Dicas Musicais, filmes

Os Demônios de Daniel Johnston

Para os brasileiros que não o conhecem, Daniel Johnston foi (e ainda é) um cara obcecado pela fama, capaz de gravar momentos constrangedores sobre sua vida pessoal para depois exibi-los em um documentário sobre essa mesma vida supostamente legendária. Falando assim, ele poderia ser facilmente enquadrado no hall das pseudo-celebridades instantâneas, extraídas de programas estéreis como big brothers e afins.

Mas espere, Daniel Johnston não é esse cara. Sim, ele realmente documentou sua vida inteira através de filmes super-8 e centenas de fitas cassetes. Talvez ele possuísse uma estranha obsessão pela fama, algo perseguido por muitos artistas, porém a forma que ele optou para alcançar esse tão sonhado estrelado é certamente original e sincera até o osso. Explico. Daniel Johnston foi criado em uma cidade interiorana americana, por uma família cristã fundamentalista. Durante a infância e parte de sua adolescência, Daniel gostava de desenhar compulsivamente globos oculares, além de Capitães Américas, Gasparzinhos, patos e sapos.

Além dos desenhos, Daniel gostava de fazer filmes em super-8 contando histórias da sua própria vida, mostrando suas discussões com sua mãe (interpretada por ele mesmo), além de sair com a câmera pela escola e posteriormente pela faculdade de arte, onde encontraria o amor da sua vida, uma garota visualmente encantadora chamada Laurie. Laurie seria a inspiração para 1000 canções, segundo o próprio artista.

Rapidamente, Daniel transforma o porão da casa de seus pais em um estúdio de gravação improvisado. Lá ele gravaria seus primeiros discos (na realidade fitas), em um piano desafinado de forma completamente despretensiosa, mas não menos sincera. “Songs of Pain” é um dos seus primeiros trabalhos.

Até aí nada de mais, apenas a história de mais um compositor recluso com algumas manias estranhas. Agüente que eu chego lá.

Após alguns anos e algumas fitas distribuídas para amigos e críticos musicais, Daniel Johnston passa a virar uma espécie de lenda local, um pequeno gênio incompreendido. Um tempo depois ele compra uma mobilete e foge da casa da irmã (nessa altura, seus pais já não conseguiam mais lidar com seus problemas ou sua falta de comprometimento com o trabalho do Senhor).

A partir desse momento, sua vida parece tomar rumos previsíveis apenas em pessoas maníaco-depressivas – algo descrito pelo próprio artista em uma das suas fitas cassete. Para os médicos, seus pensamentos não passavam de ilusões fantasiosas maléficas. Para Daniel, eram apenas visões, mensagens de Deus ou qualquer coisa assim.

E assim, Daniel passa a consumir L.S.D. em doses perigosas e logo passa a ter alucinações e achar que está sendo perseguido pelo demônio. Algum resquício de sua criação religiosa? Talvez. O fato é que a partir dali, Daniel Johnston nunca mais seria o mesmo, chegando ao ponto de sua família não reconhecê-lo e ter que chamar a polícia em plena noite de natal. Na ocasião, Daniel insistia em colocar discos dos Beatles (sua outra grande obsessão) na árvore de natal, entre outras maluquices.

Uma série de acontecimentos bizarros e inexplicáveis (ou talvez explicáveis, considerando sua grave doença) passaram a fazer parte da vida desse homem desde então, culminando com a demissão de seu empresário e a recusa de um contrato de 100 mil dólares com uma gravadora, apenas por Daniel achar que a gravadora, assim como seu empresário, estavam possuídos pelo demônio e que a banda Metallica (também contratada pela gravadora) iria assassiná-lo, caso ele assina-se o tal contrato.

“The Devil and Daniel Johnston” conta tudo isso com detalhes, além de usar e abusar do material fornecido pelo próprio artista. Mais do que um filme sobre um artista genial, é a história sobre seus pais, batalhando para compreender um filho com sérias dificuldades em distinguir a realidade de seu mundo particular, cercado de globos oculares, Capitães América, Gasparzinhos, patos, sapos e demônios.

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6 comentários sobre “Os Demônios de Daniel Johnston

    1. vale a pena!!

      o filme é meio difícil de encontrar com legenda, mas as músicas tão espalhadas por aí =)
      recomendo seus primeiros discos “songs of pain” ou “more songs of pain”, e um mais recente, chamado “why me?” ao vivo.

      Caso queira algo com mais produção (mas com canções tb muito boas), recomendo o “Is and Always Was”, seu último trabalho.

      abração

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