contos

O Estranho Convidado – Parte 2

escrito por Josiney Ribeiro

Nas palavras do estranho, havia caminhado o dia inteiro feito um burro de carga rumo a Charleroi. Estava cansado e faminto e, como estava longe da comida da mãe, resolvera testar a hospitalidade do local onde estava “perdido” por hora.

– Por acaso, sua mãe se chama Marie?

– Por acaso, ela se chama, sim – Arthur respondeu de lado, enquanto limpava seu cachimbo. Vez ou outra, ele usava o cabo comprido para coçar a cabeça.

– É bem possível que alguém a conheça aqui na comunidade. Quando for à igreja no domingo, vou procurar saber. Agora, se me dá licença, vou compartilhar um pouco do que sobrou do jantar com os porcos – e saiu com passos lentos até o quintal com o velho lampião.

– Seu avô é sempre mais curioso que hospitaleiro com visitantes? – murmurou subitamente Arthur.

– É porque não recebemos muitas visitas aqui – respondi reticente. E olhando para sua cabeleira, de algum modo comecei a ficar curioso também – Você nunca penteia os cabelos?

– Na verdade, prefiro deixar que o vento arrume meus cabelos para mim. É uma forma de dar lhes uma certa liberdade. Você por acaso já sentiu esse tipo de liberdade?

Arthur olhou-me quase em tom de acusação. Dei de ombros, tentando esconder minha falta de idéias sobre o tema. Ele realmente ficara admirado com as perguntas do meu avô. “Você viu a cara que ele fez quando perguntou o que eu fazia na vida? Definitivamente escrever poemas ainda não é tão rentável quanto criar animais”, brincou ele, guardando o cachimbo no alforje puído. Retruquei dizendo que fumar era mais problemático que simplesmente escrever poemas.

– Sim, eu bem que percebi isso nos olhos dele. “Pode entrar, mas apague a fumaça!” – o olhar distante de Arthur me fez crer que a arrogância lhe ocorria de maneira espontânea, quase inconsciente.

– Você tem algum poema aí com você? – minha pergunta quase o tomou de assalto. Finalmente conseguira tirá-lo de seu mundinho particular.

– Você lê? Gosta de poemas? – insinuou-se com gravidade.

Confessei que lia muito pouco, mas conhecia alguns bons escritores de nome. De fato, minha resposta não pareceu desapontá-lo tanto. Percebi que parecia até um pouco satisfeito.

– Você está indo mesmo para a Bélgica?

– Depois de passar em Charleroi, sim. É preciso sair deste país. Quero conhecer outros lugares desse velho continente… Você conhece Paris?

– Na verdade, não. Mas nasci lá. Vivo aqui desde os cinco anos.

– Lembra-se de alguma coisa?

– Muito pouco, quase nada. Mas espero voltar a Paris. Tenho alguns primos lá.

Nesse momento, Arthur ficou pensativo. Baixou lentamente o olhar sobre as mãos na pobre mesa de madeira e permaneceu calado como que em transe. Era como se seus olhos tivessem parado subitamente no tempo e no espaço. Até sua respiração pareceu ficar mais lenta. Apesar da forma abrupta, aqueles poucos gestos anteriores ao completo “transe” foram muito sutis, o que não me chamou a atenção de imediato. Arthur não possuía um olhar claramente melancólico, mas de profunda reflexão interior.

Olhei para a porta da cozinha e percebi que tudo estava muito silencioso, com exceção do ruído de alguns grilos. Vovô devia estar observando os porcos terminarem de comer, como costumava fazer todas as noites. Tentando disfarçar uma certa agonia, tentei trazer Arthur de volta.

– Não se preocupe – ele me olhou rapidamente de frente, logo desviando o foco – estava apenas pensando.

– Pensando no quê? – minha curiosidade foi maior.

– Você quer saber mesmo? – confesso que senti um pouco de medo quando ele disse aquilo – Pois bem, estava pensando em como pessoas diferentes, em oportunidades praticamente semelhantes, conseguem atingir um mesmo ponto de maneira ainda diversa. Você esteve em Paris porque nasceu lá e eu, porque queria mais espaço, um segundo nascimento talvez… No fundo, não somos tão diferentes assim, meu caro.

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