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O Dylan Que Não Estava Lá

Biografias de artistas são tão difíceis de transpor para o cinema quanto grandes obras literárias. Adaptar em todos os sentidos da palavra é algo que poucos sabem fazer, seja na arte ou na própria vida (a arte imita a vida, aquela velha história).

I´m Not There ou “Eu Não Estou Lá” (uma das raras traduções cinematográficas corretas na história do Brasil), de Todd Haynes, consegue se distanciar tremendamente desses maus exemplos (Ray, Johnny & June, Cazuza – O Tempo Não Pára, só pra citar alguns). Já nos créditos iniciais, percebe-se a intenção do autor, quando este nos diz que seu filme é ”inspirado nas canções e nas várias vidas de Bob Dylan”.

Espere aí, um filme inspirado em “canções”? Nas “várias vidas” de um artista? Quanta pretensão hein? E aquela historinha com começo, meio e fim que estamos acostumados a ver? Quero ver o artista sofrer com a pobreza na infância, batalhar até o sucesso, se perder no “mundo das drogas”, perder um amigo ou familiar e depois ressurgir das cinzas, em um final triunfal.

Ah, é verdade, essa história já vimos centenas de vezes e talvez seja por isso que Todd Haynes tenha preferido fugir disso tudo, embarcando em uma viagem solitária e esquizofrênica rumo ao desconhecido, rumo ao imenso mundo interno e emotivo desse obscuro homem: “a voz de uma geração”, um “verdadeiro gênio”, ou apenas um “cantor folk” – todas as definições execradas pelo próprio artista, que prefere se definir como um “trapezista”.

E sim, o filme é sobre as tais “várias vidas” de Bob Dylan: é sobre o impostor, uma espécie de Dylan ainda criança, inspirado por Woody Guthrie e suas canções de protesto; é sobre o poeta, nos tempos em que Dylan se alimentava ferozmente da poesia e vida de Arthur Rimbaud; é sobre o profeta, um Dylan concentrado numa busca interior e que culminaria na figura de um pastor evangelista; é sobre o fora-da-lei, um Dylan em completo isolamento, combatendo os problemas da sua pequena aldeia; é sobre a “estrela da eletricidade”, um Dylan tão romântico e apolitizado quanto os atores dos filmes; e é sobre o próprio Dylan em sua fase elétrica, afundado em drogas e desentendimentos,  uma espécie de Judas do movimento folk. Sim, Dylan possui todos esses lados, e tantos outros, assim como todos nós – desde que esqueçamos a superficialidade de fatos históricos e notícias inventadas, e olhemos para o nosso interior.

Somos um caleidoscópio de emoções misturadas numa busca constante e obsessiva por algum sentido.  E Bob Dylan não é diferente. Como artista, o que ele fez (e ainda faz) é apenas externar todos esses sentimentos, materializando o imaterializável e expressando o inexprimível. E é justamente nesse ponto que reside seu maior talento. Atráves de suas músicas, conseguimos encontrar alguma estranha forma de identificação, mesmo que a relação entre autor e obra (ou a própria intenção do autor) seja perdida no meio do caminho. Os Panteras Negras que o digam.

As canções estão aí (afinal, “uma canção é alguma coisa que anda sozinha”, como diria Dylan já no início da película) e o que Todd Haynes fez foi encontrar alguma lógica nelas, algo que pudesse traduzir cada fase do artista, de uma forma simbólica e extremamente original, assim como o próprio Dylan cansou de fazer.  Se Dylan inventou todas essas personas, cuidando para enterra-las logo em seguida (assim que cada uma delas ia sendo reconhecida), porque o próprio Todd Haynes não poderia fazer o mesmo?

É aí que todo o conceito do filme faz algum sentido – se Dylan nunca admitiu ser apenas um cantor folk e sempre se interessou por uma vida inventada (no melhor sentido possível), Haynes faz um filme tão inventado quanto a(s) própria(s) vida(s) de Dylan. E o mais interessante é que com isso, ele consegue chegar a uma honestidade profunda, uma verdade emocional que todos esses outros filmes sobre grandes artistas estão longe de alcançar.

E como se não bastasse, o filme ainda propõe uma série de reflexões e questionamentos – todos baseados em citações ou nas próprias canções de Dylan. Questionamentos sobre até que ponto somos realmente livres: “As pessoas sempre estão falando sobre liberdade, sobre viverem de um determinado jeito, onde não sejam incomodadas. Claro, quanto mais você viver de um determinado jeito menos você vai se sentir livre.” Poderia emendar com outra clássica citação deste mesmo homem “Talvez ninguém seja livre, até os pássaros são presos ao céu” .

Há também as reflexões sobre identidade: “Eu posso mudar durante um dia. Eu acordo e sou uma pessoa e quando vou dormir eu tenho certeza que sou outra. Eu não sei quem eu sou na maior parte do tempo.” Sim Dylan, nós sabemos que você não é um cantor folk. E continue sendo esse ser misterioso de sempre, afinal uma das maiores graças dessa vida são justamente os mistérios, mistérios com “contradições, caos, melancias, relógios” e tudo que você possa imaginar.

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9 comentários sobre “O Dylan Que Não Estava Lá

  1. Algumas consideraçoes sobre esse texto cada vez mais cheio de neologismos:
    1 – Acho que o querido blogueiro subestima o tour-de-force em “Ray” e “Walk the Line” por ser uma fa incondicional de Bob Dylan. O fato de alguém começar pobre e vencer na vida com muita dureza nao deve ser interpretado meramente como um exemplo de fibra moral, mas tao apenas o quanto o homem é demasiadamente humano para nao perceber uma cabeçada na vida nunca basta pelo jeito – e isso vale tanto para os diretores e roteiristas, menos preocupados com tais questoes, penso eu, quanto (e sobretudo) para os telespectadores. Previsível? Talvez. Mentiroso? Talvez, afinal o cinema sempre será uma ficçao bem feita a partir da realidade.
    2 – Acho que mesmo para quem tem algum conhecimento sobre Bob Dylan, o filme pode parecer confuso com frequência por conta de suas referências.
    3 – Fiquei curioso para saber o que você quis dizer com “superficialidade dos fatos históricos”. Em que contexto isso se aplica?
    4 – Penso que talvez todos nós gostaríamos de ter nossa vida propositalmente ficcionada. Que cômodo seria se pudéssemos fazer isso, hein?
    5 – Para mim, voar é um dos atos que exprime melhor a sensaçao de liberdade. Ou mesmo nadar. Estar condenado ao céu no fundo nao seria tao ruim se pudéssemos fugir de merdas como as guerras ou discussoes frivolas.
    É isso aí.

  2. Ok Josh, vamos lá…
    Primeiro minha crítica a filmes como Ray ou Walk the Line (que inclusive cheguei a recomenda-lo para os não-iniciados em Cash) é apenas em relação a forma (pouco original) que as histórias são contadas, muito semelhantes as mini-séries globais tecnicamente sempre impecáveis (JK, Maysa e tantas outras), mas que ao ficcionarem demais as vidas retratadas, acabam escondendo algumas verdades e apenas mitificando ainda mais essas celebridades.
    De fato, I´m Not There não é um filme fácil, mas não deixa de ser menos interessante mesmo para aqueles que não conheçam profundamente a obra ou vida do artista. E sim, concordo que muitos prefiram ter a “vida propositalmente ficcionada”, virando apenas ícones de alguma geração perdida ou mitos sem problemas internos, afinal, poucos gostariam de expor e compartilhar seus medos e defeitos mais sérios.
    Por fim, quando pensamos no ato de voar estamos buscando algo distante da nossa realidade. E por sua vez talvez para um pássaro, voar seja apenas algo natural e banal, ou seja, para ele, voar continua sendo uma espécie de prisão, assim como andar ou discutir sobre posts, tb possa ser para nós.

    1. Você se sempre prisioneiro do andar? Pois saiba que os pássaros devem estar melhor que nós bípedes pretensiosos. Ainda assim, eu preferiria voar que andar… Engraçado que mesmo em opinioes um tanto absurdas, você parece corroborar com Dylan, o que nao tem nenhuma imparcialidade discursiva…

  3. “E aquela historinha com começo, meio e fim que estamos acostumados a ver? Quero ver o artista sofrer com a pobreza na infância, batalhar até o sucesso, se perder no “mundo das drogas”, perder um amigo ou familiar e depois ressurgir das cinzas, em um final triunfal.”

    Este é o roteiro clichê de qualquer filme biográfico de artistas. Gostei dessa frase

  4. Posso dizer que esta biografia, principalmente em sua forma narrativa, me fez apreciar mais a obra deste artista. Precisamos de mais biografias cinematográficas assim. Agradeço ao blogueiro que a dois anos atrás me colocou na frente da tv para ver esta obra, dissecando cada passagem do cantor e parabenizo-o pelo lindo texto.

  5. Um filme lindo!
    Mas não pode-se dizer que é uma biografia…
    Parabens para cate blanchett que pra mim foi a melhor atuação hollywoodiana da historia do cinema norte americano!

  6. I´m Not There ou “Eu Não Estou Lá” (uma das raras traduções cinematográficas corretas na história do Brasil)

    Essa parte já valeu a postagem hehe

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