contos

O Estranho Convidado – Parte 3

escrito por Josiney Ribeiro

Não soube compreender na época o sentido por detrás da sutileza das palavras de Arthur. Para mim, tudo aquilo pareceu evidente demais até para alguém tão sensível como ele.

– Você sabe por que te olhei daquela maneira estranha? Digo “estranha” porque sei que você ficou incomodado e até aborrecido.

Aquela era uma dúvida que até o início do jantar me incomodara de fato. Eu a tinha até esquecido. Não esperava que Arthur fosse me lembrar novamente. Antes de responder, confesso que fiquei até feliz, imaginando que tivesse sido consideração de sua parte para com o meu embaraço logo quando nos deparamos na porteira. Mas ao mesmo tempo em que esse contentamento agitou meu coração, consegui perceber mais essa sutileza de Arthur: mudar de assunto é sempre cômodo quando não desejamos voltar a um assunto anterior.

– Não sei se você vai acreditar em mim, e isso já não me importa tanto a essa altura – seu tom era grave como o de um adulto, mesmo para alguém de apenas quinze anos –, mas vou tentar ser franco com você. Quando eu vi você com as muletas, meus olhos não quiseram me dizer que eu estava diante de um aleijão…

– Eu não sou aleijado! – agarrando as muletas com toda a força, ergui-me de súbito, direcionando um olhar ferino sobre ele. Queria explicar a verdadeira razão das muletas, mas ele conseguiu ser mais rápido.

– Deixe-me terminar, garoto! – Arthur continuou sentado, quase impassível, enquanto tentava não aumentar o próprio tom de voz.

Acho que meu avô deve ter conseguido ouvir minha voz pesada naquele sereno frio da noite. Digo isso porque ele não demorou tanto para voltar ao nosso encontro na cozinha, quando Arthur finalmente conseguira me explicar o que exatamente queria dizer sem me ofender de forma direta. Lembro-me de descer lentamente até o assento de minha cadeira enquanto ponderava se fazia aquilo porque aquele estranho estava me “mandando” ou porque eu estava tentando ser sensato.

– Eu não chamei você de aleijado e nem essa foi minha intenção. Procure prestar mais atenção nas palavras e menos em intenções. O que me chamou a atenção naquela hora não foi perceber que meu coração não estava se derretendo em compaixão, até porque odeio essa palavra e muito mais o seu significado. O fato foi que senti algo diferente… Como se fosse algum tipo de pressentimento.

Arthur se permitiu continuar ao perceber simultaneamente meu mutismo súbito diante de um tema tão incomum para mim.

– Você deve ter percebido que eu cocei uma das coxas… Pois bem, meu rosto ficou carregado porque precisamente ali eu tinha acabado de sentir uma espécie de pontada, ao mesmo tempo em que meus pensamentos se fecharam, dando espaço para que os meus sentidos se comunicarem com o cérebro – enquanto falava, Arthur gesticulava bastante – E ao fruto dessa comunicação é que eu racionalmente acabei chamando de pressentimento, embora eu sentisse no fundo que era mais do que isso…

– Imagino que a conversa esteja muito boa, mas aqui nós costumamos dormir cedo, monsieur Rimbaud – vovô apareceu como bem imaginava, bem no momento em que a conversa realmente tinha chegado a um ponto intrigante.

De sua parte, Arthur não escondeu seu desapontamento. Desejou a mim e a meu avô um “boa noite” frio, agradecendo em seguida pela sopa de legumes e pelo pernoite ali. Não consegui nem lhe retribuir o cumprimento noturno, aturdido como estava ainda com as palavras de Arthur. Fomos dormir cada um em seu canto. Não lembro onde ele dormiu, mas lembro do meu avô comentar surpreso no outro dia o quão cedo aquele estranho havia partido – a pé, até a próxima cidade.

FIM

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