contos

O Casamento

Aquele era um dos finais de semana mais frios do ano, mas naquele domingo especial a chuva havia dado uma trégua, amenizando o frio constante. A moça da organização já havia transferido a cerimônia para um salão devidamente fechado, mas por insistência da noiva o local fora novamente definido para um jardim em pleno ar livre – o que fez toda a diferença.  Pouco antes do meio dia, os pouco mais de 100 convidados se retorcem das cadeiras, já que o rock cinquentista incidental havia sido trocado pela doce balada beatle “Here, There, and Everywhere”. Foi nesse momento que o noivo e sua mãe desfilaram até uma espécie de altar improvisado, sem qualquer menção religiosa. Ao meu lado estava a irmã da noiva, esboçando as primeiras lágrimas, presentes em praticamente todo o casamento. Em seguida, de vestido aliciano branco, sapatos vermelhos e buquê de rosas vermelhas, caminhava solenemente ela, a Noiva. No ar, ouvia-se outra balada doce, dessa vez a tocante “Love of My Life” da dupla cinquentista “The Everly Brothers”.

Para validar o matrimônio, não havia um padre, ou um pastor, apenas um juiz. Sim, um homem civil, ou um juiz pastoral, como ele mesmo preferia se denominar, numa forma simples de agradar avós e avôs presentes, ou outros religiosos convidados. No seu sincero discurso, palavras e mensagens que citavam grandes líderes mundiais, Martin Luther King com a potencialidade de um “Eu tenho um Sonho”, Winston Churchill com seu emblemático “Nunca desista”, e por fim, Jesus Cristo com sua mensagem de amor amplamente divulgada. Mas o senhor com o microfone na mão ainda aproveitou o espaço para contar detalhes de como os noivos se conheceram, aumentando aos poucos a emoção coletiva e inevitável. Fazia frio e as pernas da noiva tremiam em um sinal ambíguo de frio e nervosismo, uma ansiedade que eu nem tentarei descrever aqui, já que há certos tipos de emoção inerentes a mulher e mais especificamente ainda, a Noiva – coisas que nós homens, nunca entenderemos.

É chegada a hora das trocas de aliança, mas espere aí, onde estão elas? Aflito, o noivo gesticula para trás, como se estivesse chamando um cachorrinho, mas não era exatamente isso que estava lá atrás. De vestido elegante e bordado fino, uma garotinha de poucos anos de idade esbanja carisma e um bocado de vergonha, afinal, todos os 100 convidados estão olhando pra ela. Com as bochechas vermelhas como os sapatos da Noiva, o noivo vai até ela e consegue finalmente pegar as alianças. Ao fundo, “Real Love” de John Lennon, acompanhada em seguida por “I Want You” de Tom Waits. Do meu lado, a irmã da noiva não consegue conter o choro. No final, o casal, agora oficialmente e publicamente casado, sai pelo mesmo corredor, dessa vez, ao som alegre e festivo de “I Want You”, de Dylan. Poderia ter inventado essa história toda, mas acredite, ela aconteceu.

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3 comentários sobre “O Casamento

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