contos, pseudojornalismo

A Magia de Um Boteco Vazio

Chegamos por volta das 10 da noite. Quando entramos havia umas quatro pessoas além daquelas conhecidas, que nos esperavam numa mesa logo a frente do modesto palco. No palco, um senhor de boina e voz rouca tocava um violão macio e ao seu lado, uma cantora de meia idade cantarolava canções brasileiras de décadas atrás, numa performance original, cheia de sentimento e calor. O calor que não era sentido no lado de fora – lá o frio castigava os corpos e os meninos que negociavam e fumavam pedras de crack, num comportamento perfeitamente normal para aquela região da cidade. Mas essa mesma cidade que teima em oferecer poucas opções noturnas decentes para alguém na faixa dos 30, também consegue propiciar momentos únicos em lugares pouco conhecidos desse mesmo público. É o caso daquele local, uma casa com mais de 20 anos de história, rica em detalhes: o pirata esculpido na frente do balcão, os antigos jogos de tabuleiro perto do banheiro, a sala de estar com sofás para cochilos leves ou PT´s alcoólicos, o melhor bolinho de arroz da cidade preparado pela própria garçonete, uma escultura de jornal e óculos escuros encima do palco e um freqüentador assíduo de cabelos brancos e com um bigode de dar inveja em Paulos Leminskis.

Nosso amigo fazia aniversário depois da meia-noite e foi assim que ele ganhou uma dose caprichada de tequila por conta da casa. Ganhou também um momento de fama ao ser convidado a tocar algumas canções no palco, no mesmo violão macio usado pelo simpático senhor de boina. Os dois senhores de cabelo grisalho que haviam sentado na mesa ao nosso lado, agora aplaudiam nosso amigo, pelo aniversário e pelas músicas apresentadas. Em seguida, Jorge, outro senhor que havia chegado há pouco tempo e num estado de embriaguez duvidoso, também o parabeniza, o abraçando e pagando uma cerveja ao rapaz. E aos poucos, o ar vai ficando mais leve e o tempo parece pegar carona com o frio do lado de fora, congelando os instantes que agora já haviam ficado na memória de todos nós. Curitiba ainda é capaz de surpreender mentes e corpos sedentos por magia. A magia que é capaz de transformar um modesto bar semi-vazio no melhor lugar pra se estar naquelas horas da noite.

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3 comentários sobre “A Magia de Um Boteco Vazio

  1. Muito bom o texto! Genial!!
    Tu transformou o momento daquela noite especial em palavras de aconchego que nos dão vontade de vive-los!!
    Parabens!!
    Gostei das citações!!
    hahaha

    abraços

  2. Querido blogueiro, você tem o dom de transformar uma story line em um longa emocionante e cheio de encantos, quero muito ver o que tem feito e o que já fez das palavras ao vídeo.
    Beijo e até logo.
    Polli

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