contos

Lucimir – Parte 2

Era uma quarta-feira e Lucimir levanta na mesma hora de sempre. Seu pai neste dia já estava acordado. A razão era simples. Às cinco horas da madrugada um filme preto e branco com atores consagrados e enterrados começava a ser exibido. Desta vez ao passar pela sala de estar, Lucimir pára e olha seriamente por alguns minutos ao porta-retrato de sua mãe, “ausente” a dois anos. De fato, de manhãzinha é comum que as pessoas estejam mais susceptíveis a emoções. Lucimir não era diferente. Também não era pra menos, Lucimir tinha um motivo. Mas antes que o rapaz se comovesse demais, ele vira o rosto, pega suas coisas, vai a garagem, monta em sua moto e se manda para o serviço. No caminho, após tirar sua mãe de seu pensamento, é Priscila que volta a pensar sobre. Lucimir se questiona onde a garota possa estar e principalmente quando ele terá a chance de revê-la. Ele se culpa por não ter perguntado a ela sequer o nome do restaurante que trabalhava. Se culpa por não ter lhe dito a floricultura exata que ele trabalhava. O estranho é que Lucimir normalmente esquecia facilmente das mulheres com quem ficava e quase que sempre das que apenas conversava. Priscila era uma dessas. Mas por alguma razão ele não esquecia dela. Lucimir jamais havia admitido estar apaixonado por alguém, mas desta vez ele estava bem próximo disso.

Ao chegar na floricultura, antes mesmo de guardar seu capacete, seu chefe, Abel, tagarela sobre as entregas que Lucimir deve fazer em breve:

–          Bom dia Lucimir, primeiro preciso que você me entregue esse buquê de rosas até as 8 horas da manhã, neste endereço aqui. Fica próximo a um restaurantizinho ali na Chile, no Portão.

–          Ok. Mais alguma coisa Abel?

–          Sim, um dos meus filhos está internado no hospital, ele fez uma cirurgia e está em repouso. Preciso que você mande essa cesta de flores e café da manhã lá pra ele. Minha mulher me pediu. Tente chegar lá antes das nove.

–          É o Abílio?

–          É. Ele está no Hospital Evangélico, quarto 44.

–          Beleza, pode deixar.

–          É isso, até mais então Lucimir, bom trabalho.

Lucimir volta para sua moto e fica pensando que tipo de cirurgia o filho de seu chefe foi fazer. Sabe-se que Abel tem dois filhos os quais ironicamente resolveu chamar-lhes de Abílio e Abelardo. Abel tinha um gosto particular por animais, e principalmente aqueles que tinham contato com suas flores. Abelhas foram às escolhidas para serem homenageadas. Até porque àqueles quais não quisesse dizer o real motivo, Abel podia apenas falar que a homenagem era ao seu próprio nome. Sua esposa submissa pouco entendeu, também não opinando a respeito. Deveriam existir estudos para definir o impacto negativo que um nome feio pode ter em uma criança, pensou Lucimir.

Ao se aproximar ao primeiro endereço requisitado, Lucimir avista o restaurante que Abel havia mencionado, mas não consegue achar a rua certa que estava procurando. Resolve ir até o estabelecimento pedir orientações para alguém de lá. Ao estacionar sua moto na entrada do lugar, Lucimir racionaliza um pouco e imagina que lá pudesse ser o restaurante que Priscila trabalhava. Olha o relógio de seu pulso e por não estar atrasado e até um pouco adiantado, Lucimir prefere entrar no restaurante e tomar mais um cafezinho, aproveitando seu tempo para observar as garçonetes que lá trabalhavam.

Sentado em uma mesa, aguardando o atendimento, Lucimir mentaliza para que lá seja verdadeiramente o lugar onde Priscila trabalhasse. Para infelicidade imediata do rapaz, uma garçonete desconhecida o atende. O café é pedido. Enquanto isso, Lucimir analisa cada funcionária, chegando até receber estranhos olhares de algumas delas. Sem delongas, quando seu café chega, ele já pergunta a moça se há alguma Priscila que trabalhava lá. A resposta é negativa. Na verdade, a moça até comenta algo sobre uma Priscila que havia trabalhado lá, mas havia se mudado para outra cidade, sendo obrigada a pedir demissão.

Trinta e três minutos depois e mais alguns quilômetros adiante, Lucimir estaciona sua moto em frente ao hospital evangélico, onde o filho do chefe está.

Ao entrar no quarto de Abílio, Lucimir rapidamente tem um flashback do primeiro dia em que foi visitar sua mãe no hospital. Uma recordação um tanto triste, que até ele próprio evita comentários. Lucimir tinha seis anos quando um terrível acidente de carro quase tirou a vida de sua mãe. As conseqüências não foram poucas. O acidente causou lesões sérias em sua espinha, e hoje ela vive em uma cadeira de rodas, com idade mental de uma criança de 10 anos. Seu pai foi obrigado a pedir a separação, seguindo uma nova vida, casando novamente. A mãe de Lucimir hoje mora com uma enfermeira sob cuidados especiais. Lucimir a visita quando pode.

–          Oi Lucimir! Tudo bem com você?

–          Mais ou menos… e você, como está? Como foi a operação?

–          Ah, tranqüila, já me sinto outra pessoa!

–          Legal, legal, mas, hmm, me desculpe a indiscrição, mas o que você operou?

–          Meu estômago! Sabe aquela cirurgia para diminuir o estômago?

–          Sei.

–          Então, resolvi faze-la, antes que começassem a me botar na carreira de lutador de sumo.

Com um sorriso de canto de boca, Lucimir entrega as flores que Abel havia pedido e se despede.

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