contos

Despedida em Buenos Aires

E lá estava ele, oficialmente solteiro. Na mesma cidade que outrora lhe acolhera sutilmente, no calor de braços argentinos e na companhia de amigos antigos, brasileiros. Nas ruas, os rostos das mulheres o confundiam, numa estranha mistura entre memórias e últimas esperanças. Sim, ele ainda queria conversar com ela – a argentina que agora fazia parte do seu passado. Ele tem uma leve tendência a não gostar de finais inconclusivos ou mal acabados, a não ser em filmes europeus ou latino-americanos. Mas tudo naquela cidade conspirava para o tal encontro não acontecer e enquanto isso ele procurava aproveitar o máximo que podia. Insistia em dormir mais um pouco, sem compromissos ou trabalhos que o impedissem de curtir longas horas em uma cama de um quarto com uma calefação extremamente bem vinda em dias de inverno intenso como aqueles.  Os almoços têm sido tardios, próximos dos jantares que costumava ter sozinho, no Brasil. À noite, saia com seus novos amigos brasileiros que lá estudavam. As baladas costumavam ser imprevisíveis. Variavam entre noites latino-americanas com doidões estrangeiros “buena onda” ou adolescentes argentinos que o empurravam, em um modo educado e regional de pedir passagem. Na mesa do lado havia um casal praticando sexo. Que maldita mania é essa de misturar uísque com coca-cola – pensava ele. A menina se assustava quando ele dizia que tinha 29 anos. Pra ela, que tinha menos de 20, ele não passava de 26. A outra se assustava com o tamanho dos seios da amiga dele – seu decote costuma dar asas a imaginação de qualquer chico, além de drinks gratuitos por garçons com segundas intenções.  A música eletrônica do DJ era dark demais para a alegria daqueles jovens todos.

Seus sonhos de se tornar um escritor profissional precisaram ser adiados. Seu amigo diz que escritores não pensam em dinheiro, mas qual é o problema em ganhar para fazer aquilo que gosta? Dan Browns e Paulo Coelhos que o digam. Lá, seus pesos eram consumidos um a um em cafés antigos, alfajores industriais, massas artesanais e naquelas noites intermináveis em que conversas sobre jogos de cafés virtuais eram alternadas com trocas de experiência e histórias sobre apostas e jogos de bebida. Os vinhos e as cervejas de litro eram entregues a qualquer hora da madrugada, em serviços delivery que deveriam existir no Brasil.

Após cinco dias em Buenos Aires, ele finalmente havia percebido que aquele mesmo cara que havia deixado o Brasil, com milhões de dúvidas e incertezas, agora já era outro homem, com novos pensamentos, novos objetivos, novos sentimentos. A velha consciência ainda lhe pregava peças, resgatando velhos fantasmas e pensamentos antigos, com validade vencida. Estava novamente sozinho, sem planos definidos, sem raízes que o pudessem dar qualquer tipo de (falsa) segurança. Ele é agora um homem livre, no melhor sentido do termo. Os ventos gelados daquela cidade mudaram novamente de rumo. É hora de voltar e recomeçar, pensa ele. Dessa vez sem falsas esperanças, sem falsos sonhos, sem ilusões.

Anúncios

6 comentários sobre “Despedida em Buenos Aires

  1. Igor…
    Amigo bom mesmo que por instantes e por um periodo quase nulo…
    Como falavamos aqui, uma viagem transforma muito em muito pouco, pouco em muito e nós em tudo!
    Coisas grandes são chatas e coisas pequenas nos deixam bobos!!
    É nisso que se resume tudo!
    Nossas viagens mostram como seria a vida se não nos dessemos a tanto trabalho e preocupação e fossemos realmente viver!
    Faz o que der na telha!
    Trilha o que der pra sonhar e nunca sonhe somente o que da pra trilhar!!!
    abraço filhão e uma hora dessas a gente sbarra denovo!

    1. Valeu Bruno! Muito bom ter te conhecido nesse passeio rápido por terras geladas (se bem que aqui não tá tão melhor assim). Você é a parceria em pessoa, sempre pronto pro que der e vier!
      Mande um abraço em todos aí, naquele dia mal deu pra se despedir, mas é isso aí mesmo, qualquer dia a gente se esbarra de novo!!

      abração

  2. Meu caro Igor…

    Ler seus textos é para mim a hora mais gostosa do dia. Adimiro muito seu talento. É simplesmente deliciosa a forma como você passa suas mensagens,escreve suas histórias…

    O pensamento é mesmo incrível, podemos estar onde e com quem quizermos a hora que for… Mas que coisa que é a vida! A distância real que existe entre as pessoas, tornam a separá-las mesmo que o pensamento permita estar perto. Infelizmente, a distância tem essa capacidade de romper laços e forçar a vida tomar outro rumo…

    As histórias se repetem, o tempo todo.
    Beijos

    1. Gi,

      Receber um elogio desses é pra mim a hora mais gostosa do dia tb! rs
      Especialmente por eles serem tão raros (mas não menos sinceros).

      A distância é uma coisa louca mesmo, ao mesmo tempo que ela ajuda a mensurar o tamanho dos nossos sentimentos, ela tb tem essa capacidade de forçar novos rumos, como vc bem disse.

      Fique a vontade para comentar meus textos quando quiser, e criticar sempre que for necessário. Obrigado novamente pelo apoio!

      Beijos

  3. Quando li esse texto, logo fui pra faculdade. Com o pensamento voltado pros teus pensamentos. E como um peido, uma idéia sem dar avisos foi surgindo no caminho de bike: uma melodia, uma letra, não tinha onde anotar, logo seria esquecida. E foi.

    Seis horas depois eu fui pra casa. Tomei uma cerveja, coloquei o cd Pouco do Moska pra ouvir e fui ler seu texto novamente. Vomitei algumas palavras.

    Ta no blog, você vai saber qual é…

    gugagumma.blogspot.com

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s