contos

Outono em Curitiba

Ainda era outono, o gari recolhia as folhas da rua, o sol fazia suas raras visitas, cada vez mais tímidas, querendo se esconder, se guardar pra depois do inverno. A mãe já não deixava mais seu filho brincar na rua. Por sua vez, seu filho ficava feliz por agora ter mais tempo na frente do videogame que ganhara de natal do seu pai, que agora só via nos fins de semana, desde a separação. Naquele outono do ano de 2010, nada parecia mudar ou mexer com a cabeça das pessoas: nem mesmo as notícias sobre a copa do mundo se aproximando, nem mesmo as eleições presidenciais, nem mesmo o próximo eclipse solar total ou o também eclipse, dessa vez lunar, previsto pro dia 21 de dezembro, exatos dois anos antes do fim deste mundo.

Em Curitiba, a apatia geral do restante do país era evidenciada por pessoas vestindo roupas escuras, casacos e cachecóis, todas munidas de um sorriso morto e com uma pele facial paralisada pelo frio que fazia nas últimas semanas. Para os curitibanos aquele era apenas mais um outono sem graça na vida cada vez mais previsível daqueles freqüentadores de shoppings e restaurantes italianos aos domingos.  Pra mim, o outono é a estação mais linda e interessante do ano, é aquela época onde a decadência natural se sobressai e tudo se desmonta para depois de um enterro (inverno), renascer mais uma vez, trazendo esperança ao mais desesperado descrente. Mas as pessoas costumam valorizar os verões, com suas praias, suas mulheres nuas, suas cervejas geladas, seus corpos grudentos e cheios de areia, suas mãos inchando de tanto calor, suas costas molhadas de suor.

Não sei por que, mas sentia que naquele outono aparentemente típico, algo de diferente estava pra acontecer.

Naquele dia, o vento chegou forte, sem educação, sem pedir licença, gritando para todos que ali estavam. As árvores não entenderam nada, ficaram mudas e como tinham poucas folhas, sentiam muito frio. A tia da escola pegava o menino pelo braço e o levava até o interior da escola, enquanto sua mãe observava tudo do carro, enquanto falava com seu ex-marido no celular. Aos poucos, uma garoa fina pairava pelo ar, deixando micro gotas nos casacos pretos dos transeuntes da Rua XV. Em poucos minutos, como que num truque daquele mágico sem graça do circo decadente que ficava do lado do Pinheirão, aquela garoa se transformara em flocos de neve, preenchendo com pontos brancos a paisagem da cidade. A criança pediu pra tia pra ficar do lado de fora da escola. Seus amigos apareceram em seguida e juntos brincavam com aqueles flocos, antes só vistos nos filmes americanos da Disney. A mãe parou de discutir com seu ex-marido por alguns segundos e olhou para o céu, esboçando um sorriso vivo. Nas ruas, os carros patinavam no gelo que se formara no asfalto. Guardas de trânsito eram acionados aos milhares. Nessa hora, os curitibanos diminuíram a marcha e passaram a caminhar mais lentamente, compartilhando sorrisos. O gari parava pra olhar as crianças se divertindo e lembrava-se do filho que o esperava em casa. Aos poucos, o brilho daqueles pontos brancos que caíam do céu acinzentado se confundia com o brilho nos olhos daquele povo. Naquele dia todos passaram a conhecer a graça do outono e da vida simples, distante da correria do dia-a-dia e dos problemas pequenos. O Brasil Grande agora voltava os olhares para a cidade de Curitiba e aqueles pequenos flocos de neve que cismavam em cair do céu e que deixavam o menino sem videogame mais feliz, a mãe menos preocupada e o gari (ainda) mais sensível.

Anúncios

4 comentários sobre “Outono em Curitiba

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s