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Meu Último Retiro Espiritual

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Outro dia arrastado, sem brilho, com o sol escaldante de janeiro, desse janeiro que me deu a vida, outro mero detalhe pertencente a infinita coleção de coincidências e que por algum motivo ou outro resolvemos etiquetar assim. Quando estamos bem as coincidências são sinais divinos auxiliadores de caminhos. Quando estamos mal, bem, elas são apenas coincidências. Outro dia arrastado e dengoso, o almoço solitário ainda é um momento alegrinho, apesar de durar apenas 15 minutinhos. Cenas repetidas de um janeiro aburrido, sem metas ou grandes sonhos para perseguir. Dr. Robert me acompanha em boa parte dessas repetidas cenas de outro verão desperdiçado por entre tabacos bolados, cervejas geladas, chuvas torrenciais, conversas ralas, lanches rápidos, chocolates com coco, trepadas imaginárias, ervas e raios vindos da comunidade dos sonhos rompidos. Outro dia arrastado que passa um pouco mais ligeiro após a sesta necessária para aliviar o corpo cansado de tanto calor e tanta procrastinação. Outro dia arrastado que se transforma na noite infantil onde a arte dos encontros e dos acasos possibilita o mínimo de esperança necessária para trocar o chinelo pelo tênis astronáutico presenteado pelo irmão norte americano. E com Dr. Robert seguimos em busca de outro patético bloquinho de carnaval na cidade fantasmagórica onde certa vez era possível ver bandas inteiras tocando nas ruas, mas que hoje estava condenada as leis e regras capitalistas e separatistas, já que que agora pra ouvir som ao vivo, hay que pagar, hay que tener paciencia para aguentar o mesmo espaço com aquelas mesmas pessoas. O bom de ficar velho é perceber que ao menos os figurantes mudam sempre, e os bares continuam nascendo, ainda que boa parte deles morrerá em poucos meses. E nesses locais novos os figurantes parecem novos também, sinal que a cidade cresce e que a idade já não permite acompanhar tantas almas novas. Os coadjuvantes, esses continuam os mesmos, figurinhas carimbadas do álbum desbotado do campeonato da pseudo subversão, do trajeto largo-trajano-são-francisco. Os coadjuvantes são aqueles seres insistentes que ainda acreditam na magia das ruas e em todas as tentações notívagas típicas das capitais. Nesse sábado eu e Dr. Robert saímos cedo, acompanhados pelo cearense Purple Haze. Escutamos o burburinho vindo das ruínas e provocado por algum bloco carnavalesco formado por travestis e simpatizantes. Outsiders que somos logo nos sentimos desconfortáveis, não pelos travestis, mas por toda aquela alegria desmedida que naquele instante parecia não caber em nossos corações quebradiços. Fomos para a vila dos perdidos, encontramos velhos conhecidos, bebemos cervejas de litro, trocamos algumas ideias e logo o grupo se desmembrou. Eu e Dr. Robert fomos para o último bar da região, the b-side made for punks and rock’n’rollers e com aquele chopp supimpa por menos de dez pila. Degustamos o líquido ruivo sentados na calçada elevada pelas pedras conectoras de árvores. A noite ainda era jovem e os possíveis desdobramentos permaneciam nebulosos. Na subida da Trajano Dr. Robert se interessa pelo convite do show dos racionais do groove no porão dos gaúchos, e se esvai na penumbra e na companhia de outros compadres. São onze horas da noite e eu já estava cansado de tudo aquilo, sentia que precisava retornar ao lar e descansar.

Quem diria que um tombo precoce em plena noite de sábado seria capaz de me presentear com sonhos tão lúcidos e profundos como aqueles que experienciei e que me fizeram despertar as sete da matina com os olhos esbugalhados e a alma massageada. Ainda que o mundo lá fora sinalize seu fim, protagonizado por capitães, empresários e doutores mentirosos que cultuam o dinheiro e o poder, abraçam as armas e a violência, coroando a estupidez de suas mentes vazias, ainda que esse mundo aparentemente real esteja mesmo próximo do fim, fico feliz de perceber que do outro lado todo esse caos parece fazer algum sentido. E se lá fora tudo é decadente e repetitivo, nos sonhos tudo parece fresco e é preciso viajarmos nas profundezas desse mar de símbolos e sacadas infinitas com o intuito de diminuir essa dor e esse peso de uma existência em um planetinha tão atrasado e capenga. Universitários dizem que só nessa galáxia existem pelo menos 100 bilhões de planetas e você consegue imaginar todos esses lugares fazendo tanta merda quanto fazemos por aqui? Bem, talvez nesses outros cantos o bem prevaleça, mas ainda sim, aqui temos os Beatles e todas aquelas belas canções para nos lembrar que em alguma dimensão o amor triunfará. Também temos um dos poucos alemães que deram certo, um tal Jung para nos lembrar da importância desses sonhos malucos e curativos. Não poderia deixar de citar um tal Lynch que costuma trabalhar a potencialidade criativa desses sonhos em seus filmes. E é sobre um desses sonhos que tentarei descrever em detalhes nas próximas linhas.

Estava em um sítio ou alguma espécie de retiro espiritual, um sítio dentro de Curitiba, onde em alguns locais era possível escutar o barulho dos carros. Havia mais umas duzentas pessoas comigo, vindas de diversas partes, algumas delas personagens de diferentes épocas da minha vida. Apesar de parecer estar em um retiro, não havia muitas regras, era possível falar a vontade, os quartos eram grandes e não havia camas, apenas tapetinhos. Talvez a única regra é que ninguém podia consumir drogas e também não havia nenhum ritual xamânico com uso de alguma substância psicoativa. Ficava quem queria ou quem aguentasse aquela experiência maluca de conviver em um sítio com aquelas duzentas pessoas. Encontrei uma antiga namorada, encontrei um antigo colega de faculdade que parecia estar na mesma dimensão de antes, buscando sexo fácil com alguma colega do retiro. Encontrei um ser muito particular que parecia representar a cachorra aqui de casa, nossa relação foi intensa e ele me disse tudo que a cachorra sempre quis me dizer durante todos esses anos que estivemos juntos. Encontrei outro cara que como eu, já havia participado de um retiro de dez dias em silêncio, e também parecia estar desfrutando cada momento, já que ali era possível tagarelar a vontade. Escutava gente filosofando sobre a vida e outro detalhe que me chamou atenção era que a maior parte das pessoas usavam máscaras como forma de esconder suas identidades. Outras usavam camisetas de super heróis e lembro de dar um discurso sobre isso, teorizando sobre esses tempos modernos onde filmes e desenhos fazem adultos continuarem querendo ser super heróis. Além dos quartos, havia refeitórios e locais naturebas onde eram oferecidos sucos feitos com frutas exóticas completamente desconhecidas.

Apesar de inconclusivo como a maior parte dos sonhos, quando despertei me senti contente e energizado. Ainda que o mundo real pareça enfadonho, nos sonhos vivencio intensamente cada emoção: choro, rio e me divirto também.

 

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Somos todos crianças

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Memórias recentes de gente que sente que esse mundo gira uma vez mais: hashtags iludem os esperançosos, fatos e números assustam os apocalípticos, enquanto nos primeiros minutos do ano novo crianças preenchem o palco iluminado do festival musical que lembra a todos: os bons tempos voltaram. No centro do tablado o homem chucro preenche os espaços de uma banda inteira, símbolo dessa época onde artistas auto suficientes provam que o agito pode ser feito sozinho, e que prova maior que os pulos e sorrisos das crianças de olhos fundos e corações puros. Filhos e filhas de vestidos multicoloridos, cabeças flutuando em pensamentos sem etiquetas, pés descalços deslizando sob a poeira cósmica encantadora de montanhas.

Me sinto como uma criança de Devendra! “Desde o umbigo até o túmulo” seremos crianças, apesar dos pesares e das contínuas mudanças de ares, seremos crianças aprendendo através da natureza dos sonhos a sermos aquilo que sempre fomos: crianças. Inventivos e intuitivos seres livres bailando danças ancestrais livres de julgamentos carentes de sentido. Viramos o ano mais obscuro do século ao som das canções inglesas mais cantadas da história desse decadente ocidente onde as regras parecem ser a régua dos homens com corações e mentes duras. Haja hinos espirituais, versos pop cravados no inconsciente coletivo recente, perpetuados por bandas sessentistas, haja canções praieiras ainda mais antigas, haja joãos, chicos, gils, caetanos, donovans, dylans, cohens, bowies, kevins, jorges, rubens, fitos, charlies, zés, almirs, céus, cátias e gals cantando eu te amo como só ela sabe fazer. O planeta das composições amorosas segue sua expansão em escala multidimensional e é nesse espectro que precisamos estar, certos sobre o incerto mundo externo, plenos sobre esse mundo interno feito do amor capaz de cicatrizar todo esse ódio mal resolvido. Ansiosos reflexos sem nexos, invisíveis intervenções, sensações, sacações amplificadas em grandiosos luares.

Hibernações em calorosos entardeceres, necessárias para a reintegração corporal após outro longo ano que passou tão ligeiro quanto esses raios cerebrais conectores de ideias. Raios que tentam costurar histórias desse passado esmagado por exclamações, rompimentos e as infinitas reticências de sempre.  

Vamos lá garoto, eu sei que você tem sonhos grandes e apesar de agora essa lógica provocada pelo caos das ideias repentinas transformadas em meras palavras ritmadas e que apesar de darem forma ao pensamento reduzem as sensações aos conceitos limitados pelas letras que em conjunto definem palavras e que dependem do repertório do receptor para ganharem algum valor real, um valor talvez maior quando a ausência de pontuações pode provocar inquietações na respiração desse mesmo receptor. E se a comunicação é o grande mal do século e é através da tecnologia que o mal opera e faz gente de bem eleger políticos de araque, me sinto cada vez mais ilhado nesse universo literário preso em alguma cápsula do tempo. Um tempo remoto onde pessoas ainda se interessavam por pensamentos originais, um tempo distante onde a tecnologia ainda era nossa amiga. Hoje me decepciono cada vez que recebo alguma mensagem compartilhada e que provavelmente fora produzida por máquinas responsáveis em separar o povo, criando lados imaginários, vilões ou mocinhos irreais, um espetáculo midiático tão banal quanto a última novela das oito.

Enquanto isso, os longos dias no hospital das nações seguem gerando reações adversas. É incrível perceber que enquanto o mundo lá fora sofre a aceleração degradante de um sistema em colapso iminente, enquanto as almas podres disputam o poder, enquanto a ganância dos doutores e advogados alcança níveis estratosféricos, enquanto a separação de classes cresce exponencialmente, enquanto as contas atrasadas se acumulam, enquanto as nações sobrevivem aos trancos e barrancos, enquanto a finitude do planeta ilude sonhadores que sonham com o dia onde o ódio e o mal não encontram mais lugar, os pastores pregam, os jogadores jogam, os cães ladram, os escultores esculpem, os cantores cantam e os escritores escrevem. Enquanto tudo isso rola ao mesmo tempo, os longos dias no hospital das nações me fazem perceber que o maior exemplo de vida só pode residir em você mamãe, a maior lutadora que conheci, dona dos brilhantes olhos negros mais sinceros que já vi. Profundos e divinos olhos negros guiadores de horizontes onde o amor jamais cessará.

 

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Crônicas de Nácar #10: PAIxões, MIstérios, Mimimis, INterrogações e mais E´s

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Sábios ciclones assustam os vergonhosos clones liderados por robôs sem ossos, capazes de adulterar direções políticas no abastado Estado em estado de degradação espiritual. Um Estado que seria bastardo, caso seus pais não fossem revelados em qualquer bar do lado do centro do peito. Haja bebidas, hormônios injetáveis e drogas pesadas para sustentar esses seres opacos, ralos em sentido. Haja música enlatada e martelada nos mercadinhos dos arianos distantes dos Suassunas. Mentindo pra si próprios, quebrando seus pescoços de tanto olhar para seus umbigos, ou pior, para seus espelhinhos pretos capazes de replicar sacanagens e lorotas na velocidade de outro trem bala construído com dinheiro público, superfaturado e escondido por debaixo de seus pelos púbicos. Mas é mais bala que vocês querem, BBB? Bala, boi e bíblia? Boa, bonita e barata? Recatada na sala e safada na cama? Maaaaaaaaama! I don’t want to die! Lamentos do morro sem forro ou fórum privilegiado? Ahhhh! Pare de chiar!

É só isso que ouço falarem por aí: nos supermercados campeões de promoções, nas casas de sucos comandadas por kamikazes, nos super carros transformers atropeladores de seres humanos, e claro, nas bancadas onde velhos babões de narizes brancos aprovam leis a toque de caixa dois ou três, cortam direitos e selam bocas dos educadores com dores seculares provocadas por sobrecargas materiais carentes de mandalas. Enquanto isso, professores gagás que viram seus colegas levando bala em plena praça pública e depois se esquecem desse passado recente e conseguem eleger os mesmos carrascos. But wait!

Na na Nina não, essas linhas não precisam ser tão cinzas assim. Deixemos as anatomias cinzentas para as séries procrastinadoras do viver, do saber e desse presente sem mente chamado ser. Deixemos de lado todo esse vermelho sangue dos jornais, dos rurais e das ocupações periféricas em situações irregulares? Deixemos essa mania dos plurais, de querer falar por um grupo inteiro? Generalizar é bacana? Capitanear é preciso? Arranque logo esse seu siso e dê um riso de uma vez por todas! Liberte esse bozo que existe em você! Seu bigode é falso, mas seu coração permanece ensanguentado. Precisamos soldar algumas ideias juntamente com Mettagozo, a caçula, a bolhuda, a corneteira e a sua parteira? Áudios berrados e compartilhados em salas vazias, bochechas infladas, argolas douradas, por entre fotos chilenas com chinesas texanas de dimensões basqueteiras e cachorras estriquinadas com pulgas e vacinas de câncer de rim inventadas e compartilhadas por gente enrugada inocente, enquanto os gases e as piscinas de Liverpool se enchem do vermelho natalino inventado pela marca multibilionária que ultrapassou o pé chato de Pelé em fama nesse globo onde o aquecimento ficará pra segundo plano?

Esquisitos resquícios de outro ano de infinitas polaridades, passados passados no ferro de passar a velha roupa colorida por esse tempo curador, o mais antigo mestre dos magos nadadores de grandes lagos, monges pansexuais rumo aos novos centros energéticos conectados as imensas cordilheiras de outra América em fase de Redescobrimento. 15 meras “eloquências dialéticas” profanadas pela princesa dos mares e das marés altas e baixinhas como essa pessoinha que começo a traduzir. Brancas palomas nesse céu azul de dezembro dessa nova lua inspiradora de sonhos intranquilos dos ottos e das motos assustadora de ritas. Minutos separam a longa saia preta das minutas que ela irá desfrutar no país dos mateiros.  

Baja la tierra no baixio das bestas e das prolíferas referências, das carências e carícias desse marinheiro só, aprendiz da capoeira angolana, de outra profana dança do baile horizontal e cada vez mais próximo do chão de estrelas, essências misturadas ao pó terrestre humilde e sereno como esse universo pleno que cresce e se contrai como o beijo do pai outrora ausente. Now she is gone, gone with the wind, pro vento hermano, pra longe do rio vermelho de iemanjá e do branco preto com o teto nos joãos brasileiros e ingleses. Ritos e reais mitos, dodecafônicos biotônicos dos já saudosos ivens pioneiros ergonômicos da cidade dos pinhais ou dos pinheiros conhecedores de canciones afro latinas. Somas de sentimentos e de e’s e de tantos ET’s preenchedores de silêncios, agregadores e’s que confundem o cerebelo nada belo do guarda belo que tenta, mas não compreende. Tarantelas autorais dos tatás com patas e barbas rancheiras reprodutoras de fãs ou cavalos baixistas com baterias inchadas e cucas rachadas. Amarantes bebendo amarantos, elefantes africanos comendo amarulas, argentos degustando Clarices, fluxos beatniks, titanics em imersões sem sanções. Rosas, zumbis dos Jorges e das crianças bebedoras de cajuínas: Joinas, Joanas, Julianas e seus alfajores preferidos. Habladurías propositais opostas as maledicências das línguas sicilianas tão ácidas como os limões dos sampaios. Escrever é como desenhar, hay que soltar! O barato é escutar as batidas das baratas de Max, do sax sem pudores passeando pelas cores claras de outra tarde ensolarada.

Seria tudo parte de outra Pasárgada feita por retalhos da bandeira multiversal de outro escritor amador flutuando nas semanas astrais que antecedem os cumpleaños de ciros, posses cheias de tosses ou encuentros familiares rompidos por correntes virtuais? Ora pro nobis, me ajude a lembrar de sempre orar para o tempo parar? Thanks Kinks por acrescentar que o tempo cicatrizará todo esse ódio mal resolvido. Elliott, sua história também foi marcada por question marks?  C ́est fini! Velho Allen, veja bem mais além, tudo ficará bem?

Yes! Yes! Yes! Na “rádia”, no bar ou no mar, eu sei que vou te amar!

 

*** disponível em áudio pelo site da Rádio Cultura de Curitiba ***

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Chilenos, Luzes, Viejos e notas Verdes verticais

pace_jodorowskiO tic-tac do relógio biológico dela gelou meu coração operado, especialmente quando senti aquela fria pulseira por debaixo das cobertas. Despertei com o bigode de Dali, ou um mix promocional Mussolini-Pasolini na seção italiana do mercado dos festivais e das atendentes sorridentes trabalhando a paciência de Jó. Escravas de Jó? Sorry baby, mas a solitude é minha mais antiga amiga. Seu relógio era de ouro falso, banhado pelas metas, barganhas e sistemas, típicas desse ocidente acidental incapaz de curar dentes ou problemas verdadeiros. Garotos mimados parados na era medieval ainda que seus novos brinquedos sejam espelhos pretos desconectados com a vida vivida pelo presente presenteado pela simplicidade do sentimento. Little boys brincando com armas e drogas. Crescem e continuam no mesmo joguinho ensinado por padres e abuelos ingleses, alemães ou hollywoodianos. Armas coloridinhas feitas do plástico poluidor de oceanos. Armas feitas em impressoras 3D outra grande invenção usada para fins bestiais. Drogas travestidas de chocolates industriais com o açúcar invertido inimigo do sangue puro diametralmente oposto àquele ariano de outrora. Guerras são tão irreais quanto esses papéis esverdeados que fazem os covardes do poder se sentirem superiores, enquanto suas hemorróidas ardem, seus narizes crescem, suas luvas desaparecem e seus umbigos sentem saudade do tempo em que os cordões ainda os conectavam com o amor puro materno. Um amor infinito, fraternal, esquecido e trocado por carreiras repetidas, carreiras corrompidas pela ilusão monetária que faz filhos e chicas competirem com seus descendentes. Hijos são como pajaritos, precisam voar, cantar, se arriscar e riscar pelo menos por um tempo, a vida em sociedade.  

Claudio Laranjo me lembra dos alemães famosinhos que se curaram indo pra Itália, provavelmente vilarejos centros desse movimento caracólico-slow, onde o desenvolvimento humano, intuitivo e sentimental ainda pulsa, ou como Arnaldo Itunes “o medo de ser” já não assusta tanto e independente da enxurrada de enfermidades alarmadas por aí: “o pulso ainda pulsa”. Na Alemanha, e por favor, inclua o Reino Desunido, os “States”, e todos os países dominados por esses falsos impérios, inclua todos esses Capitais nesse imenso bolo fecal mascarado como desenvolvimento mental: um desenvolvimento competidor, aparente e raivoso,  amplificado em épocas eleitoreiras, vomitado por mentes mentirosas sem rosas, gente robótica, gente invejosa, gente bundona,… “this is chicken town!”, berraria Dylan-Haynes em filmes rompedores de rótulos. Gente presa na história do papai e da mamãe, do vovô Ovo e da vovó Mafalda,  e que jamais se preocuparam em ir atrás de seus sonhos reais, suas profundas existências, sem o famigerado peso cultural, social ou familiar. Olhar para dentro requer coragem? Se comunicar pra fora exige bom senso, princípios básicos, sinceridade consigo mesmo?

A sinceridade do advogado músico que para tirar seu pijaminha, pede o instrumento de trabalho de outro músico: preso, condenado, “acorrentado pés e mãos” ao lado de um poeta negro sexagenário e tratado como bandido alborguetiano por quatro dias, apenas por tocar jazz instrumental às 21h da noite de um sábado em pleno centro histórico de uma capital cultural? A sinceridade da policial feminina de olhos trincados rompendo a cabeça de um homem recém chegado na cidade mais educada e politicamente correta desse canto de mundo? A sinceridade desse mesmo músico que quando oferecido um serviço voluntário prefere pagar uma multa injusta ao estado facho? A sinceridade do “Doutor” X “Hospital” X “Plano de Saúde”? Ganância de rico não acaba? Alegria de pobre dura pouco? Orgulho? Retorno ao passado materialmente pobre? Do Porto ao Porto? De Bar em Bar? Zé Riquinho e Milionário vão te salvar? Separação de classes? Manipulação midiática em pleno feriado dos mil militares? Vampiros do Pó der? Mettagozo, você será meu eterno bozo!

Faz sol lá fora, mas os zombies continuam enfurnados em suas batcavernas recebendo doses cavalares de informações teatrais e mais parciais que as pesquisas das bocas roxas de outra urna vermelha e azul. Um dia ela será violeta, parra, e para ser única e indivisível! 

Cientistas avançam os gigantescos e primeiros passos de Darwin e percebem que a evolução, ao menos em tese e muito antes desses vergonhos humanos existirem, sempre foi cooperativa. O microo e o macroo aos poucos soltam mais esse laçooo.  

“Não há nada mais espiritual que um baile horizontal”, canta o argento Kevin Cohen, outra dica tropicaliente que pode ir além das ralas interpretações. “Estou na terra de Macondo e aqui ninguém tem a razão”, pois é, onde o coração e a humildade afastam pseudo intelectuais de seus pré-julgamentos aburridos a vida ainda é bela, seja em partes da Itália de Benini, Colômbia de Garcia, Chile de Jodô e Naranjo, Alemanha de Jung, Áustria de Reich, Equador dos Lopez, Haiti, Bahia, São Thomé das letras, Superagui off-season, Sua Cidade Natal, ou até mesmo em Coooolritiba!

Nesses recantos, mitos e lendas são seres de carne desossada que sentem o verdadeiro significado das letras que formam essa bela palavra chamada… Empatia.

Antes de opinar, hay que sentir. Para sentir, hay que viver, experienciar, adentrar. João e o Japão dão outra little tip: I…solaaaaaaaaaaation!

“O seu irmão não é só aquele que te dizem que é seu irmão, mas aquele que está na sua frente nesse exato momento”, disse o motorista antes de outra viagem horizontal. “Gentileza gera gentileza”, disse o pichador mais famoso de Sampa.  “O amor cura, ser gentil é uma tarefa diária”, disse o quadro africano na parede. “Jesus don´t cry”, disse Will Cooperador. “Jesus says”, disse a cópia da cópia.

Gracias pelos consejos sem espejos, merci pelos números que guiam, e assim me despeço embarcando no expresso 2222 que parte de “bonsucesso pra depois”. Pra depois de mais essa novela clubística fool te bolística, e please, please me! Podem me chamar de o idiota da montanha, pois como Cohen me lembrou, o segredo da vida pode estar naquela flautinha!

 
Hello Lightness, I come to see you once again.

 

foto ilustrativa: An Evening with Alejandro Jodorowsky | MoMA

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Blues e Delírios em Anto Nina

pace_bluesLá estavam eles, novamente no vilarejo charmoso e cheio de histórias pra contar. Antonina, ou a A Menina dos Olhos Rojos como havia sido batizada no ano passado, também estava lá, onipresente e pronta para outro evento blueseiro de proporções internacionais. Os pregadores do bom e velho blues também marcaram presença, de frente para a igreja matriz, convocando todos os anjos e demônios criados por esse estilo nascido nas fazendas de algodão. Escravos negros munidos de um talento nato, sorrateiros lamentos rompendo barreiras geográficas e sociais, e que ecoam até hoje pelos quatro cantos de um planeta em processo desconstrutivo, especialmente em becos populados por corações despedaçados e pulmões esfumaçados. São nesses becos que o blues sobrevive e certamente Antonina possui uma porção deles. Cenário perfeito para a explosão dos choros em forma de solos, protagonizados por guitarras em extinção, sinal dos tempos modernos. Cenário necessário para a construção da quarta edição do festival que precisou ser adiado por conta da greve dos caminhoneiros, sinal dos tempos sombrios permeados por políticos esquizofrênicos e presidentes ilegítimos. A Música, essa eterna companheira, segue pulsando e unindo mentes conflitantes, através dos corpos inquietos que vibram de acordo com o ritmo, ignorando posições políticas e ensinando que a música ou a arte não possui fronteiras. Elas estão no terraço blindado do prédio, enquanto as leis humanas moram centenas de andares abaixo, provavelmente no primeiro piso ainda sem janelas, onde os burocratas também costumam trabalhar e atrapalhar os planos daqueles que buscam a felicidade através do conhecimento interior.  

Lindos recuerdos de um fim de semana pra lá de especial. Nem tudo são flores quando a missão é fazer com que 25 planetas distintos orbitem em torno do mesmo objetivo. É nesse instante que começo a lembrar desses instantes inconstantes extremamente comuns e sempre carregados de significados: tetinhas e tretinhas, socos em monges índios, sumiços wallyanos, viagens marcianas em luas sorridentes, estridentes acordes azuis no festival dos horizontes, doces momentos sem tormentos, movimentos orquestrados por sinais visuais, raios e mais acordes de sol, deliciosos bobós de siri acariciadores de estômagos, vinhos produzidos por abelhas boêmias, jogos da copa das decepções, madrugadas embaladas por canções de jukebox, colchões esparramados na casa dos artistas, contundentes jams na avenida principal, místicas coreografias líquidas, improvisos musicais na oficina mecânica, saudades argentinas da filha finalmente livre, blues das antigas na padaria dos sonhos de nata da nata das bandas de um homem só, desfile de chapéus no restaurante dos sombreiros e dos mangues, titãs afundando como titanics, senhoras embebedadas por cataias sensualizando e bulinando plateias mais sérias, portuguesas sequestradoras de baixistas sentenciados, camarotes culturais de rádios am, irmãos roqueiros apavorando no blues gringo, gigantescos pastéis artesanais, obscuros encontros em fachadas históricas desmoronadas, rio e minas embelezando as brisas responsáveis por abastecer panças famintas, vagões e ornamentos carnavalescos emoldurando comboios emanadores de good grooves, o blues de chicago encontra o funk de Tim Maia, Elmore James Brown no palco principal, pioneiros do blues paranaense em reunion, criaturas do pântano animadoras de tardes ensolaradas, talentosos cabeludos obesos contadores de lorotas, pés vermelhos lançando discos em códigos digitais, paulistas interioranos viajantes do tempo em barracas de cachorro quente, símbolos e mais símbolos, êmbolos surreais que embolam na memória capenga e que agora se esforça para unir essa colcha de retalhos temperada pelo alho frito da frigideira das emoções livres de razões. Rimas dos amores, das dores e das loucuras oriundas desse blues cafetão capaz de penetrar almas opacas carentes de sentido.

E enquanto o mundo desaba diante desses nossos olhos rojos, talvez o melhor a fazer seja beber ao som do blues, assim como o cozinheiro verde havia dito na época em que esse festival permanecia no campo das ideias. Quatro anos se passaram e esse conselho parece ainda mais certo. Let the good times roll.

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Eternos Fins de Semana na Cidade do Outono Cinza

pace_murosilusoriosFalsas notícias no feice das aparências, o medo da foice e a perplexidade estampada na face. Nos sonhos sinto cheiro de esperança e sou o tagarela do passado, no presente me emudeço com tanta ladainha e essa ausência de perspectiva no país dos maldosos pais. Pais que mentem, extorquem, desviam e ainda vendem o país para o estrangeiro. Temerosos pais, pais que batem em professores e ainda anseiam por cargos mais altos no congresso disputado por cobras e ratos engravatados. Na cidade do outono ensolarado e ao mesmo tempo mais cinza da história, um vizinho dispara quatro tiros e mata um baixista simplesmente por estar incomodado com o barulho alheio. No espelho preto nas mãos cada vez mais vazias, mensagens apocalípticas se proliferam em grupos familiares, grupos de amigos antigos, grupos de gente que prefere ficar em casa escrevendo ou compartilhando essas mensagens, ao invés de sentar no bar e rir, ou talvez chorar coletivamente, em sinal de empatia. Se for pra ficar em casa, prefiro o caos das rádios alternativas, os poemas em reverb, os verdadeiros e sorrateiros programas da madrugada. E assim, o vinho nacional de 12,90 começa a fazer sentido.

Os anjos da morte dos castelos de Jennifer me acompanham pela pacata caminhada rumo as máquinas do dinheiro. Agradeço pela companhia, afinal, hoje é o dia deles e também o dia de lembrarmos que o latim continua sendo um idioma vivo. Engraçado pensar que a morte faz esse idioma se tornar vivo. A morte não precisa ser necessariamente física. Morremos todos os dias, morremos de amor e morremos de ódio também. Esse mesmo ódio perpetuado por gente com mania de escolher lado: seja no futebol, na igreja ou na política. E aqueles que como eu, preferem o muro, são julgados por ambos os lados. Prefiro acreditar que esse muro é ilusório e está sempre atrelado às infinitas condições, que costumam variar de acordo com a época ou pior, de acordo com as vantagens pessoais vislumbradas por ideologias de araque, compradas no boteco da esquina, cada dia mais obscura.   

É na madrugada que tudo começa a fazer algum sentido. É no silêncio dessa escassez de estímulos e interrupções que as peças parecem se encaixar. Viagens atemporais dão vazão aos verdadeiros temporais mentais, pensamentos desconexos tão rápidos e efêmeros como as piscadas em frente a tela branca formada por milhões de números binários. Os números binários podem ser irrelevantes, mas vivemos em um tempo onde números são tão importantes quanto os próprios seres vivos. Uma ida ao posto ou ao mercado após a greve dos caminhoneiros comprovará essa teoria facilmente. E se as estatísticas são manipuláveis, os orçamentos estão longe de ser. É preciso uma boa dose de otimismo para enxergarmos essa luz no fim do túnel. Nessas horas, a criatividade aponta os caminhos possíveis. O grande problema talvez seja perceber que não estamos sozinhos nesse trem verde e amarelo. Dependemos de decisões coletivas e talvez em algum âmbito mais microscópico, decisões individuais tomadas nas tais urnas anônimas, caso elas de fato ainda possam existir. Só posso esperar que ao menos esse direito, eles não tirem da gente.

E que venham as intervenções, literárias ou alienígenas, obviamente.