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Sexo Explícito no Cinema é Pornografia?

Em uma das primeiras cenas do filme “Shortbus” de 2006, vemos um dos personagens centrais praticando sexo oral em si mesmo. Não há uma preocupação em esconder o pênis do ator, tudo que vemos é exatamente o que está acontecendo. Somos como o outro personagem que observa tudo atentamente, do outro lado da rua, no prédio vizinho, com um binóculo ou no conforto da nossa casa, assistindo o DVD na televisão. Em outra cena, vemos um ménage a trois entre homens homossexuais. Tudo explícito, sem pudor ou truques de câmera. Até aí, poderia dizer que estamos diante de um filme pornô meio bizarro, distante de qualquer “forma de arte”. Mas não, “Shortbus” consegue ir além disso, envolvendo o expectador numa história de amor, angústias e sim, muito sexo.

É sobre as relações amorosas e por conseqüência sexuais que o diretor pretende discutir. É sobre a mulher “pré-orgásmica” que ironicamente é uma terapeuta sexual (ou conselheira de casais, como ela prefere ser chamada). É sobre uma dominatrix que nunca teve uma relação amorosa. E é sobre uma espécie de clube/bar nova-iorquino chamado Shortbus, onde todos esses desajustados se encontram.

Quando questionado sobre a razão de tantas pessoas jovens irem morar em Nova Iorque, o drag queen Justin Bond responde: “11 de setembro. Foi a única coisa real que aconteceu com eles.” Em outro momento, um antigo prefeito da cidade e freqüentador assíduo do clube fala que “Nova Iorque é o lugar onde as pessoas vão para serem perdoadas”.  Ao observar a sala onde diferentes casais praticam sexo grupal, Justin Bond comenta: “É como nos anos 60. Mas com menos esperança”.

Com diálogos sinceros e originais intercalados com cenas de sexo explícito (não menos sinceras ou originais), Shortbus ajuda a redefinir o conceito de pornografia no cinema, comprovando que essa idéia está muito mais no olhar do expectador do que nos órgãos sexuais dos atores capturados pelas lentes do diretor. Afinal, não podemos esquecer que o sexo e seus tabus fazem parte da nossa vida, e por que não deveria também fazer parte do cinema?

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26 comentários sobre “Sexo Explícito no Cinema é Pornografia?

  1. Eu nao vi o filme e confesso que nem tenho curiosidade depois de ter visto um tanto apelativos como Sweet Movie de Makavejev, Pink Flamingos de John Waters ou mesmo Salò do próprio Pasolini. A questao nao é a pornografia em si porque ela só existe enquanto finalidade de excitar e nao de ser explícita. Filmes pornográficos estao aí para intumescer qualquer um, nao há arte nenhuma. Mas um filme como “Shortbus”, que segundo o blogueiro, propoe-se a usar a pornografia para discutir as (decadentes) relaçoes humanas na pós-modernidade é no mínimo questionável. Isso porque desde sempre cenas de sexo e nudez sempre foram um foco de distraçao para os telespectadores. Nesse caso, podemos lembrar de filmes que tiveram seu próprio roteiro obliterado por cenas “muito” sexuais. Minha experiência diz que esse filme será lembrado mais pelas cenas ousadas que pela história um tanto banal apresentada. Será que qualquer diretor de cinema que se preze gostaria realmente disso? Eu só posso falar por mim aqui: nao mesmo.

    1. Posso dizer que não me excitei em nenhum momento da película. Também não concordo que cenas de sexo explícito só sirvam para distrair os expectadores da história que está sendo contada. Talvez nos minutos iniciais, as cenas de sexo te pegam desprevenido, mas logo que as histórias comecam se desenrolar, você passa a se interessar muito mais por elas do que apenas pelas cenas de sexo. Repito, as cenas de sexo ali não são gratuitas ou apelativas, elas apenas servem para ilustrar aqueles conflitos apresentados. Em suma, sugiro que o comentarista assista o filme, antes de tirar suas próprias conclusões.

  2. Perder o preconceito exatamente de quê ? Desculpe, querido blogueiro, mas nao entendi se sua colocaçao foi genérica ou particular…

  3. A cara…acho que existem outras maneiras de “discutir” ou chamar atenção do publico para as relações humanas. E que seriam muito mais eficientes. = ) =

  4. Shortbus é um grande filme. É bonito e extremamente leve, conseguindo demonstrar não apenas a tal da decadência pós-moderna, mas também as similaridades entre nós que estamos assistindo e aqueles personagens que são supostamente tão distantes da maioria de nós.

  5. Concordo parcialmente com Josh. A arte (desde a pintura, a fotografia ou o cinema até a dança ou mesmo as artes marciais) atualmente está bastante carente de seus propósitos mais importantes:
    Em primeiro lugar, a arte deve ser útil para o artista, ou seja, ter um propósito e/ou uma utilidade para o seu dia-a-dia, que deve ir além do auto-sustento.
    Em segundo lugar, a arte deve ser útil para aquele que a observa ou utiliza, ou seja, ter um propósito e/ou uma utilidade para o dia-a-dia, que deve ir além de simples estética.
    Em terceiro lugar, a arte deve ser fruto do empenho do artista, ou seja, mesmo a um perito dedicado deve ser possível maravilhar-se com a técnica e a dedicação do artista (devemos lembrar que os leigos se impressionam com qualquer coisa, e por isso existem tantos artistas trambiqueiros por aí!!!!).
    E aqui entra o assunto sobre o filme: não é “acrescentando” que se busca o aperfeiçoamento, mas sim “retirando”. Tal como o escultor que vê uma figura em uma pedra e tira dela as partes necessárias até que seja possível aos demais verem o mesmo que ele vê, todo artista deveria “tirar” ou “limpar” tudo o que não for realmente necessário em sua arte até que seja possível ao observador/utilizador de sua arte ver claramente o propósito da obra, mas a própria ALMA do artista.

  6. Não assisti a essa película, mas a crítica moral em torno da mesma é condenável. Não interessa se há sexo explícito ou não, e sim se a demonstração de tais atos se insere em um contexto esteticamente elevado.

    Tão cliché quanto sexo explícito em uma obra cinematográfica, é o telespectador se sentir moralmente ofendido.

    Também concordo com a visão utilitária da arte tal como comentado acima. A arte pode ou não ser útil (seja lá qual for o significado disso), mas a característica primordial de qualquer manifestação artística é a criatividade, apenas isso. Se é útil ou não, se entretém ou não, são outros 500.

    De qualquer forma, gostaria apenas de deixar um adendo: Desconfie de qualquer filme indicado por um cineasta.

  7. Parabéns pelo post, quando li o titulo pensei que seria um post preconceituoso e ordinário fazendo referencia sobre a pornografia que se encontra no filme, mas ao desenrolar da leitura percebi uma opinião muito bem formada, culta e de excelente textualidade.
    Acredito que a pornografia está na cabeça de cada um, mas vale ressaltar que o filme tem classificação + 18, o que identifica a obrigatoriedade da idade para interpretar de fato os acontecimentos e a drama do filme e não para um garotinho de 15 anos se masturbar com as cenas explicita.
    Esse é um dos tabus mais difíceis de serem quebrados; a nudez e a sexualidade. Por isso acho impressionante o fato de alguns seres humanos conviverem em harmonia em praias e campos de nudismo. Como um professor meu descreveu os atores quando iniciados, todos ficam pelados um de frente para o outro para quebrar esse clima de tensão, esse preconceito a timidez. Então, acredito que o filme queira “quebrar” essa vergonha que os seres humanos têm de falar em um assunto tão fático, tão comum e ao mesmo tempo tão incomum. Um paradigma interessante.

  8. O que seria a arte do sexo? Afinaçao durante gemidos orgásmicos, coreografia no entrelaçamento das pernas durante uma orgia e performance facial durante um bukkake (digna de Oscar)? Detalhe: nao houve nenhum próposito esteticamente elevado durante a realizaçao desse filme, a meu ver. Trata-se apenas de uma história de pessoas que buscam sua felicidade através do sexo e as consequências disso geradas.

    1. Não acredito que para haver “arte no sexo” seja necessário movimentos precisos, seja de câmera ou mesmo dos próprios corpos. Basta a simples inserção de cenas de sexo dentro de um contexto como vc mesmo disse, sexual. Se isso é apenas mostrar pessoas buscando a felicidade através do sexo, tudo bem tb, afinal a arte imita a vida e vice-versa.

      Tb concordo com o Paulo quando ele diz que o filme (assim como outros do gênero) tenta apenas desmistificar esse tal tabu do sexo, algo que já deveria ter sido superado há muito tempo atrás.

  9. O filme é excepcional. Discute as variações e os problemas sexuais de maneira muito crua e real.
    OBS: o filme não tem o intuito de excitar ninguém, o objetivo principal é discutir um tema tão importante de maneira prática, e não apenas com ficção e meras menções

  10. Muito engraçado que um filme que foi completamente condenável como Caligula seja bem feito na questão conceitual. No caso do filme Caligula, que para quem não conhece

    http://pt.wikipedia.org/wiki/Caligola

    Este filme é bem pesado na questão sexual, tanto que eu e meu irmão brincamos dizendo que não é um filme sobre história com elementos sexuais mas um filme sexual com elementos históricos. Mas, em contraponto, isto não faz o filme ruim ou o sexo contido nele excitante. O filme é bem fiél ao que acontecia na época e chega a pertubar. Acho que a questão sexual é importante se for bem aplicada. infelizmente não vi o filme acima mas, acho completamente válido o sexo na arte também. Tudo se for conceituado.

  11. Pornografia é representação, por quaisquer meios, de cenas ou objetos obscenos destinados a serem apresentados a um público e também expôr práticas sexuais diversas… Então conclui-se que sim.
    Sexo explícito no cinema é pornografia.
    Óbvio.

  12. Qualquer que obra que desperte em mim qualquer emoção pra mim é arte.
    O filme fala de frustrações sexuais e transmite isso da forma mais absurda e criativa possível.
    A arte não necessita de quaisquer meios de conclusões.
    Ela é o que é , assim como a pornografia.

  13. parabens pelo texto!
    O filme é bastante interessante e vem com a idéia da quebra do tabu do sexo explicito., o desconforto do ser humano ao ver uma cena de sexo explicito já soa “medieval” a muito tempo. Enquanto que hoje nos acostumamos com a cenas de violencia explicita, o sexo continua sendo motivo quase que criminal no cinema!
    Certa vez um certo autor citou: “No cinema se na cena de sexo as pessoas estão se divertindo é pornô. Se elas estão sofrendo é arte.” Shortbus vêm pra desconstruir esse velho tabu!

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