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Onde Vivem os Monstros?

Na infância, como toda a criança, eu costumava construir castelos de areia na praia e cabanas de lona na frente de casa, aonde chegava a dormir com meu irmão e meus amigos. Essa idéia de criar algo que seja capaz de unir as pessoas, sejam bonecos do comando em ação, amigos ou a própria família, parece permanecer mesmo depois de adulto, e é isso que consegue fazer de “Onde Vivem os Monstros” um filme para todas as idades, no melhor sentido da expressão. No fundo estamos sempre procurando construir nossos fortes, nossas casas, um porto seguro que nos dê segurança e principalmente una todos os membros queridos da nossa família, seja ela composta por esposa e filhos, amigos ou até seres imaginários. E por falar neles, no filme, o que se comprova é que eles também fazem parte da gente. São nossos medos, inseguranças e neuroses. E também queremos guardar essas coisas em algum lugar seguro, aonde possamos controlar a dose certa de cada sentimento, sem extrapolamentos ou supervalorizações desses pensamentos tão naturais a psique humana.

Em “Onde Vivem os Monstros”, Max, de apenas 9 anos, foge de casa e o mais longe que ele consegue chegar é em um lugar profundo na sua própria mente. Lá, ele se relaciona com todos os monstros que já o atormentaram em sua breve vida, mas que agora assumiram formas grotescas e reais. Um real que Max procura fugir quando reclama para sua mãe do milho congelado que segundo ela, continua sendo real. Para Max, aquela forma de realidade não condiz com o mundo dele. Afinal, como estava escrito no seu globo, Max é o dono do mundo, idéia que o monstrão Carol reeforça mais adiante, e que sendo assim, Max possue total controle (não esqueçam que ele é o Rei).  O mesmo Carol dá a dica depois, sobre um cachorro gigante que passa por eles, enquanto caminham no deserto: “É aquele cachorro, não o alimente, se não ele vai te seguir pra sempre”.  O cachorro gigante poderia muito bem ser qualquer medo, fobia ou neurose que temos e aí está a importância de não alimentarmos essas coisas, caso contrário, elas nos perseguirão por toda a vida.

E Carol, apesar da aparente tosquice e dos maus hábitos, é capaz de conselhos e metáforas singulares como aquela sobre os dentes: “Você sabe como se sente quando todos seus dentes estão caindo lentamente até que um dia você percebe que eles estão bem separados e em seguida você não possui mais nenhum dente?”.  A metáfora funciona tanto para ilustrar o amor perdido de Carol e K. W como para fazer outro elo (entre tantos outros) com o início do filme, quando o garoto conta aquela história sobre um vampiro que perdera todos seus dentes, e ainda vai além, já que a analogia remete a própria idéia de família que o garoto e todos nós buscamos construir.

Cada um de nós é sim o dono do seu próprio mundo, e assim sendo, criamos nossas próprias regras e também nossos próprios medos. E se somos capazes de criar isso tudo, também podemos destruir essas coisas, basta um pouco de imaginação e muita força de vontade. Max fez isso e deu certo, porque não daria certo com a gente?

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3 comentários sobre “Onde Vivem os Monstros?

  1. Achei o filme fantástico, porém um pouco pesado psicologicamente para o público infantil…

    A linha de pensamento usada pelos Monstros realmente nos mostra o nosso dia a dia com todos os seus pequenos momentos instaveis, onde nossos sentimento se misturam e nos confundem!!!

    Recomento, mas não para o publico infantil!!!

    Abraço,
    Amanda Barrionuevo

  2. Então, penso que as crianças tb se interessem por esse filme, já que os monstros, apesar de tristes, são bem divertidos (brincam, pulam…). Apesar de toda a carga emotiva, ainda há espaço para momentos de ação típicos de filmes infantis. E não sei, mas acho que crianças não sacariam sobre o que realmente o filme é sobre…

    Abraços!

    1. Concordo com Amanda. Acho o filme um tanto pesado para crianças, embora eu já nao tenha tanta certeza se o conceito idílico de crianças ainda cabe nos dias atuais, onde os desenhos animados sao um tanto violentos. Carol é o personagem mais emblemático do filme por funcionar como um “espelho” do próprio comportamento a priori voluntarioso de Max. Confesso que nao gostei tanto do formato estético da fábula (com direito ao indie rock de Karen O tocando no fundo), mas gosto é sempre pessoal (cliché, rs). Ao menos nao foi tao convencional como geralmente fábulas sao no cinema, mesmo a história sendo bem simples.

      P.S.: quando eu era adolescente, eu fazia mulheres de areia.

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