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Flores, Chuva, e Música Por Todos os Lados

Foto: Walkir Fernandes

Alguém me explique que som é esse que toma conta desse cartão postal vivo de Curitiba? Já não bastavam as milhares de flores coloridas contrastando com aquele típico céu cinza em pleno início de primavera? Que palco é aquele em pleno jardim botânico, ao lado de cartazes sobre o meio ambiente de uma tal bienal de design?

Vejo pessoas se aglomerando aos poucos – neo-hippies, famílias inteiras, velhos, meninas exoticamente atraentes, cabos eleitorais e toda sorte de curiosos. No palco, uma verdadeira big band toca Ray Charles, Joe Cocker, James Brown e uma série de outras preciosidades do cancioneiro norte-americano, todas executadas com naturalidade e energia contagiante.

E como se não bastasse o vocal rasgado e visceral daquele moço de costeletas avantajadas e gravata, quem é aquela mulher materializando uma espécie de segundo espírito da rainha Aretha Franklin? Que presença, que voz, que menina mais abusada hein?  Precisava cantar tanto assim, logo num show gratuito aparentemente tão despretensioso? Tenho certeza que aquelas flores todas não reclamaram.

Enquanto pais descolados brincavam com seus filhos ao som dos Commitments, meninas bebiam vinho, comendo queijo minas sentadas na grama. Aos poucos, pessoas traziam seus copos cheios de cerveja e que compravam de um velhinho gente fina, mas despreparado para tamanha demanda.

Aos poucos a noite caía e junto com ela, pingos de uma garoa previsível e que seria justificamente ignorada por todos com o mínimo de bom senso, ou apenas bom gosto musical.

E quando muitos achavam que seria difícil aquele show ficar ainda melhor, sobe ao palco uma nova dúzia de músicos, capitaneadas por J. J. Jackson, um norte-americano com pés e joelhos no Brasil. Naquele momento era difícil acreditar que tudo acontecia em um típico domingo chuvoso.

O brilho charmoso da garoa fina refletida em holofotes amarelos parecia querer congelar aquele momento. A trilha sonora produzida em tempo real por aqueles grandes músicos arrancava sorrisos de uma platéia comprimida em guarda-chuvas e atenta a cada melodia apresentada.

Durante um extenso medley de variados hits comandados desta vez, por um guitarrista muito mau criado, cheguei a comentar com um amigo que aquele seria o repertório e a banda perfeita, caso essas empresas que organizam formaturas e casamentos estivessem realmente interessadas em contratar alguém com talento e criatividade.

No bis, aqueles mesmos músicos excepcionais e engraçadões decidem transitar pela multidão tocando seus metais numa espécie de parada improvisada só-pra-malucos. Logo a velha melodia de “When The Saints Go Marching In” vira a base para uma canção sobre alguém ter supostamente tomado o martini de alguém. De volta ao palco, os músicos sugerem que tenha sido o Derico (sim! Aquele mesmo do sexteto do Jô e que de quebra ainda deu suas canjas, além de apresentar as bandas).

E assim, depois desse acalorado bis, Derico se despede balbuciando algo a respeito de uma possível segunda edição do evento no ano que vem, um dos músicos explica que infelizmente o parque precisa ser fechado e minutos depois, todas as luzes são apagadas e é hora de todos retornarem a realidade. As flores precisam dormir.

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5 comentários sobre “Flores, Chuva, e Música Por Todos os Lados

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