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Sinédoque, Nova Iorque – Um Filme Sobre Tudo

Se eu fosse resumir o filme a uma fala, eu poderia dizer que ele é sobre tudo (“It´s about everything”). Eu poderia repetir a descrição do dicionário para a palavra “sinédoque” e falar da relação desta com a história contada neste filme. Eu poderia também falar das incríveis atuações de Philip Seymour Hoffman ou do elenco de apoio (ou ainda do incrível design de produção). Eu poderia fazer um comparativo com os demais trabalhos de Charlie Kaufmann – um cara que os críticos adoram batizá-lo com diferentes adjetivos como “talentoso”, “pretensioso”, “criativo”, “doido” ou ainda “o queridinho dos alternativos”. Eu poderia ainda falar do excessivo e original uso da metalinguagem empregada no filme. Ou eu poderia falar das projeções do personagem Cotard (nome retirado de uma síndrome um tanto peculiar) no desenho animado que passa na sua TV ou no diário de sua filha. Eu poderia falar dos milhares de simbolismos, presentes em todos os roteiros do agora também diretor. Mas em respeito aqueles que não viram o filme e que provavelmente nunca irão, vou preferir discorrer apenas sobre algumas palavras ditas por um suposto padre em um determinado momento, durante um dos vários funerais presentes na película – já que essas mesmas palavras falam muito mais do que o filme em si e fazem a gente questionar uma série de outras coisas infinitamente mais importantes que um simples filme que pegamos na locadora, em algum domingo chuvoso.

Primeiramente nada mais lógico que transcrever o texto, em tradução livre, dito pelo suposto padre (ou pastor, se preferir): “Tudo é mais complicado do que você pensa. Você só enxerga um décimo da verdade. Há um milhão de conseqüências ligadas a qualquer decisão sua; você pode destruir a sua vida todas as vezes que você toma uma decisão. Mas talvez você não perceba isso por 20 anos. E você nunca conseguirá traçar o caminho até a origem. E talvez você só terá uma chance de fazer isso. Apenas tente sair do seu próprio divórcio. E eles dizem que não existe fé, mas existe: é aquilo que você cria. Mesmo que o mundo continue existindo por milhões e milhões de anos, você está aqui por uma fração de uma fração de um segundo. A maior parte do tempo você passa estando morto ou aguardando a vida. Mas enquanto está vivo, você espera em vão, desperdiçando anos, por uma ligação ou uma carta ou um olhar de alguém ou de alguma coisa que fará tudo ficar bem. E nunca vem ou parece que vai vir, mas acaba não vindo. E você passa o seu tempo arrependido, ou com alguma vaga esperança que algo bom virá algum dia. Algo que te faça sentir conectado, te faça sentir parte de um todo, te faça sentir amado. E a verdade é que estou tão puto e a verdade é que estou tão triste, e a verdade é que eu me sinto tão magoado por tanto tempo e até agora eu apenas estive fingindo estar tudo bem, só para seguir em frente, só para eu não sei por que, talvez porque ninguém queira ouvir sobre  o meu sofrimento, porque todos já tem o seu e o seu próprio é muito grande para permitir-lhes ouvir ou se importar com o meu. Bom, foda-se todos. Amém.”

Talvez se os padres ou pastores largassem o discurso pronto, as palavras “reconfortantes” ou os ensinamentos bíblicos, eles dissessem algo assim, genuíno, sincero até o osso. Não existe felicidade nessa vida, a não ser que você invente uma, acreditando no deus que lhe convém, em alguma espécie de futuro prometido – um paraíso onde o caos, o sofrimento e o desespero não tenham lugar. Caso contrário, você está preso nesse mundo, em uma contagem regressiva para algo que você não faz idéia do que possa ser, e que talvez não exista. Mas esse cronômetro é curto demais perto dos bilhões de anos de idade desse universo, ainda incompreendido e desconhecido. Talvez por isso seja importante fugir desse abismo que é a nossa mera existência, afinal, quando olhamos o abismo, este olha novamente para você, como diria o saudoso e odiado Nietzsche.

Quando paramos para lamentar das decisões que tomamos, numa tentativa frustrada de descobrir a origem do erro, fazemos com que sejamos apenas expectadores das nossas próprias vidas ou ainda simples atores dirigidos mecanicamente: os anos se passam e mal conseguimos seguir a passagem do tempo, não porque aproveitamos tanto que mal percebemos, mas porque estivemos boa parte desse tempo presos ao passado e a uma idéia utópica de felicidade, seja com um antigo amor, em alguma atividade que fizemos lá atrás, ou naquela casa que moramos e que hoje não existe mais.

Talvez seja a hora do homem admitir essa incapacidade de lidar com a própria finitude e que faz com que o mesmo invente meios de diminuir o sofrimento, numa tentativa de transformar a realidade e todas as suas implicações em algo tolerável, com sentido e até belo.

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10 comentários sobre “Sinédoque, Nova Iorque – Um Filme Sobre Tudo

  1. Parecia que eu sempre soube tudo isso que o padre disse e, na verdade, nunca consegui verbalizar, ou até mesmo racionalizar. Mas, de alguma forma, sabia, pois esse tipo de verdade é a que vem junto com o coração, as outras são ilusões que armazenamos depois. Que a vida eterna seja eterna, pelo menos até minha morte.

  2. E falando em metáforas e simbolismos (rs), percebi agora que os micro-quadros que sua ex-mulher pinta e que precisam de lentes especiais para serem vistos, podem ter uma relação com aquele “um décimo da verdade” no sermão do padre, enquanto o mega teatro construído para habitar a peça de Caden, poderia tb representar seus imensos problemas, além que grandes questões existenciais. Mas o que se sabe (e realmente se entende) é apenas um décimo disso tudo.

  3. O filme não é tão difícil assim de entender quando se presta atenção nos detalhes subliminares. Caden Cotard entra em estado de coma e a partir de um certo momento tudo o que ocorre é o “sonho” que ele “vive” nesse estado. O filme é complicado porque muita coisa não é explícita/explicada. Quando ele ainda não entrou em estado de coma, algumas partes são surreais porque o roteirista/diretor não separa a realidade do sonho. Daí por que em alguns momentos certas cenas parecem sem sentido (o sonho que ele tem com a terapeuta de casais, a casa de Hazel em chamas, etc), justamente por não vermos o personagem indo dormir, por exemplo. Ele entra em estado de coma quando tem um AVC e liga pra emergência. O “sonho” do coma começa no momento em que ele folheia a revista com a esposa na capa na sala de espera do hospital. A personagem de Dianne Wiest deixa isso bem claro na parte final do filme, quando assume o papel de diretora da “peça”. Um dos filmes mais emocionantes já feitos!

    1. Interessante essa interpretação sua. Já vi esse filme umas 5 vezes e agora tenho mais um motivo pra revê-lo. Isso me lembrou aquele outro filme chamado “O Embriagado no Amor”, com o Adam Sandler. Depois que li uma interpretação em que o personagem havia morrido, logo no ínicio do filme, assisti de novo e me surpreendi com a quantidade de simbolismos que o diretor usou e que serviram de material para essa outra interpretação, perfeitamente possível.

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