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Alegria, Alegria!

Foto: Gugagumma

Aquele era um domingo atípico, daqueles que você resolve largar a comodidade de um sofá quente e amaciado para se locomover a um teatro. A razão para isso acontecer, você pensa, está naquele ingresso que seu amigo já havia comprado pra você, com dias de antecedência. O show é de um músico relativamente pouco conhecido em terras tupiniquins, ou ainda menos, em uma cidade fria como Curitiba. O pouco movimento na frente do teatro, minutos antes, comprova essa teoria. Mas naquele dia o clima estava surpreendentemente agradável e você e seus dois amigos bebem suas cervejas, sem pressa e sem a preocupação de perder a oportunidade de pegar um bom lugar para curtir aquele show (ou filme-show, como explicarei depois).

Seu amigo comenta algo sobre nunca ter conhecido uma garota que conhecesse André Abujamra e o estranho é que minutos depois, vocês estão em uma pseudo-fila próximo a entrada do teatro, e na frente de vocês está justamente uma garota, sozinha. Talvez esse seja o momento de dizer que todos estavam ali para ver o espetáculo do próprio André Abujamra. Após uma breve divagação sobre a real existência ou não daquela fila; e a comprovação da garota, agora já com um nome – Sarah, que dizia que após o aparecimento de vocês a fila passou a existir, visto que naquele momento já se viam dezenas de pessoas toda a vez que vocês olhavam pra trás.

Finalmente as portas do teatro se abrem, e ali vão os três, que nesse instante já eram quatro, rumo a seus confortáveis lugares, logo ao centro, há umas quatro fileiras do palco. Detalhes curiosos desse palco: três telões gigantes, uma tela vertical menor num primeiro plano, três caixas de papelão no lado esquerdo, aparentemente vazias e com dizeres em alguma língua desconhecida, atrás delas instrumentos de sopro, esses sim, conhecidos.

Minutos depois e logo após alguma criança chamar um tal “tio-bomba” exatamente naqueles segundos silenciosos que costumam anteceder qualquer espetáculo, o mesmo se inicia. Nos telões, frases, idéias e imagens introduzem o filme-show que todos logo testemunhariam. Em seguida o baterista – esse no palco, dá as primeiras batidas, devidamente sincronizadas com a música vinda dos telões (ou das caixas de som invisíveis). Em segundos, os demais músicos o acompanham. A música é uma espécie de afro beat com pitadas de funk e outros temperos exóticos, no bom sentido. Nos telões, eles declaram que para a execução do projeto, a Petrobrás ou a Ancine não deram um centavo sequer. Palmas da platéia, afinal, ser independente no Brasil não é pra qualquer um.

E eis que surge o homem, em trajes de alguma tribo africana em estado de semi-extinção, solando em sua guitarra, essa sim, já conhecida do velho público. Ele canta, e sua versão agigantada e virtual, canta também, em um dos três telões que nesse momento já se fundiram com o restante do palco, numa espécie de orgia dos sentidos (para usar os temos de Tom Zé, uma mistura entre o cognitivo e o contemplativo). Como se não bastasse, vez ou outra ainda aparecia alguma figura conhecida, um Zeca Baleiro ou um Théo Werneck, logo ao lado do músico, naquele telão vertical menor que mencionei no começo. A projeção nesse caso vinha de trás do palco, o que dava um efeito curioso, quase holográfico, permitindo duetos virtuais pouco prováveis em uma produção modesta, mas ainda sim, extremamente bem feita.

Mas o show não pára por aí, além da originalidade musical, da mistura de ritmos e influências inusitadas, havia ainda espaço para as letras, verdadeiras poesias que versavam sobre um tema fora de moda nos tempos atuais – a alegria. Isso mesmo, a alegria ou na língua e no título do show, apenas Mafaro. Falo isso justamente pelo próprio Abujamra ter sacado que é muito mais fácil ser triste do que alegre, na genial “Lexotan”, parceria com o amigo Baleiro.

Outra sacada muito boa é quando ele canta “O mundo de dentro da gente é maior do que o mundo de fora da gente” em “Imaginação”. Afinal, por maior que o mundo ou esse planeta possa parecer ser, ele sempre será infinitamente menor do que aquele presente na nossa cabeça – onde tudo é possível desde que se tenha um pouco de… Imaginação.

No fim, a platéia aplaude de pé e logo percebe que na verdade, há banda não existe mais, tampouco o próprio Abujamra, já que o show havia chegado ao fim, e na frente só havia os mesmos três telões, onde um senhor previamente gravado dialogava com o público, sedento por um bis que o próprio senhor já havia dito que não iria rolar.

Não sei quando esses três rapazes, ou a garota que eles conheceram, poderão ver novamente um show como esse – definitivamente alguns anos luz dos demais que aparecem por aí. Vou torcer para que seja logo e enquanto isso, resta exercitar a imaginação, já que com ela, podemos reviver esse espetáculo na hora que quisermos. A alegria, a gente inventa também.

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2 comentários sobre “Alegria, Alegria!

  1. Eu vi o show desse cara aqui em Salvador uma vez. Foi muito bom, até porque nao conhecia muito o cara e uns amigos meus falavam muito bem dele. Caro blogueiro, você pensou em ser jornalista? Seu estilo parece evoluir cada vez mais, ainda que sem tocar nivéis estratosféricos tal como ocorre curiosamete em relaçao à burrice nos seres humanos.

  2. Faço questão de prestigiar esse artista, fui nesse show e realmente foi uma grande experiência para os sentidos. Saí de lá me sentindo um tipo de amiga dele, coisa muito engraçada, pra mim foi uma sensação inédita num fim de show – e olha que já frequentei o Teatro Paiol, onde se sente até o hálito da pessoa e pode até arriscar o menu do almoço, conforme a performance dela. André Abujamra sabe como se aproximar do público…

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