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O Mundo Imaginário do Doutor Parnassus

Enquanto o Doutor Parnassus acreditava no poder da imaginação, das histórias e dos sonhos, o Diabo (Mr. Nick, interpretado por ninguém melhor que Tom Waits) preferia acreditar no mundo material ou na supremacia das coisas. Dessa pequena divergência, surge uma aposta a qual o Doutor Parnassus ganha sua imortalidade (o Diabo trapaceou, afinal, não devemos confiar no diabo). Porém o “prêmio” viria com uma maldição (bem coisa de diabo mesmo), caso o Doutor tivesse uma filha, esta seria dada ao Diabo, assim que completasse 16 anos. Parnassus viveu mais de 1000 anos, a maioria deles em completo tédio e embriaguez (para curar um pouco do tédio), até conhecer a futura mãe de sua também futura filha. Esse é basicamente o começo da história por trás do novo filme de Terry Gilliam, também conhecido como “O Último Filme de Heath Ledger”.

Em uma cena peculiar em que Tony (Heath Ledger) participa da divulgação do show de rua executado pelo Doutor Parnassus e sua trupe, conclamando senhoras ricas a fazerem parte do espetáculo (onde a pessoa passaria por um espelho falso e entraria em seu próprio mundo imaginário, ou idealizado). Um dos membros da trupe é um anão ou alguém “verticalmente desavantajado” (de acordo com um policial), que está vestido como uma criança negra como forma de sensibilizar a platéia (e parte do plano de modernização do show sugerido pelo próprio Tony). Após o discurso de Tony, várias senhoras se interessam e oferecem pagar quanto fosse necessário, porém quando outra senhora pergunta se “a criança negra está para adoção”, afinal ela “deveria estar na escola”, Heath Ledger, ou melhor, seu personagem Tony decide que ela merece ser escolhida para participar do espetáculo (já que nesse caso, ela não retornaria mais e sua alma seria contabilizada em outra aposta entre o Diabo e o Doutor Parnassus). Nessa mesma cena, após a madame adentrar o portal mágico ou o espelho falso, Tony decide fazer o mesmo, como forma de experimentar pela primeira vez “o outro lado”. Se alguém quiser começar a falar sobre morbidez, aí talvez esteja o gancho.  Curiosamente na cena seguinte (no mundo imaginário), Heath Ledger é substituído por Johnny Depp. Estaria ele, Ledger, interessado em descobrir esse outro lado da vida? Ok, vou parar por aqui. Isso é coisa pra quem gosta de encontrar pêlo em ovo, alfinete em palheiro, lágrima em defunto.

Outro momento que deve ser destacado está em um diálogo anterior a essa cena, quando Tony havia sido descoberto pela trupe e sofria uma espécie de amnésia, e questiona o anão (na falta de uma melhor definição – no caso, ele é apenas um homem muito pequeno): “Onde estamos?”, o anão Percy responde: “Geograficamente, no hemisfério norte. Socialmente, na margem. Narrativamente, com algum caminho a percorrer.” Realmente, a resposta naquele momento, não poderia ter sido melhor.

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8 comentários sobre “O Mundo Imaginário do Doutor Parnassus

  1. Pra mim trata-se de uma alegoria do surgimento do nosso mundo e as constantes apostas que o Dr. Parnassus não resiste em entrar na verdade é a continuidade da vida. Tem de existir as apostas para o mundo continuar existindo. Isso só acabará quando nós deixarmos de sermos humanos e nos tornarmos outra coisa. De qualquer forma é um filme que vale ser interpretado e reinterpretado várias vezes. E aquela fala do anão é mesmo ótima!

  2. É uma interpretação possível e interessante, quem sabe o Dr. Parnassus não seria alguma espécie de Jesus as avessas? Existe a necessidade de transcender, porém o Diabo sempre aparece com essas apostas, voltando a atenção para os prazeres mundanos e é isso que faz com que Parnassus continue preso no mesmo corpo durante toda a eternidade.

    1. Acho que o Parnassus é ou são todas as possibilidades, e há quem diga que o diabo na verdade é a nossa consciencia de nós mesmos – física talvez – mas que nos “prende” a esse mundo físico de 3 dimensões e restringe a nossa liberdade. E tudo por opção nossa mesma, por talvez ser parte de nossa essência o “aceitar a aposta”, e por isso nós estamos vivos deste modo. Só não consegui perceber direito ainda o que seria o personagem de Ledger dentro dessa interpretação.

      1. Sim, se o Dr. Parnassus nada mais é que a nossa imaginação (onde tudo é possível), a opção de sairmos desse mundo físico (transcender) é nossa, porém existe sempre algo material que nos faz permanecer nesse plano. Aí está a importância de buscarmos a essência das coisas, das sensações e dos sentimentos, ao invés de continuarmos “apostando”.

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