contos

Um Cigarro, Várias Memórias

 

 

O cigarro que acabara de acender já não tinha mais o mesmo gosto prazeroso de semanas atrás. Era o primeiro depois de nove dias contados e apesar do barato sentido e da (falsa) sensação de retorno a normalidade, aquele cigarro e a pólvora nele contido apenas funcionaram para acender o pavio de idéias e memórias que agora fervilhavam em seus pensamentos. A nicotina e as mais de 4.700 substâncias tóxicas inseridas naquele simples cigarro o fizeram recordar de momentos igualmente simples, mas de pura felicidade, tranqüilidade e de todas aquelas coisas boas que gostamos de sentir vez ou outra, quando pensamos pouco e sentimos muito. Na semana anterior, Pedro caminhava ao lado de Catalina por estradas de chão em um vilarejo denominado La Cumbrecita. La Cumbrecita é o tipo de lugar para se passar enquanto o resto do mundo está em guerra e repleto de desastres naturais. É o tipo de lugar pra se estar enquanto alienígenas ou governantes fascistas se preparam para dominar este mundo. No meio de alpes argentinos e longe do barulho das capitais, a vila recebe seus visitantes com a tranqüilidade de um casal de velhinhos que prepara um chá de ervas para seu vizinho doente.

Catalina era a companhia perfeita – com seus olhos profundos e um sorriso que conseguia ser mais doce que os melhores alfajores que já havia experimentado no país, ela o conquistara já nas primeiras horas. Pedro ainda sentia a garganta eferma, mas para lembrar-se desta condição, só mesmo com as balas de própolis que Catalina de hora em hora o oferecia. Naqueles momentos, o que Pedro sentia de fato eram os bons calafrios, indicando que estar ali, naquele pequeno espaço de terra ou paraíso, ao lado de Catalina, era tudo que seu corpo e sua alma precisavam. Para aquecer à tarde de outono que caía sobre as montanhas do simpático vilarejo, goles de choco caliente e colheradas de tortas artesanais por entre risadas e brincadeiras dos amigos queridos de sua companheira. Pedro se expressava minimamente na língua espanhola, mas não deixava de perceber o quanto afetuosa era a relação entre os novos amigos. O señor de barba grisalha e cabelos longos fumava o cigarro que agora era desprezado por Pedro. A lojista de produtos esotéricos cumprimentava o mesmo señor, como um amigo de longa data.

Numa pequena rua ali por perto, se via uma feira de artesanato ou o que seria um suspiro sincero de algo do gênero, já que hoje em dia esse tipo de coisa ganhou ares agigantados e com olhos meramente comerciais. O que se via ali eram não mais que dez barracas improvisadas e pessoas sorridentes apenas vendendo a sua arte, de maneira humilde e honesta.  Em uma delas, um flautista e uma espécie de banjoleiro suavizavam ainda mais o ar com sua música leve e ritmada pelos galopes dos cavalos que também habitam aquela terra graciosa. Nessa paisagem, Catalina completava o olhar de Pedro que no momento apagara seu cigarro na calçada.

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