contos

Lucimir – Parte 1

Mais um dia de trabalho para Lucimir e sua moto, que após longas corridas já estava apresentando sinais de desgaste. O ronco do motor estava diferente e Lucimir, com pouco conhecimento em mecânica nem conseguia especular o que pudesse ser, planejava algum dia ir a alguma oficina para resolver o problema. Se é que realmente existisse um.

Mesmo estando no novo emprego à apenas algumas semanas, Lucimir parecia não agüentar mais. Estava de saco cheio. Para um rapaz criativo e inteligente, a rotina de motoboy de nada o agradava. Todo dia ele acordava às mesmas seis horas da manhã. Tomava um café da manhã literal, sem pães ou bolachinhas, apenas o café puro, com pouco açúcar. Tomava também um banho semiquente e com espaçadas gotas geladas e se mandava para o trabalho. Ao meio-dia saía para almoçar em um buffet livre de três reais e cinqüenta, próximo a floricultura em que trabalhava. Raras vezes tinha a companhia de alguém do trabalho, geralmente comia sozinho e rapidamente, sem esperar digestão qualquer. Tomava um café no próprio restaurante, fumando um cigarro barato daqueles de maço. Voltava ao serviço. Às seis da tarde, mas nem sempre nesse horário, Lucimir saía. Chegava em casa meia hora depois, jantava e ia dormir, após ver o telejornal e algum programa esportivo.

Lucimir morava com seu pai, um sujeito atípico de óculos fundos, poucos cabelos e amigos. Bancário aposentado desde seus quarenta e cinco anos, Seu Jorge, como era chamado, aproveitava seu total tempo livre indo a academias de ginástica, aulas de canto em um coral e principalmente vendo filmes, de todos os gêneros e épocas. Já fazia quatro anos que seu pai havia instalado uma tv a cabo na casa e todos os inícios de mês eram iguais. Assim que recebia a revista da empresa, com toda a programação da tv, Seu Jorge pegava caneta e papel, e minuciosamente analisava cada filme que seria exibido, assinalando com caneta vermelha todos os quais já havia visto, e com azul aqueles que lhe interessava. Seu Jorge era fã assíduo de filmes antigos, se possível preto e brancos estrelando atores consagrados e enterrados, mas na verdade não tinha filme que Jorge não assistisse. Apenas comédias hollywoodianas eram deixadas de lado pelo velho homem. Quando Lucimir acordava geralmente seu pai nem saía da cama, iria acordar só lá pelas nove horas, quando ia para uma academia próxima a sua casa realizar seus exercícios matinais rotineiros.

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