contos

A Grandeza da Cidade Pode Ser Boa!

Foto: WTAKEUCHI

Na praça pública jovens afortunados e bem afeiçoados bebem suas cervejas importadas e fumam seus cigarros enquanto conversam sobre mulheres desejáveis da balada do dia anterior, mas que naquela ocasião eram mal vistas por suas respectivas namoradas de brinquedo. É dia de sol na capital e shows gratuitos para (quase) todos os gostos são ofertados em diferentes pontos centrais.

A criança está confortavelmente sentada no ombro do pai barbudo e descolado, enquanto segura um balão amarelo com alguma marca insignificante. Ela é a extensão visual de seu pai, ofuscado por uma multidão de banhistas do sol que faz naquele lindo dia, após uma noite chuvosa e com ares catastróficos. No palco, uma orquestra completa era capitaneada por talvez o músico com a maior sede criativa desse imenso país. Sua longa barba branca e sua camisa praiana colorida continuam irreconhecíveis.

E é saudando o sol, a vida e o amor que o velho sábio improvisa um breve discurso cantado. As ondas sonoras não chegam com a força esperada na platéia mais distante, mas há algo na energia daquele senhor que emana pelo ar, atenuando a ansiedade generalizada típica de grandes aglomerações como aquela. O artista verdadeiro tem dessas coisas.

Em outra praça do centro da cidade, grafiteiros dão a sua contribuição para o evento, dando a sua visão de ícones canônicos religiosos e de pessoas anônimas interessantes. Mais a frente, outro grande show acontece e dessa vez é o funk e o soul que prevalecem. A cantora consagrada aproveita a oportunidade para enfatizar a importância social daquilo tudo e dizer para sempre esperarmos um país melhor, independente em quem votamos ou quem esteja no poder. Pessimismo nessas horas, realmente não ajuda.

A noite cai sobre uma mistura de prédios decadentes, fachadas restauradas e novas calçadas. Nas ruínas de pedra, jovens se apertam e se amontoam, numa tentativa de se aproximarem do palco ou conseguirem uma mínima visibilidade de seus supostos ídolos.

No alto de uma casa histórica, um maluco faz uma pequena demonstração de autocontrole, equilíbrio e exibicionismo, desafiando leis básicas de segurança. Tudo pela melhor visibilidade do espetáculo – observado pelas micro-telas dos celulares dos milhares de jovens com pouca ou nenhuma… visibilidade.

E assim a cidade grande e seus políticos almofadinhas mostram que é possível dar algo de positivo para os milhares de cidadãos, em troca de seus votos, impostos e arrecadações costumeiras. Nessa história só há vencedores.


Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s