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Meu Vizinho Maluco

Lembro muito bem daquela noite especial. Era feriado de carnaval e 90% da população do centro de Curitiba se encontrava em lugares relativamente distantes: praias catarinenses e  paranaenses, sítios de família ou fazendas no interior. Eu e alguns poucos amigos decidimos ficar na cidade e por conseqüência festejar essa espécie de melancolia carnavalesca, algo que apenas aqueles distantes dos sambódromos e dos carros tunados ao som de “funks” proibidões podem entender.

Na festa, vieram aproximadamente dez pessoas, incluindo duas alemãs de passagem pela cidade e em busca de qualquer tipo de divertimento. Para minha surpresa, já que até então outras festas já haviam acontecido nesse mesmo local e por isso quero dizer a minha casa, ou pior, apartamento de um quarto. Para minha surpresa, lá pelas três da madruga eis que o interfone toca. “Silêncio pessoal, deixem eu ver o que é isso”, provavelmente foi o que eu disse. E assim, a primeira reclamação oriunda do apartamento de cima foi feita.

Para meu azar, aparentemente os vizinhos de cima também resolveram ficar na cidade, em pleno feriado de carnaval. No momento compreendi tal incomodo, já que minutos antes as alemãs estavam nos mostrando alguns clipes semelhantes aos proibidões que temos por aqui, mas cantados em alemão, obviamente.  Tudo isso com muito volume e pouco bom senso. Tudo bem vizinho, nesse dia você tinha razão. Tanto tinha que semanas depois tive que pagar uma multa de R$300.

Agora sinceramente, isso não justifica essa mania de perseguição desde então (ok, mania é algo doentio e sendo assim, poderia ser justificado assim mesmo). Já recebi interfonemas mudos e batidas educadas no teto por muito, muito menos.  E isso inclui ouvir música alta antes das dez da noite e da tal lei do silêncio (que se fosse realmente cumprida deveria proibir a barulhenta abertura dos portões para os carros que “insistem” em entrar no prédio em plena madrugada), conversas de áudio pela internet (sim, nesse dia eu estava sozinho) ou apenas reuniões entre amigos (três no máximo).

O pior de tudo foi ter um prato quebrado na pia da cozinha por conta das mesmas batidas educadas que esse mesmo vizinho maluco resolveu dar, somente porque naquele momento, precisamente às 20 horas e 10 minutos, eu estava ouvindo um disco em um volume abaixo do que eu realmente gostaria.

Não sei por que, mas tenho esperança que um dia isso será resolvido, até porque não pude deixar de reparar uma placa de “vende-se” na janela do apartamento de cima. Deus existe e parece gostar de música alta antes das 10 da noite.

Update 1: (Ante)ontem a síndica me deu a boa notícia – o apartamento continua a venda, mas não há mais ninguém morando nele =)

Update 2: A síndica estava errada, ontem às 23h o maluco ameaçou chamar a polícia por conta de uma reunião entre 4 amigos!

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8 comentários sobre “Meu Vizinho Maluco

  1. Bom, não existe a tal “Lei do Silêncio”. Na verdade, o excesso de ruído que causa dano a outrem, a qualquer hora do dia, especialmente em zona residencial, constitui abuso do direito e, portanto, ato ilícito.
    O Código Civil tem uma seção chamada “direito de Vizinhança” que limita as prerrogativas individuais ao mesmo tempo em que regulam a convivência, onde podemos até analisar a maneira sujestiva como são denominados os vizinhos: confinantes.
    Gosto de ouvir música, e em minha casa temos dois guitarristas, um bateirista, uma adolescente com suas paixões musicais flutuando cada semestre em torno de uma banda – o tempo que demora para enlouquecer, ter uma overdose musical e saturar – e um bebê. No prédio anterior, nós convidávamos os vizinhos pra festa…Não temos apenas sorte com vizinhos tolerantes, temos também bom senso. Não quero impôr a ninguém que viva minha vida, participando através da parede, do que eu estou escolhendo pra mim, acho muito invasor e injusto. Não posso confinar o outro usando minha liberdade como justificativa.
    Essa questão é um ônus da vida moderna, onde vamos perdendo espaço e nos espremendo, e daí é inevitável ter que arcar com perdas significativas dos nossos prazeres individuais e nos debatermos nas diferenças. Melhor usar a regra da boa educação e respeito. Afinal, pace is the essence, certo?
    Quanto a mim, agradeço a Deus não ter vizinhos que são funkeiros, pagodeiros ou sertanejos, isso poderia mandar por água abaixo toda minha boa vontade.

    1. Realmente Carmen, tudo é questão de bom senso (coisa que não tive na festa de carnaval e que desde então vem faltando pro meu vizinho). Digo isso pq felizmente ele não tem um vizinho funkeiro, pagodeiro ou sertanejo (quem sabe ele seja um?), e não faço mais festas – apenas reuniões entre amigos (e que terminam relativamente cedo).

      O curioso é que esse vizinho seja o único que parece se incomodar com essa minha liberdade toda. Outro detalhe foi descobrir depois que eles são um casal novo (na faixa dos 30), sem bebês. O boato que corre é que eles são chatos mesmo. Eu é que não vou convida-los pra alguma festa lá em casa, rs.

  2. Não somos chatos.

    E não tenho culpa se minha esposa é desastrada e eu tenho que usar perna-de-pau.

    Mas se isso é motivo pra você não nos convidar pras suas festas de arromba, eu entendo.

    Respeitosamente,

    Valter

  3. Eu acho que vale a pena ser flexível nas relações com os vizinhos, e ter tolerância quando nosso vizinho perde o bom senso uma vez. Sua festa de carnaval não precisava condená-lo à danação eterna, rs.
    Sabemos que muitas pessoas projetam nos vizinhos suas frustrações e incomodam mesmo, e que muitos outros simplesmente não se importam com minguém e não tem senso.
    Tive uma vizinha que ficava histérica quando meus amigos riam alto. Aquilo pra mim era absurdo, adoro gente sendo feliz na minha casa. Mas ela não fazia sexo e não tinha amigos, vivia sem dinheiro…estava de mal com a vida.
    Recentemente recebemos uns amigos em casa, tiramos os móveis da cozinha, montamos a banda e eles tocaram até 6h da manhã. Mas aí já era em outro prédio, aquele em que eu convidava os vizinhos. Se você fosse meu vizinho alí, poderia curtir lá junto ou pedir nossa expulsão do prédio, rs.

    1. Esse lance de inveja alheia é muito comum em vizinhos mesmo, outro dia vi o Ed Motta falando exatamente sobre isso. Dizia que seus vizinhos invejavam seu som “aiwa” embutido na parede e toda sua genialidade, rs. Tb senti um pouco disso lá em casa, parece que a vida sexual deles não anda muito bem tb.
      Se eu fosse seu vizinho tb te convidaria pras minhas festas e poderiamos brigar juntos pelos nossos direitos!

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