contos

O Estranho Convidado – Parte 1

escrito por Josiney Ribeiro

Se bem me lembro, em 1870 eu completaria quinze anos. De minha parte, não havia muito motivo para comemorar, mas meu avô mesmo assim insistiu em usar a paróquia da igreja para a pequena festa. E contra a minha vontade. Há de se entender que naquela época, seria difícil para eu contestar uma decisão tomada em meu nome, em meu próprio benefício. Mas acho que talvez mais difícil do que dizer “não” a vovô seria ver seu rosto durante as colheitas.

Naquele finalzinho de tarde, eu estava na cozinha terminando meu dever de casa quando ouvi um forte assobio. Meu avô estava nos fundos, terminando de varrer o quintal para depois colher algumas verduras para o jantar. Sopa de legumes era realmente sua especialidade. Ele não tinha mesmo ouvido aquele som estridente vindo da entrada de nosso modesto sítio.

Com dificuldade, eu me levantei até a porta de entrada. Enquanto caminhava, a madeira quase podre já denunciava meus passos vacilantes. De fato, eu parecia mais rastejar do que andar. Mas evitava dizer isso na frente de vovô, homem já bastante marcado pela idade, capaz de demonstrar seu estado de espírito com simples passos dentro da cozinha. Tenho quase certeza de que não fazia isso de plena consciência, mas por força do hábito.

A essa altura, eu quase conseguia contemplar o rosto do estranho que ousava nos alardear com sua presença. Somente alguns galhos de árvores – que formavam de uma certa forma um bosque ao longo do pequeno caminho até a porteira – ainda impediam minha plena visão. Forcei meus olhos a tentar enxergar se o estranho ainda continuava ali. Olhei para os fundos na esperança de que vovô pudesse entrar na cozinha naquele preciso momento, mas foi em vão. Ele era concentrado demais em tudo o que fazia.
Decidi seguir com toda a dificuldade. Na verdade, não foi tanto o caminhar que me aborreceu lá no fundo. Foi a maneira como aquele estranho jovem me observou, expressando mais curiosidade do que compaixão. Quando finalmente consegui vê-lo, confesso que cheguei a ficar um pouco irritado.

Recostado sobre a porteira enferrujada, ele parecia sorrir para o nada, girando uma pequena flor silvestre entre os dedos enquanto soltava uma longa baforada por um cachimbo de cabo longo. Quando pousou os olhos azuis sobre mim, parou alguns instantes para observar. Largara de súbito a florzinha na relva úmida, deixando escorregar a mão livre sobre uma das coxas. Esboçou um semblante de aparente dor. Naquele momento, senti vontade de recuar e lhe dar as costas.

– Espere! O que foi? – disse o estranho, recompondo-se.
– O que você quer aqui?
– Meus olhos não quiseram te ofender. Apenas chamaram a atenção da minha mente.
– Desculpe. Não gosto desse tipo de brincadeira. Diga logo o que quer antes que eu me vá.
– Bem…

Fechei meus olhos e quando dei por mim, Arthur Rimbaud já estava sentado à mesa conosco. Não sei se foi por pena ou mesmo enfado que meu avô permitiu que aquele sujeitinho arrebitado participasse do jantar. Por sorte, vovô aparecera do quintal e, agindo de maneira muito cristã, permitiu que Arthur pernoitasse ali.

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