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Bastardos Inglórios: Obra-prima?

Para o próprio Tarantino, seu último filme é sua obra-prima. Apesar de discordar em parte com essa afirmação e fazer parte do time que pensa haver uma superestimação do diretor norte-americano, eu acredito que há algumas cenas em “Bastardos Inglórios” realmente dignas de uma obra-prima. É sobre algumas dessas cenas que falarei com detalhes em seguida.

Talvez esse seja um dos melhores inícios de filme dos últimos anos, considerando a produção hollywoodiana atual, com seus roteiros pouco inovadores e até com falhas (mesmo após dezenas de revisões, como eles costumam ter).  A primeira seqüência do filme, com seus longos planos, diálogos carregados e inteligentes, e com a construção de um clima de suspense e medo, prendem a atenção do expectador de uma maneira, repito, pouco vista no cinema contemporâneo comercial.

Primeiramente somos apresentados a uma família de franceses localizada em alguma fazenda daquele país. A trilha western-morriconiana e os planos abertos fazem uma referência clara aos filmes antigos de Sergio Leoni e o curioso é que a paisagem apresentada pouco tem haver com aquela que estamos acostumados a ver em filmes de western. Em seguida um carro do exército nazista se aproxima da fazenda (seriam cowboys com seus cavalos, novamente, se esse fosse um filme de western). É nesse momento que somos apresentados a figura do Coronel Landa – personagem e vilão com maior importância no filme.

Já no interior da casa, o coronel pede um copo de leite, elogia as filhas do fazendeiro e pede para sua família esperar do lado de fora da casa, junto com seus soldados. A partir daí, o clima de medo e suspense começa a se estabelecer. Questionado sobre uma família de judeus que havia desaparecido, o fazendeiro diz que ele ouvira boatos sobre uma possível fuga para a Espanha. À medida que os dois conversam, a câmera inicia um travelling vertical passando para debaixo da mesa, os pés de ambos, o chão e por fim o porão da casa, onde está a família mencionada anteriormente, em completo terror e se controlando para não emitir um som sequer.  O coronel então, ameaça encerrar a investigação, mas antes, pede outro copo de leite e inicia seu discurso a respeito de seu apelido (Caçador de Judeus).  Em seguida, ele começa a teorizar, fazendo uma analogia dos judeus com os ratos. “O mundo é hostil para um rato” diz ele. Porém ele indaga “Algum rato já fez algum mal para criarem toda essa animosidade?”. Após o fazendeiro falar que os ratos são responsáveis por uma série de doenças, o coronel os compara aos esquilos, ambos roedores e possíveis transmissores de doenças. “Mas eu assumo que você não possui a mesma animosidade com os esquilos, certo?” Nessa cena, a analogia com ratos é extremamente oportuna, uma vez que no próprio porão estão escondidos “ratos” ou o que seria na verdade, uma família de judeus.

A cena a seguir mostra o coronel acendendo seu cachimbo, que por sinal possui um formato estranho, lembrando aquele famoso cachimbo usado por Sherlock Holmes. Além de mostrar uma diferença brutal entre seu cachimbo e aquele, bem mais simples, utilizado pelo fazendeiro, o fato dele remeter ao antigo detetive, mostra que ali não está apenas um coronel qualquer, mas um investigador profissional. Todos esses elementos funcionam justamente para aumentar a tensão.

Ao questionar sobre seu objetivo em tempos de guerra e explicar os benefícios que sua família teria caso ele entregasse os judeus que está escondendo em seu porão, a expressão do fazendeiro diz tudo. É em um olhar diferente que o coronel tem a certeza sobre suas suspeitas. E assim a seqüência caminha para seu desfecho, carregado daquela violência que já nos acostumamos a ver nos filmes do “jovem” diretor.

Sem dúvida alguma, nessa seqüência Tarantino deu uma aula de cinema, com um roteiro repleto de diálogos sagazes, uma fotografia perfeita e atuações de tirar o fôlego. Isso sem falar na direção de arte de época. O cinema comercial agradece.

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21 comentários sobre “Bastardos Inglórios: Obra-prima?

  1. Sou um grande fã do Tarantino, e da sua “louca” obra, desde Cães de Aluguel, e acho incrível o fato do cara SEMPRE surpreender com seus atores, quer seja retirando do ostracismo atores que já pareciam aposentados a muito tempo, quer revelando caras como Christoph Waltz, que interpreta o coronel Hans Landa, que na minha modesta opinião era pra oscar de melhor coadjuvante, o cara simplesmente dá uma aula de interpretação, agora aguardo por “Machete” que enfim vai fazer uma homenagem a Danny Trejo, o eterno vilão mexicano, que agora é o “mocinho” e protagonista, Tarantino é f…

  2. Outra cena do filme que é genial é a cena em que Shoshanna, filha da família de judeus da primeira cena, e o personagem de Waltz estão num café ou restaurante em Paris e ele come um doce. O clima de tensão já está instalado, visto que a moça está diante do homem que exterminou sua família na cena descrita acima e que, por pouco, não a matou também. O Coronel parece que sabe de quem se trata a moça, que mudara de nome. Landa deixa a cena mais apreensiva e a moça ainda mais com medo, quando pede ao garçom que sirva um copo de leite para a sua acompanhante. O que a faz remeter a cena inicial.
    A interpretação de Cristopher Waltz é uma das melhores do cinema nos últimos anos e, justamente, levou os principais prêmios do mundo na categoria ator coadjuvante.

  3. Pulp Fiction é a obra prima do Tarantino.
    Cães de Aluguel, Death Proof, Kill Bill e Jackie Brown vêm em seguida, nessa ordem. Depois de todos esses filmes talvez alguém possa incluir Basterds entre os melhores dele.
    E sem contar Um Drink no Inferno.
    Basterds é monótono, não impressiona e usa o tema mais batido do cinema: nazismo/2a Guerra Mundial.
    E está a quilômetros de ser uma obra-prima.
    Alguém concorda?

    1. Talvez o grande mérito do Bastardos seja justamente tratar pela milésima vez o tema “2a guerra mundial”, porém de uma maneira totalmente subversiva e imaginativa. Ainda acho o Pulp Fiction e o Cães de Aluguel melhores, mas colocaria Bastardos nesse topo.

      Gosto é gosto…

  4. Em parte, concordo com Rosa. Confesso que nao vi todos os filmes do cara, mas acho ainda “Caes de Aluguel” o mais tarantinesco de todos. Achei irritante o sotaque exagerado do sul dos Estados Unidos mostrado no filme por Brad Pitt. Saquei a homenagem, mas tanto o personagem quanto o ator estao longe de serem um “negro branco”. Christopher Waltz rules!

  5. Basterds é monótono, não impressiona e usa o tema mais batido do cinema: nazismo/2a Guerra Mundial.
    E está a quilômetros de ser uma obra-prima.
    Alguém concorda?

    Tenho uma auto-afirmação a respeito dos filmes Tarantinescos: Só podem ser assistidos pelos inteligentes, do contrário as obras se apresentam “cansativas”.

    Bastardos, assim como os demais filmes do Tarantino concretiza a minha idéia a “constante evolução” do diretor é evidente. Ele é um gênio e merece todo o reconhecimento. Fez de um tema clichê, algo totalmente envolvente e marcante.

    Costumo dizer que o Tarantino faz com que coisas triviais ganhem um valor a mais e um simples: “Com quem está os diamantes?” se transforma um filme inteiro (o 1ª e um dos melhores), até as mulheres ficam mais lindas, vide: Death Proof Lap Dance ou preste atenção em qualquer outra atriz, pois todas ficam maravilhosas nos filmes dele (não sei por que, mas tenho esta impressão), sem contar os diálogos marcantes…

    …Quentin Tarantino é um poço infinito de cultura, cinema, inteligência e influências. Sem contar que ele pode tudo.; misturar humor, violência, carros, gângsters, histórias de amor, drogas, assassinos, mustangs, chargers, mulheres, cinema, música, guerra, dança, katanas, cobras, magnums, hotéis, bruxas, crianças, méxico, japão… Bom, não dá pra falar tudo aqui… Mas Inglourious Basterds é outra obra prima que com orgulho acrescenta-se às obras do diretor. Que venham outras ^^

  6. Lembrando galera… nesse filme Tarantino só faz a direção… Pulp Fiction e cães de aluguel é direção e roteiro… taí o motivo de ser o top list de todos!!!

  7. Um tempo atrás eu lembrei dessa cena do cachimbo e teorizei uma coisa.

    Na psicanálise, pode-se associar o cachimbo ao phallus… o falo masculino.
    Assim como o charuto, cigarro, nariz…

    Naquele momento, o fazendeiro está acuado, assustado, com muito medo.
    Quando puxa o seu cachimbo, ele é pequeno, fino, curto… faz pouca fumaça.

    O Landa, por outro lado, mostra o cachimbo dele… naquele momento, um cachimbo grande, robusto, solta aquele monte de fumaça… até assusta.

    Ali ele tava mostrando quem manda, quem é o MACHO mesmo.

    Faz sentido?

  8. Com relação aos comentários que fiz acima, Waltz…realmente não poderia ser outro a ganhar o prêmio, ok?!, Robert Rodriguez com todo respeito, acho uma extensão do Tarantino, bem como Richar Donner e Robert Zemeckis, são uma espécie de extensões do Spielberg…se é que me entendem?!?

    está aí pra concordarem ou discordarem…grandes mentes discutem idéias!

  9. Interessante essa interpretação sua “…” sobre os cachimbos. Semioticamente a cena tb pode ser analisada por essa questão sexual, tão presente na obra de Freud.

    Com relação a Robert Rodriguez ser uma extensão do Tarantino, tb concordo, apesar de achar os diálogos “tarantinescos” incomparáveis.

  10. Quando assisti esta cena do filme, lembrei do livro/hq Maus, do Art Spiegelman (acho q é assim que se escreve). Pra quem não viu, é uma excelente obra.
    Assim como o personagem de Tarantino, Spiegelman mostra os judeus representados por ratos. Já os nazistas são felinos, os americanos são cachorros e os poloneses são porcos.

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