contos

Segunda, Frio e Beatles

Segundas-feiras não são exatamente os melhores dias para se sair de casa a noite. Em Curitiba então, é quase um sacrilégio. Pra piorar, naquela segunda-feira fazia aquele tipo de frio terrorista, daqueles que deixam todos em casa, com medo e ainda sim, com frio. Mas naquela noite especial haveria uma apresentação de uma banda cover de Beatles – a melhor que já conheci e com certeza aquela com o nome mais criativo: “Os Liverpoolgas”. Coloque um filtro preto e branco ou sépia na sua imaginação, pois voltarei há oito ou nove anos atrás, em um rápido flashback.

Era um verão qualquer em uma tal ilha do mel, localizada em algum lugar do oceano atlântico, próxima ao “continente” paranaense. Lá estava eu, com vinte e poucos anos, em um camping com alguns amigos. Foi em uma noite daquelas que conheci esses caras malucos que, com os pés descalços e bermudas, executavam com maestria a obra dos rapazes de Liverpool, de maneira descompromissada, sem frescura, assim, como sempre deveria ser. O local da apresentação era um boteco praiano, daqueles que atraem bêbados locais e hippies de plantão. Na oportunidade conversei com alguns deles após o show e depois desse dia, estive presente em praticamente todos os outros shows. Entusiasta do grupo, cheguei a criar comunidade no Orkut e perfil no myspace, sempre convidando dezenas de amigos, além de chegar ao ponto de organizar uma micro-excursão até uma pequena cidade no interior de Santa Catarina, com direito a “dança do polvo” – homenagem do meu amigo a canção Octopus Garden.

Regressemos as cores que naquele dia, ou pior, naquela segunda-feira gelada, com cara de ressaca das brabas, buscavam tons monocromáticos. Lembro que convidei pelo menos mais dois amigos para irem ao show comigo. Convites estes, devidamente recusados. Já estava desistindo da idéia quando o terceiro amigo aparece lá em casa e após algumas taças de vinho, pizzas requentadas e algumas horas de conversa, acaba me acompanhando nessa empreitada rumo a becos congelantes e ruas vazias, até o destino desejado: um bar “rock´n´roll” tradicional, em noite de tributo a maior banda pop rock sessentista inglesa da história da música contemporânea. Realmente, as ruas estavam mais vazias que em dias após mortes de presidentes ou no nosso caso, Ayrton Sennas. No famoso centro histórico da cidade, contei duas pessoas no trajeto todo. Fiquei me perguntando onde estavam os mendigos e os pequenos traficantes. Nem assaltantes trabalhavam naquela noite.

No bar, chegamos na hora certa, minutos antes do início do show. Não lembrava a última vez que tinha visto eles, e estar novamente ouvindo aquelas canções antigas que meu coração sabe décor, me fez sentir melhor, satisfeito por estar ali, naquele tempo/espaço. No fim, o sacrifício de abandonar o conforto de um lar em plena segunda-feira de inverno, compensou. E muito.

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4 comentários sobre “Segunda, Frio e Beatles

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