contos

Sobre Ambulâncias

Há um som do lado de fora dessa casa. Da sacada, vejo luzes vermelhas e amarelas. Na rua, uma ambulância. O desconhecido homem é socorrido, sua cabeça está imobilizada, há um cinegrafista filmando tudo, policiais preenchem seus boletins, o motoqueiro do outro lado da rua vê tudo calado, imóvel. Espero o telefone tocar. Espero um pouco mais. Fumo um cigarro. Dois. Espero mais, mas ele não toca. Tento ligar, mas o número está ocupado. Ando pela casa, aflito, preocupado, impaciente. O maldito telefone permanece mudo, a ambulância não está mais lá, nem o motoqueiro, nem o cinegrafista e muito menos os policiais. Há um silêncio nas ruas que invade a minha casa, minha TV, meu som, meu telefone. Na minha cabeça, pensamentos gritam, perseguem, assustam. Checo mensagens no computador e descubro que minha caixa postal continua vazia. Tento controlar meus pensamentos mal educados, eles insistem em não pedir licença para falar. Que nada, eles não falam, gritam mesmo. Fumo mais. Fumaria todos os cigarros do mundo nessa noite, abraçaria toda minha ansiedade, alimentando-a com whiskys e… cigarros! Já passam da meia-noite, mas não quero saber de dormir, só quero que esse maldito telefone toque, é pedir muito? Chamem uma ambulância pra mim também, imobilizem minha cabeça, me dêem todos os sedativos que vocês têm. Quero acordar amanhã, com flores e o melhor café da manhã que um hospital possa dar.  Quero escutar um médico me dizendo que está tudo bem, que foi só um susto, nada muito sério. Quero um atestado para repousar em casa, tranqüilo, sem pensar no trabalho, nos problemas e muito menos no futuro.

Na saída do trabalho, vejo um mendigo cantando Vinícius. “Tristeza não tem fim, felicidade sim”, ele cantarola. Lembro da noite anterior, do desconhecido homem sendo socorrido, da vida que naquele instante decidira mudar de sentido, afinal, a felicidade é feita de breves momentos, momentos que se transformam em distantes memórias e que ficamos tentando resgatar.  O problema é que essas tentativas são frustradas e é por isso que não podemos se apegar ao passado, as lembranças boas com pessoas que amamos, mas que por algum motivo inexplicável não fazem mais parte da nossa vida. São fantasmas. Pedaços de seres humanos que agora fazem parte de você. Mas cuidado, nunca deixe que esses pedaços consumam você por dentro, lembre-se que você é mais forte que tudo isso e consegue dar a importância necessária para cada fantasma, seguindo em frente, à procura daquele que ficará com você até a sua morte, desta vez, em carne e osso.

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3 comentários sobre “Sobre Ambulâncias

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