contos

Papéis, Casais e… Jazz!

Era quinta-feira e naquela noite especial ele iria sair. Hoje é dia de festejar sozinho, pensa ele. Os dias chuvosos haviam ficado pra trás, assim como seus problemas no escritório. Amanhã eles retornam, pensa ele. Mas até lá é hora de alimentar a alma ao som de um bom e velho jazz. Seu corpo também pede arrego – nada que poucos litros de cerveja gelada não possam resolver. E assim Antônio parte solitário rumo ao bar que te faria um pouco mais feliz e menos medíocre – não que essa palavra pudesse ser freqüentemente agregada a sua pessoa, mas digamos que nesse últimos dias, era assim que ele havia se sentindo. Pobre Antônio, pensava sua secretária. A pilha de papéis encima da mesa sugeriam uma possível raiz do problema, não que sentimentos ruins estejam necessariamente relacionados ao trabalho. Mas era noite, na rua os mendigos insistiam em beber em serviço, reduzindo a credibilidade dos clientes que ali passavam, e se tinha uma coisa que Antônio faria questão de esquecer nessas horas, eram seus malditos papéis. Os casais apaixonados nas mesas dos bares eram como flashes, rápidos instantes que o faziam lembrar da sua condição. Algo que seu corpo já havia se acostumado, mas sua mente insistia em lembrá-lo numa simples caminhada pelas ruas da cidade. Mas seu objetivo na noite (se é que ele realmente tivesse algum) de nada tinha que ver com sua solidão ou qualquer forma de falsa redenção que pudesse vir acompanhada de beijos escandalosamente molhados, dados gratuitamente por qualquer mulher da noite.

E assim, Antônio entrou no bar. A luz baixa favorecia o clima intimista que por sua vez, era extremamente favorável a timidez do rapaz. Ainda era cedo, e as poucas mesas na frente do palco improvisado estavam repletas de placas com nomes desconhecidos, as mesmas pessoas prevenidas que preferem garantir bons lugares em quaisquer eventos sociais que pretendam participar. Havia uma mesa, porém, onde dois homens de chapéu bebiam seus conhaques com elegância. Antônio, que também usava um chapéu, presente de seu falecido avô, pensou em se juntar a dupla ou ao pequeno clube que ao invés de carteirinhas, utilizavam chapéus como meio de se identificar. Mas não, preferiu permanecer em pé, em um segundo plano, mais escuro e desconfortável que o primeiro. As sombras sempre foram seu forte.

Ao ouvir as primeiras notas sacadas de um saxofone opaco, quase enferrujado, Antônio se sentiu melhor, mais relaxado, como se ele tivesse se encontrado naquele instante e nada a partir dali, iria importar mais, somente as melodias e a série de sentimentos e sensações que seriam despertadas ao ouvir aquelas canções.  Era tudo sobre o poder do jazz e todos seus desdobramentos, pensava ele. Era como se em seu interior tudo que ele queria era ser entorpecido por aqueles músicos, alterando sua consciência para algo puro e genuíno, distante dos papéis da sua mesa ou dois casais supostamente apaixonados que cruzavam seu caminho. Talvez aquele fosse seu objetivo.

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