pseudojornalismo

Procuro um Bar

Não sei sobre as outras cidades, moro há 28 anos em Curitiba e apesar de já ter pensado em me mudar para São Paulo, Salvador ou algum outro lugar menos badalado, tipo Goiânia, por exemplo, permaneço neste mesmo local. Caso tivesse ido para “Sampa”, muito provavelmente eu não escreveria esse texto, afinal lá é onde tudo acontece e sempre há espaço pra todos. O fato é que aos 28 anos de idade, solteiro e de classe média baixa, estou com dificuldades em encontrar um bar realmente interessante nesta cidade. Eu disse realmente interessante. Não um que tenha “gente bonita, música bacana e cerveja gelada”. Esses, além de não existirem também não fazem muito minha cabeça. Bares com música boa não são tão difíceis de encontrar, a não ser que você tenha uma queda por música medieval ou alguma nova onda que seja extremamente popular em algum vilarejo europeu, é claro. O problema é que esses mesmos bares com música boa costumam: a) serem caros, b) as mulheres tem entre 18 e 21 anos, ou c) sempre estão vazios.

Amigos de mesma idade e devidamente casados falam que mulheres nessa faixa etária não costumam sair muito, ou quando saem, vão a lugares “menos alternativos” e “mais tradicionais”. E as outras, bom, as outras estão com seus maridos, trabalhando, fazendo mestrado ou se preocupando com o filho recém nascido. Pergunto: é tão difícil assim achar uma garota (sim, ainda chamo as mulheres de 28 anos de garotas), solteira em um bar decente? Estamos no século 21, as pessoas não deveriam casar tão cedo ou mesmo pensar em casar. Elas deveriam ser independentes, deveriam sair, curtir, gostar de música boa e estarem antenadas para as novas bandas que aparecem por aí. Ok, essas últimas considerações não são tão verdadeiras assim. Mas falo isso porque muita gente que beira os 30 continua escutando as coisas que ouvia na adolescência ou no máximo começam a ouvir jazz e MPB. Nada contra esses gêneros, também gosto muito, mas ficar só neles diante deste universo ilimitado chamado MP3 talvez seja pouco.  Apesar de parecer difícil, não acredito que eu esteja pedindo demais. Sei que esses bares existem apesar de nunca ter visto uma prova a respeito. É uma questão de fé mesmo. Talvez eu esteja no lugar errado. Talvez eu precise me enquadrar melhor no perfil de um cara da minha idade – o que sinceramente, não gostaria. Não sei, mas acho que esses mesmos caras que chegam aos 30 pensando em responsabilidades e coisas mais “sérias” são os mesmos que chegam aos 60 achando que já fizeram quase tudo que poderiam ter feito. Só espero que quando eu estiver perto dos 60 essa procura pelo bar perfeito tenha acabado.

*texto publicado originalmente no gramofone digital

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14 comentários sobre “Procuro um Bar

  1. É por isso que costumo transformar minha casa num bar nos finais de semana. Ao menos quebra a rotina sem quebrar o barraco com a matrona…

  2. Information supplémentaire : e com direito a baile dançante, porque depois de escutar muita música indie, é preciso se levantar da cadeira para fazer alguma coisa, mesmo que seja ir ao toilette para expurgar o tédio. Afinal, Curitiba ainda escraviza demais suas próprias pernas.

    1. Realmente, os bares para a nossa “faixa etária” (se é que existe isso mesmo) têm uma tendência a privilegiar mesas, cadeiras e a consequente escravização das pernas. Quanto a música indie, essa fica praqueles lugares mais modernos e com um público mais juvenil, disposto a gastar toda a energia na pista. Mas não tenho saudade desse tempo não.

    1. é, esse ano o novo “hype” é ser “cú” (pronuncia-se cool, como no inglês), que no caso, é o uniforme perfeito pros curitibanos, por expressar toda a alegria contagiante facial daqueles que costumam frequentar os bares espalhados pela cidade.

  3. Talvez esse espaço já seja um pouquinho um bar ideal. Acredito que todos os encontros sejam questão de ressonãncia entre as vibrações de pessoas afins. O fato de sermos seres 3d dificulta esse encontro. Por isso levar o corpo pra passear as vezes acelera as coisas. E no caso da internet nós nos diluímos um pouquinho em “010101s” além de ondas eletromagnéticas, o que naturalmente faz com que essas ressonâncias ocorram com muito mais facilidade.

      1. No bar ideal e dentro dessa idéia dele só funcionar na internet (e nos fins de semana também), esse problema da escravização das pernas não existiria e talvez assim, houvesse mais espaço para idéias mais abstratas.

  4. Rapaz… bem que a gente poderia estar tomando uma berinha e conversando sobre isso em algum lugar agradável. hehe. Desculpem, não quis acabar com o ciclo da conversa, mas não quis perder a deixa.

    É importante ter uma musiquinha que fomente idéias interessantes. Mas um grande problema é que num bar normal há muita gente e consequentemente o instinto de reprodução da espécie bate e propicia o aparecimento de pessoas vestidas de forma cú. O bar em casa é funciona até que bem, mas não resolve.

    Talvez o bar perfeito exista meio que como um acontecimento astronômico. As vezes acontece de pessoas afins estarem compartilhando um mesmo espaço, num astral bom com uma banda confluente tocando… e se vc estiver nesse lugar nessa hora vc vai saber que esse é o momento\bar ideal. É bom aproveitar pois no dia seguinte ele desaparecerá.

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