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Série “Taxistas Curitibanos” – Episódio #1: Um Som Caipira Dos Bons

Era uma noite de despedida, daquelas que a mente já se acostumou a vivenciar, mas que o coração ainda se aperta. Ela entrou no ônibus e eu no primeiro táxi que vi pela frente. O taxista era um senhor elegantemente trajado com pelo menos sete décadas nas costas, seu banco possuía aquelas bolinhas de madeira feitas pra amenizar a coluna fodida. Felizmente, o insuportável rádio-táxi estava desligado e no outro rádio tocava uma música sertaneja de bom gosto, daquelas antigas, que nunca ouvimos, mas que por algum motivo inconsciente nos abraçam numa noite fria.

Falei o destino final, bem perto dali por sinal. A música continuava pulsando forte. Em certo momento reproduzo aquele som característico de quando se limpa a garganta e talvez por isso, o senhor resolve diminuir o volume do rádio. Lá de trás falo que não há necessidade para tal, afinal eu estava curtindo aquelas canções sobre a vida na estrada ou no campo, amores não correspondidos, pombas brancas e cavalinhos de pau (os brinquedos mesmo). Pergunto quem é que está cantando aquelas coisas e o taxista abre um sorriso simpático, me informando que o som é antigo, de antes do meu nascimento, de uma dupla chamada Belmonte e Amaraí.

A corrida durou pouco, uns dez minutos apenas, mas o suficiente para eu me sentir melhor e conhecer algo novo. A despedida havia se transformado em antigas canções caipiras que acabaram por me confortar naquela noite fria e triste. Cheguei em casa, peguei papel e caneta e anotei o nome da dupla sertaneja. No dia seguinte, baixei alguns discos dos caras. O senhor sabia o que estava ouvindo, era um som caipira dos bons. Um táxi em Curitiba também pode ser cultura.

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4 comentários sobre “Série “Taxistas Curitibanos” – Episódio #1: Um Som Caipira Dos Bons

  1. Um taxi em Curitiba também pode ser cultura se você enxergar alguma cultura, como em uma tentativa fortuita de garimpar algo inaudito. Sei que parece cliché escrever isso, mas, como no caso dos bares supostamente desinteressantes de Curitiba, voilà: trata-se de um momento de insustentável leveza, um milagre cotidiano, um simples momento onde você pára de viver e começa a olhar de verdade o mundo ao seu redor.

  2. na minha época de graduando, era muito fodido de grana e sempre ficava na rua com o dedo tradicional (carona) e uma placa escrito “ESTUDANTE UNIVALI”, para ir pra faculdade. Nessas caronas muita coisa se vivia, muita coisa se aprendia e muita coisa acontecia, desde convites a festa de swingue até caras que achavam que tomar um copo d`água em jejum era ser alternativo….
    quem sabe uma hora dessas eu escrevo algumas dessas historias…

  3. Caronas são um meio oportuno e econômico (bota econômico nisso) de conhecer pessoas e culturas distantes de vc. Faça isso mesmo, é muito bom conhecer algumas dessas histórias malucas que rolam qd a gente dá chance pro inusitado!

    abraço

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