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Impressões Montanhosas

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Os últimos acordes estridentes do power trio invisível reverberam pelas montanhas, poucos minutos passados da meia-noite e para uma plateia encantada. Era o fim de um festival dominical que contou com a presença de uma série de artistas obstinados na criação de uma atmosfera amiga e unificadora, responsável pelos sorrisos contínuos de um dia dos pais atípico.

O cenário não poderia ser melhor: no pé da serra do mar, no portal dos sonhos possíveis, onde a natureza e o homem parecem provar que os dois podem conviver em harmonia, sem as distrações da cidade grande e com o sentimento mútuo de gratidão. Gratidão pelo lindo dia de sol e pela noite terna sem os costumeiros ventos gélidos do inverno paranaense. Gratidão pelas pessoas maravilhosas que por ali transitaram, tocaram, empolgaram e simplesmente existiram.

No palco das couves e das pedras, tivemos vulcões teatrais em erupção espontânea, chorinhos transmutados em roquinhos oitentistas, a voz marcante de Barretos acompanhada pelo tempero beltrâmico de sempre, os sons espaciais e transcendentais de um casal afinado com o universo, a eloquência e a malemolência dos garotos flamejantes, e por fim, o improviso psicodélico do trio já citado.

No café, tortas, bolos, pizzas e chapates artesanais, feitos com o carinho e a atenção necessária para transformar cada prato em uma experiência gastronômica com proporções astronômicas. Enquanto isso, na portaria, um maluco ex-cabeludo propicia minutos de puro prazer com seu brinquedo para todas as idades, um óculos capaz de teletransportar o sujeito para terras inusitadas. No bar, as cervejas trincavam.

Ainda em paralelo, aconteceram belas oficinas cheias de informações fundamentais para entendermos um pouco mais sobre essa tal América Latina, ou sobre como comermos de maneira saudável, sem precisarmos de animais ou fogões.

Poderia seguir citando as demais atrações, como as incríveis esculturas do artista tímido, ou o maravilhoso artesanato indígena local, ou ainda o charme do brechó com preços ainda mais charmosos. Poderia escrever linhas sobre o carimbó paraense que botou todo mundo pra dançar, poderia escrever muito mais, mas o fato é que fatalmente eu cairia no clichê de dizer que faltariam palavras para descrever a monstruosa satisfação de poder fazer parte dessa nova proposta cultural com potenciais inimagináveis.

Um abraço, daqueles cósmicos e atemporais, em cada alma presente neste dia. Esperamos poder repetir a dose, em uma outra ocasião, “circunstância, situação”, como diria o saudoso Júpiter. A montanha também pode ser um lugar do caralho.

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Meia Noite na Cidade das Separações

pace_isaA abelha esbarra no copo de vidro adquirido na promoção do mercado. Os cacos se esparramam pelo chão. No sinal vermelho a moto de corrida desafia a velocidade do som. A roda toca o paralelepípedo arremessando o condutor para longe. É meia noite na cidade grande e coisas estranhas começam a acontecer. O seriado do momento não me deixa esquecer.

Ecos da preanunciada separação reverberam timidamente em meu coração. Foram sete ou oito meses de tentativas, cumplicidades, afetos e um calhamaço de paciência. Nos tempos modernos há pouco espaço para adaptações. Os minutos são preciosos, ainda que passemos boa parte deles caçando personagens da nossa infância ou rolando a inútil linha do tempo em busca daquele estímulo fugaz que nos fará rir, chorar ou apenas “curtir”.

Curtia seu jeito frenético de ser. Curtia sua história. Curtia seu sorriso e a cor das suas bochechas nos dias friorentos. Curtia seus cafés fortificados e suas torradas amanteigadas. Curtia uma série de pequenas coisas que não fazem a menor importância agora. O vento da mudança soprou novamente e “o passado é uma roupa que não nos serve mais”, cantaria o bigodudo desaparecido cheio de contas pra pagar.

Mas antes que esse trem obscuro siga viagem rumo a estações desconhecidas, não poderia deixar de agradecer imensamente o apoio que me foi dado. Nesses longos meses que passei do seu lado, estive caminhando por vales de solidão, loucura, medo e angústias mil. E apesar desses encontros constantes com meus demônios, você sempre esteve por perto. Enquanto eu me perdia em alucinações, você me mostrava o caminho, me abraçava e me dizia que “tudo vai ficar tudo bem”.

Quero que saiba disso e de mais um tanto. Minha admiração pela pessoa que é seguirá firme como seus sapatos descolados ilustrados pela artista da festa. Ficarão as lembranças das esticadas na cama e dos almoços ensolarados no restaurante indiano. Das viagens repentinas e das pequenas aventuras. Dos sambas no piano, da parede amarela e das conversas fiadas em inglês. Das reuniões com os amigos estranhos e das festas particulares para dois. Ficarão os “recuerdos” de uma história curta e intensa, com picos flamejantes e desesperos domados. Uma história criada aos trancos por dois seres distintos com algo em comum: a busca pela tão sonhada felicidade.

E que ela venha para ambos, ainda que em tempos e espaços diferentes, assim como o “pai da noite” quiser. E que o brilho das estrelas ilumine nossas estradas esburacadas e nos ajude a encontrarmos a estação da paz. Foi bom enquanto durou. Obrigado por tudo.

*sem revisão

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Série “Taxistas Curitibanos” – Episódio #7: O Câncer dos Táxis

taxistas_curitibanosA revolução chegou. Não falo desse Brasil que caminha aceleradamente de forma regressiva, capitaneado por uma máfia de políticos abusados e cercados por falsos heróis, mas de uma revolução nos modelos de negócios, algo há ver com as mega corporações virtuais e com os investimentos do garoto problemático da série sobre os anos 70, e que hoje estampa a capa da revista sobre gente “bem sucedida que fatura milhões ou bilhões” investindo em redes sociais altamente lucrativas. Nessa revolução social, hotéis e táxis se tornarão obsoletos, artigos de luxo pra gente desligada que prefere a invisibilidade destes espaços, sem se preocupar com seus bolsos. Uma revolução que tem provocado constantes torcidas de nariz de seres gananciosos, preocupados com seus umbigos perfumados e que costumam clamar pela “família” em seus discursos de araque. “A burguesia fede, mas tem dinheiro pra comprar perfume”, já diria o gênio Falcão.

E eis que sob esse cenário pós-contemporâneo ou qualquer outra coisa que você queira chamar, escuto o sinal do celular me avisando que o motorista está próximo. Lucas, em um honda fit, de placa xxx, me recebe cordialmente, perguntando se a temperatura “aí atrás está agradável” e se eu teria alguma rádio “de minha preferência”. Respondi que curtia a educativa ou a lúmen, mas que não lembrava das estações. “Mundo Livre tá bom pra ti?. Sim, claro, também acho bacana, respondi. “Aceita uma água ou uma balinha? É só pegar!”.

Na sequência, o jovem e simpático motorista me informa sobre um protesto do MST que está “atravancando a visconde”. Sentado em um banco de couro preto, Lucas pergunta o que acho sobre isso ou sobre esses caras que ocupam terras por aí. Digo que quando é necessário um helicóptero para mensurar o tamanho de uma fazenda e que quando se constata que boa parte dessa terra está improdutiva, talvez isso seja pelo menos algo pra gente pensar. Ou talvez isso seja mais um pensamento esquerdista de hipster sem nenhum conhecimento de causa. Logo, Lucas procurou desviar o assunto, sempre com bom humor: “Política e religião a gente não discute, né?. Falo que é só triste quando o indivíduo nasce e morre com a mesma opinião e que era como a manjada canção do Raul já dizia: “eu prefiro ser uma metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opinião sobre tudo˜.

“Ah, você curte Raul Seixas? Minha mulher é fã dele, inclusive ainda devo ter um CD no carro,… saca só!”. E assim, compartilhamos o nobre raulzito no conforto de seu honda fit, modelo de no máximo quatro anos – de acordo com as exigências da companhia fantasma responsável pela ira dos taxistas, ou deveria dizer, dos donos desses carros e das tais rádio-taxis, congeladas no tempo. “Essas empresas precisam se atualizar, ao invés de culpar a gente, que só está trabalhando e tentando se virar como pode nessa crise aí”, arrematou Lucas, enquanto em seu som Raul cantava sobre a lucidez dos loucos. “Em breve colocarei bluetooth nesse aparelho, pra você poder tocar a sua playlist favorita, só não esqueça de comentar no aplicativo que você teve uma trilha sonora personalizada!”, comentava aos risos o novo motorista da cidade esverdeada.

E tudo isso pela metade do preço dos táxis e sem a necessidade de dinheiro (ainda que isso possa representar um problema depois). Pois é, estou vendo que precisarei mudar o nome dessa série. Viva a revolução e que venham as próximas. Adeus carros laranjas, o mundo precisa de todas as cores.

*sem revisão

 

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Download – Podcast Pace is the Essence

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Meditações e Vicissitudes V.I.P…

pace_2016_01_forestJá não consigo lembrar se esse é o quinto ou o sexto dia. Escutei o sino e segui no caminho empedrado rumo ao humilde refeitório dos panos aparentemente sujos. Atrás de mim, seguiam outros caras, rostos que não eram mais desconhecidos, mas que seguiam calados, em completo silêncio conforme as instruções de outrora. As identidades permaneciam ocultas e eram, nos momentos comunitários em que minha cabeça se mantinha ocupada, numa tentativa minimamente criativa de imaginar personagens, reafirmando os velhos arquétipos presentes em sociedades dispersas pelo mundo afora.  Um retiro “nas montanhas da Serra do Tinguá” não seria diferente.

Transcorridos os primeiros dias e as primeiras indagações associadas aos fatos raros: sobre o isolamento, o silêncio, a segregação e a disciplina, ou ainda sobre a ausência dos tais estímulos externos; em seguida começo a recordar como escolhi estar aqui e como é importante eu seguir a corrente proposta, ainda que não consiga visualizar o final desse rio absorto em velhas novidades.

São quatro da matina e o sino toca. É hora de levantar, urinar e lavar os olhos remelados. No caminho escuro, vejo a aranha tropical e o medo da criança que ainda ecoa nesses instantes. O fluxo lento e preguiçoso dos companheiros me leva à sala de meditação, com suas mil almofadas e uma energia pacificadora normalmente constante nesses espaços. Sento em algumas dessas almofadas apostadas ao moderno banquinho emprestado. Medito, ou devo dizer, tento meditar, ainda que existam distrações e talvez a maior delas seja lidar com o tremendo sono que sinto às quatro e meia da manhã.

Confesso que por vezes me senti ligeiramente incomodado com a chegada de alguns retardatários. Mas quem sou eu para tecer qualquer tipo de crítica sobre eles, pois sentia que mais cedo ou mais tarde eu faria parte desse mesmo grupo; afinal, para alguém que havia meditado poucas dezenas de vezes na vida e por vinte minutos nos melhores casos, estar meditando por seis ou sete horas por dia parecia ser o suficiente.

Nos breves intervalos, as placas limitadoras encurtavam as caminhadas exploradoras: da bendita sala ao banheiro, do banheiro ao bebedouro, do bebedouro aos arredores dos dormitórios e desses arredores ao quarto. No aposento dividido com outros dois parceiros mudos, a sensação é sempre estranha. A falta de palavras parece ser substituída pela comunicação corporal não visual, exacerbada em cada virada de lado da cama ou em cada levantada, mesmo que houvesse a preocupação excessiva de não incomodar os colegas.

Colegas estranhos: hippies cabeludos travestidos de jovens budas, surfistas australianos, gigantes alemães de saia, garotos mimados em busca de aventura, quarentões faxinando antigos karmas, curitibanos heteronormativos, cariocas linguarudos, xarás, geeks e toda sorte de freaks, espiritualistas e curiosos.

No meio desse pastiche, me sinto novamente em casa. Uma casa vazia e incolor, mas com o mínimo conforto necessário para recomeçar. Uma casa inexistente há pelo menos cinco meses ou o tempo do último texto desse blog capenga sobre esse tal rapaz latinoamericano sem mapas, mas com muitos documentos e responsabilidades pra zelar. Em um mundo inventado – ainda que seus limites sejam tão reais quanto o golpe político que seu país atravessa, ainda que ele só tenha ficado sabendo disso dias depois, no melhor estilo Adeus, Lenin. Ou como diria Donny no seu filme favorito, “I am the Walrus”.

Chega de saudade, a lei da impermeabilidade jamais será esquecida. Obrigado Dhamma, foi massa conhecê-lo mais de perto.

E que venham as tais vicissitudes, algo a ver com policiais sacanas, enfermeiras inexperientes, cuidadoras e uma mãe iluminada que descansa na serenidade de seu lar.

Meu pai estava certo, meditar é bom.

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Raios de Esperança

raiosTímidas luzes natalinas começam a aparecer na vizinhança de uma casa que agora está estranha e oca, faltando peças fundamentais e ecoando saudades por todos os lados. Randy Newman segue na sala na sua “terra de sonhos” provocando inspirações e divagações positivas, apesar dos pesares.

A semana havia começado bem, o sol de verão irradiava esperança nos ares, já mal acostumados com a chuva e o frio da nula primavera de Curitiba. Após a enxurrada provocada em meu coração operado, e todas aquelas histórias macabras envolvendo facas, celulares e ambulâncias, sentia que havia algo fresco no ambiente, algo que acalmaria meus pensamentos em chamas, algo que me fizesse seguir acreditando nesse mundo perdido cheio de nuvens e distrações.

A vida se mostrou frágil novamente como o piano melancólico de Monk, a música mais uma vez segue intensa e apontando a direção. O mundo lá fora ainda parece hostil e carente de sentido, mas os ventos praianos de dezembro anunciam o ano novo e abrem espaço para novas ideias e novos desafios. A TV prenuncia o apocalipse político brasileiro, enquanto na Argentina os hermanos se deprimem com o resultado das últimas eleições.

Balões vermelhos alegraram as crianças do shopping classe A, hippies roubaram a coroa do Cristo Rei e depois foram barrados no baile na mansão em contagem regressiva para sua implosão. Paranoias deixaram Caldabranca e Dr. Gonzo pilhadões, enquanto piadas veganas entretinham a plateia de londrinenses e malucos.

No hospital enxuto, a mãe segue sua batalha exalando vitalidade, por entre olhares curiosos, enfermeiras carinhosas e uma porção de médicos otimistas. Do lado de cá, a bondade alheia é valorizada, as imperfeições são apontadas, e a corrente de pensamentos felizes são somados às orações dos familiares e dos amigos. É preciso manter a cabeça sana e descansada, pois cada dia pode ser uma nova aventura.

Natal? No presente momento não quero pensar nessa brincadeira, ainda que as luzes dos vizinhos reafirmem esse rito antigo e capenga de significados populares. Por agora, vou continuar aproveitando o final dessa cerveja e as últimas notas de Monk, introspectivas e assertivas para a ocasião.

E que o choro de outrora seja transmutado amanhã, na roda do bar dos barbudos, ensanguentado de arte sulamericana, enquanto me preparo para encontrar a minha terra dos sonhos nos próximos dias. É hora de esvaziar os baldes e preparar o solo para a nova estação. “O pulso ainda pulsa”, e com isso, novos raios de esperança insistirão em nascer, para todos, em todos os cantos onde a “dança da realidade” esteja presente.

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Série “Aventuras Com Caldabranca” – Episódio #2: Do Outro Lado da Nácar

kapeleO plano era simples, tipo o nome daquela banda chata. A parceria já estava definida. Jorge Caldabranca, o novo amigo velho dos cabelos largos e das eloquências verbais, seria o companheiro da noite – algo raro de acontecer, uma vez que Jorge prefere a invisibilidade do seu lar e a separação dos “invejosos e dos hipócritas rondando ao redor”. Tirar esse cara à noite de casa? “Você conseguiu uma façanha de Hércules”, ele diria horas depois.

Lembro-me da tarde, antes da tempestade, quando recebi uma mensagem de áudio desse amigo e, no fim, ele terminava dizendo “o que for melhor pra você, estou dentro”.  E isso, somado à possibilidade de ver o casal-escambau tocando suas canções favoritas no bar-símbolo da boêmia curitibana, na rua parada no tempo e set de filmagem de uma história sobre prisões e comidas. Isso e o fato de o palco beatnik estar próximo à casa de Caldabranca, fizeram eu me coçar e bater um fio ao amigo dos pânicos e das metafísicas.

Estacionei a caranga e lá estava ele, já na frente do portão, aguardando. Subimos, tomamos uma cerveja, carburamos os miolos e saímos feito cachorro louco. Caldabranca estava eufórico e berrante como quase sempre; eu estava tímido como um bebê perto de estranhos.  Recebemos as coordenadas de um distinto cavalheiro, necessárias devido à demência que não me deixava lembrar onde o bar ficava.

No caminho, fui explicando que o referido bar tinha um lance intimista, atemporal e lindamente tosco, um charme especial, possivelmente representado pela letra K de batismo. Por algum motivo ridículo, fiquei pensando que a eloquência verbal de Jorge Caldabranca pudesse ser um problema para os músicos ou clientes. Pura frescura, mas não sei bem se foi esse papo que ajudou a assustar meu amigo.

Primeiro ele veio gralhando “cara, essa parte da cidade eu chamo de B, eu pertenço à A e é lá que me sinto seguro”; e essa classificação ordinária, de lado A e lado B, era definida por uma rua, meio famosinha na cidade pelos vermelhões e chorões, chamada Visconde de Nácar.

Insisti para entrarmos e que o bar era assim, sempre parecia vazio e fechado, mas que por trás daquela porta, haveria calor etílico, gente interessante, música boa, uma decoração de décadas e décadas, desde o tempo em que Leminkis e Trevisans pediam doses duplas, e a poesia e a prosa ainda caminhavam juntas. Mas, de alguma maneira, toda aquela paranoia “e claraboia” do Jorge haviam me contaminado, e agora eu já não estava mais seguro se que eu queria entrar também.

Estáticos e com as caras lavadas de medo, ficamos do outro lado da rua, observando a fachada decadente do lugar e esperando que alguém entrasse ou saísse dali para, quem sabe, nos encorajar a entrar. Não aconteceu. Quando vi, Caldabranca já estava caminhando a passos grandes em direção ao “lado A”, rumo ao pub estiloso do néon roqueiro e das figuras conhecidas.

Havia deixado lá uns quadros meus e, pra minha surpresa, logo na entrada, um grupo veio me perguntar como eu fazia aquelas artes e me dar uns tapinhas nas costas; algo que pra minha estima rasgada fez bem e até me fez esquecer a frustração de não ter visto as canções gaúchas e paraguaias no bar clássico do outro lado da Nácar.  Isso num dia em que tinha ido pra feira e pela trigésima vez não tinha vendido nada, mas estava contente por ter saído de lá no meio da tempestade e com um exemplar de um pau-brasil sangrento que serviria perfeitamente de banquinho pra casa dos sonhos. Maldita prefeitura que mandou os caras tirarem as árvores centenárias e saudáveis da praça ucraniana, e espero que o vizinho consiga a TV ou sei lá quem para ir lá denunciar mais um crime ambiental, como ele saiu dizendo que iria fazer. Mas o tronco estava lá, todo melado e antes que ele tivesse um fim ainda mais triste, coloquei-o no carro a duras penas, sob rajadas de vento e água e o peso da natureza que, mais uma vez, não tinha nada a ver com o progresso do homem branco idiota. O tronco era pesado pra caralho, mas agora ele está num lugar seguro e receberá um fim minimamente digno, servindo de assento para artistas e outros loucos de plantão.

Ficamos semi-invisíveis na mesa de fora, ao lado de uma mesa gigante com umas vinte pessoas, rostos desconhecidos, mais jovens e aparentemente normais. Bebemos em copos especiais e partimos vomitando experiências em terras italianas para o dono do bar e futuro papai. E a noite de quarta ainda seguiu, agora com um terceiro elemento, a musa do poeta e “youtuber on the road”, a querida Simonetta.  Tentamos os bares da região, mas a música verdadeira e a alma desses becos já haviam se esvaído e restava o consolo dos banquinhos azuis e bem cuidados do SESC da esquina. Caldabranca e Simonetta compartilhavam um charuto cubano enquanto trocavam algumas farpas intercontinentais. “Você acha que o meu trabalho é só curtição?”, indagava Simonetta. “Trabalho pra satisfazer o narcisismo de uma pessoa e não ganho tão bem assim pra isso”. “Baby, trabalhe comigo, viajando on the road que será só curtição e você ainda ganhará os mesmos trocados”.

Viver o sonho do outro parece fácil. Difícil talvez seja ir atrás do seu e esperar que alguém te acompanhe na loucura. Caldabranca que o diga.

Simonetta saiu dizendo “na próxima vez, vamos para o lado B!”. Fim da história.

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