo que eles jamais deram. “É o juízo final, quero ter olhos pra ver, a maldade desaparecer”, cantaria o rouco avô Nelson, ou o maior acumulador de rugas sinceras que esse país já teve.

“El Uruguayo” está novamente nas linhas brancas e amarelas rumo aos gaúchos pastos e com a missão avermelhada de reunir seus falecidos pais, we’ll miss you man. Gente sincera e amorosa a gente sente falta. A palavra perdeu o sentido no século 21 ou talvez já no terceiro, enquanto essa lauda safada padece de sentido lógico a cada nueva linha. Hoje estamos inundados por caras que prometem e falam abobrinhas empanadas e cheias de tempero, pra depois virarem as costas e você perceber que elas, as abobrinhas, estavam podres e até o tempero era artificial. Sai o bandido e fica o homem e as vezes sai o homem e fica a saudade.

A segunda temporada terminou, o caldo azedou, o motorista já foi pago e agora devolve as tralhas de outro cara estranho que não soube valorizar o ouro que tinha, afinal também estamos infestados por princesas modelos prontas para deixar qualquer barbudo pulando de alegria, ainda que momentaneamente. Ficam infinitas lembranças e agora seu número favorito no letreiro de mais essa irônica crônica, no more Montana e Lousiana. Em paralelo, perdemos outro grande Tom do hemisfério duplamente citado. Ce la vie, as vielas seguem contorcendo os limites da vida real, enquanto os donos desse planetinha azul criam novas distrações para a vida irreal dos pequenos que pensam que são aquilo que tem, e cobiçam aquilo que todavia, no possuem.

Serão as vogais capitulares de outro culo testículo e que agora são substituídas pelo randômico “S”, que fará com que eu compreenda o sentido disso tudo? O “S”, uma letra tão bela e com uma forma tão incrível e perfeita, capaz de se conectar com histórias que se repetem, caminhos tortos que vão e vêm, como as reviravoltas desse sax parkeano eclodindo pelos auriculares, ou como a cachorra Janis transitando no balanço de seu rabo, por entre cômodos multidimensionais. Talvez seja a hora do café, and I better go e parar de repetir trilhas ou cambios de idiomas, entediando motoristas de uberalles, e outros urbenautas tocadores de flautas, ambos futuros ouvintes da rádio blast from the past.

E chega de piadas baratas ou otimismos relâmpagos, bem como a estrofe final do hino existencial do tio Bill, pois como ele, eu também já nadei em águas fluidas, mas isso é metano, contaminante até o osso e por vezes pensamos que não iremos conseguir. Obrigado por cantar mais essa bola em formato representativo de pérola, pois o “conhecimento bloqueia o nosso caminho”, ao mesmo tempo que as experiências e sacações e as quebras de fronteiras nos libertam. Va pa i!

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Crônicas de Nácar #06: Portas Abertas, Ladrões e Pastéis

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Garranchos orbitais de outra noite quente na casa mais estranha da cidade. A casa sem chave ou campainha. A casa das infinitas janelas. Na leiteira o gengibre erupciona as bolhas da gosma mágica que me fará um faraó babilônico e que, após litros de gim tônica na balada das senhas e das aparências, decide se recuperar do engodo putrefativo típico de humanos desalmados com juguetes de palavras raras por esses cantos, cantos e bizarros becos, cantos cheios de encantos e cantos brazucas com sotaques argentos, cantos com bancos desbotados e bonecas enferrujadas com cabeças de animais pré históricos, cantos de papagaios enjaulados e esbranquiçados, cantos que provocam desencantos harmônicos reais e prantos desregulados: meros desencontros quânticos, miragens emocionais e tantas outras baboseiras astrais tão vazias quanto as táticas imortais que apontam, mas não definem nada, bem como esse parágrafo inicial que já nasce morto e torto como o bar de outrora.

E se você já não aguenta as palavras e as centenas de caracteres estéreos e ilógicos, narrarei esses versos na nova rádio cultural das velhas ondas e com a louca locução vendida por trocados nos espelhos pretos causadores de distrações e interrupções e falsas interpretações carentes de ações e vírgulas, pontos, aditivos, acentos e mais bancos, dos concursos e dos absurdos capitais, bancos capengas que derrubam escritores viajantes, banquetas infantis e vermelhas, rodeadas por crânios de terror e da melancolia do escultor ucraniano dos cigarros escuros e das histórias verdadeiras, permeadas pela eterna dança das cadeiras de um circo de horrores esboçado pela bossa nossa de qualquer dia e pelas tosses secas da primavera precoce.

Estamos ficando velhos e doentes e não temos mais tempo pra perder. A vida é muito curta e não há tempo pra discussões e brigas, diriam os besouros dos tesouros manjados. Vamos para frente com a incoerência de sempre, vamos para o quarto plano, dos tatás e dos tetês, vamos adelante, chorar não adianta, se preocupar muito menos. Grato vovô Willie, por me lembrar pela enésima vez disso. Quero isso e mais aquilo e se possível, um quilo a mais daquilo Sampa. Um grilo a menos pra seguir acreditando nessa luz interior, fumegante e tão elegante como os acordes maiores brotados nos trens azuis de Tranes ou dos brothers Borges. Jorge, você também pode ser útil. Amado, te confundiram com Caymmi. Deixe de mimimi e siga assim, misturando crânios antiquados interessantes para donos de antiquários ou jovens descolados cultivadores de mofo, imersos em lodo e mangue, crentes na fantasia do amanhã e com mais manhas que as aranhas bêbadas e chapadas do comercial canadense e perseguidoras de amêndoas do grande espinhento celeste.

Falo ou escrevo confuso por ter o fuso horário mental desalinhado, falo ou escrevo por ter a mente mentirosa e cada vez mais cor-de-rosa, falo ou escrevo para lembrar que também possuo um falo! Falo ou escrevo por ter a necessidade de limpar com fio dental as arestas dos dentes pretos regalados pela so called vida. Falo ou escrevo por tentar ser isso que a gente sempre foi, falo porque também sou chato pra caralho e se você não quer me escutar ou ir na galeria bancária para ver podólogos travestidos de pedófilos, fique em casa no seu quarto seguro e colorido, fique em seu quarto com seu porto seguro imaturo, suas séries e seus mimos lindos, suas taras e seus segredos mais obscuros, se cubra com lençóis de indecência e depois se descubra alimentando seja lá qual personagem repetido você tenha inventado nas aburridas teias sociais, dos clubinhos quebradiços de qualquer escrota escola que você tenha sido malcriado.

Parece quase impossível quebrar essa casca do ovo cozido pelo virgem mouro, essa casca imensa e tensa que após o destroçamento essencial faz a gente ser esse ser universal e atemporal por tão pouco tempo, em frações enlatadas e refratadas por raios de bilhões de cores e explosões e bang-bangs interplanetários ou tão pequenos como a troca de tiros na empoeirada rua dos reis instantâneos, dos alvarás comprados e dos pastéis especiais produzidos por mãos sensíveis de mais um marinheiro só e que agora invade a cozinha de Letícia com ricos timbres olfativos salvadores de bad vibes. Pastéis de forno, do mesmo forno necessário para amadurecer o abacate verde do mercado dos pássaros solitários e símbolos de países andinos. Dica sagaz do sumido tio Jordi, crucificado pela cruz mastigada com cuscuz de outro cu masoquista segundo o anão zangado.  

O rango está na mesa e é hora de celebrar. Quer reclamar? A folha branca da caixa preta de pandora foi feita pra isso. E que o fim de mais esse enrosco ou esboço boçal fique pra depois.  Computadores fazem arte, artistas fazem dinheiro e outros artistas transformam dinheiro em origamis e de um jeito ou de outro, todos seguem atrás de uns trocados. Ce la vie, la belle verte!

“É duro engolir terrestres!”

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Crônicas de Nácar #05: Tiras, Números e as Velhas Camadas

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Choveu mais uma vez em Curitiba. Choveu a chuva que os curitibanos mais otimistas estavam anunciando há anos. Choveu, choveu, choveu canivetes como diria o amigo gralha, choveu palavras e gritos e fardas e lágrimas. Lágrimas de injustiça, lágrimas de tristeza por sentir que estamos mais perto do fim. E antes que eu soe demasiado fatalista, sigo sonhando com a compreensão mútua. Quero falar sobre esse fim que nunca acaba, apenas recomeça, se repete e depois termina como mais um texto prolixo com algumas conexões mais ou menos interessantes e outras tantas que ninguém vai entender. Entender o outro? Como entender o outro sem estar em uma insólita micro nave instalada em seus neurônios? Você nasceu assim, teve uma família que te criou, ou não, teve suas escolinhas, seu trabalho, seu país, seu signo e tantas outras camadas ilusórias desse umbigo e dessa palavra feia chamada ego. Por qualquer motivo você nasceu nessa época e por mais que você pense diferente, que sua alma é francesa dos anos 20 ou maia de 2000 anos atrás, você nasceu assim e jamais outra pessoa vai sentir ou ver as coisas do seu modo. Nem mesmo sua irmã gêmea criada na mesma caixinha. Supor, imaginar ou compreender contextualmente questões ou tretas alheias é outro papo.

Em Nácar, tudo azul para mais uma encontro lunático pós eclipse. Jordi Miami Vice me acompanhou ao mercado, na missão dos gelos e dos vinhos promocionais. Enchemos o carrinho e quando estávamos semi parados na fila do caixa invisível, um senhor com a braguilha aberta e com a expressão típica de urina eminente, nos pede licença. Prontamente engatamos a marcha ré, dando passe livre para o senhor acessar o banheiro que resolveria sua necessidade extrema. Retornamos lentamente para o outro lado da linha que separa os caixas da saída do mercado que não nos ama. Nesse instante, Jordi comenta “se a gente saísse direto sem pagar ninguém iria ver”. Pensei como sempre pensei em ocasiões semelhantes, auxiliado pelos capricórnios unicórnios em busca de mares navegáveis. “Não quero terminar a noite em uma delegacia˜, e em seguida cantarolei Temptation, da espera de Tom, enquanto o cabeludo Jordi concluía a dura tarefa de encontrar a menor fila do pedaço.

Passamos os gelos, os gluglus e os vinhos, que foram diretamente armazenados em uma caixa de papelão, com divisórias próprias para esse fim. Foi quando a garota no caixa parou e disse que precisávamos colocar etiquetas de “OK” em todas as garrafas, causando frustração para Jordi e eu, uma vez que a fila estava longa e as pessoas poderiam perder a paciência. Mais mente, mente, mind, suposições. Perguntamos se a nota fiscal não seria o suficiente, em outra suposta abordagem do segurança. “Preciso consultar minha supervisora”, que curiosamente já estava resolvendo outro enrosco para a colega. Nesse momento percebi: “A máquina da estupidez precisa seguir funcionando e assim, ninguém mais precisa pensar em suas ações, apenas seguir as regras que outros seres menores criaram. Afinal as regras vêm antes do bom senso, né não?”. Percebi também que a indignação do companheiro (só pra continuar provocando os politiks da banda mais fria da cidade, cheios de tiques e pra quebrar minha própria regra de não usar parênteses e agora dos professores que me ensinaram a não esticar muito essas curvas). Ajudei a moça-caixa colocando os adesivos errados nas garrafas corretas – o vinho continua sagrado e não seria ele o responsável por mais uma babaquice inventada por seres humanos ocupados em produzir separações e tristezas como aquelas já citadas, provocadas por esse bolo com fermento demais, receita da família, da cultura e por “La Sociedad”, exatamente como o nome de outra banda rabiscada em algumas das milhares de folhas brancas da cabeça explosiva dos freakie friends.

Aos poucos tudo ficará no seu devido lugar, e eu, o ladrão de versos desconhecidos e populares em outros campos, também regressarei ao começo, ao infinito e silencioso nothing, um lugarzinho bem confortável onde opiniões, regras, preconceitos e mágoas serão pontos opacos há anos-luz de distância, em um planetinha azulzinho, bem triste e injusto, mas com uma beleza infinita, bem como esse Eu maior e maiúsculo que temos dificuldade de sacar em tempos modernos pós junguianos, imbuídos de estímulos e distrações, lindas e horríveis, meras miragens holográficas de Talbot. Reveja o show de Truman and you will know the truth, leia o livro do Tim branco, ou escute o argento Tim ecoar os ensinamentos de seu mestre paulista.

“Não sei o que você anda lendo por aí”, ressoa una vez más o discurso evangélico de outrora e propagado de outras formas por falsos iluminados, extremistas veganos e onívoros, feministas e machistas, azuis e vermelhos, ingleses e alemães, metaleiros e pagodeiros, e todos esses seres que acreditam em algum cambio de consciência com tacos de bets ou beisebol nas mãos e a manipulável ciência-doutrina na outra, e esquecem de perceber que mudar de lado e seguir odiando o oposto é a brincadeira preferida dos adultos. Let the children play ou “deixe as crianças sozinhas”, pois professores como esses nós não precisamos mais, diria “Pink e o Cérebro” na tentativa de dominar o mundo pela maneira mais ilógica do horizonte: el amor después del amor, o amor mais que perfeito, o amor de roma, o amor em páli dos maravilhosos palíndromos reverenciados pelas caudas brancas do parceiro de rua.

E se o objetivo de outro enfadonho cursinho pré-qualquer-coisa que nunca fiz (graças a papai e mamãe por me poupar dessa também), ou quem sabe com todas essas regras eu conseguisse ser melhor compreendido, ainda que a sina de qualquer artista seja a escuridão e assim, se sentir um rei do rock ou do mambo, mais especialzinho e menos retardado, porém eternamente triste por estar só.

Finalize essa história de uma vez, seu garoto mimado! Tentarei antes que a bateria da maçã mordida se esvaia, e outra tentação reinicie outro conto sobre malandros fakes ou verdadeiros. “Fumamos muita coisa por aí e até ficamos todos reunidos em uma pessoa só” e assim, me tornei uma geleia de amendoim com açaí, em estilo buffet-brasil, misturando elementos demais e deixando todos confusos, os mamelucos e os cafuzos também e até os seis policiais que tocaram a campainha da casa recicladora de sonhos e fritadeira de mentes inquietas e humores swingados. E os outros cops que acabaram com os gritos de Fora T em plena praça pública, e mais aqueles que invadiram o barraco do mano da quebrada, empurraram sua namorada e depois o algemaram e o enfiaram em mais um camburão do governador playboy e que quase joguei uns amendoins nele quando o encontrei no aeroporto, meses após as bombas nos professores. Homens da lei na cidade do medo e no país dos bananas.

O “Escambau” que agora toca na vitrola mole do espelho preto me faz lembrar dos escambaus recorrentes e que quando as confusões se repetem demais, estamos “nos transformando e evoluindo, deixando algo pra trás” e hoje, depois de mais uma enxurrada necessária na montanha dos espelhos quebrados e dos símbolos falsos, araucárias e mais gralhas, hoje sinto a beleza dessas gotas batendo nos telhados baratos, e se “10% dos escombros eu escondi e nem sei como”, meu mapa do tesouro também teria um ou talvez quatro besouros, treze apóstolos que nunca li, magos e uma porção de vagabundos profetas, sábios sacanas, um pai-herói referência maior, uma mãe-amor conectora de destinos, dois grotescos vovôs deuses endiabrados e outras 69 lindas figuras femininas cheias de segredo e com nomes parecidos. Hoje choveu, choveu outras 1531 gotas de esperanza, do outro professorzinho, choveu gotas do artista sumido das gotas, choveu gostosas gotas de alguma liberdade que insiste em existir em um mundo cego dominado por zeros e uns. Hoje choveu, choveu sotaques e baques e bachs, choveu a gota mais preciosa, a gota do Om maior, a gota do abraço do amigo invisível. Choveu a gota de toda uma existência e que foi feita sob encomenda somente para… VOCÊ!

 

A felicidade fez mais um aniversário. Vamos dançar?