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A Praia e Seus Mistérios

São poucos quilômetros até o desejado destino e a estrada está vazia e bem iluminada. Um animado grupo de jovens e um achocolatado cachorro escutam uma espécie de indie-axé em um carro popular batido e com nome próprio. Um dos rapazes segura um violão – ambos também possuem um nome próprio. O mar está perto e como diria um tal rei, é tempo de amar.

Aparentemente o amor permanece apenas na banda do rádio e nos corações do grupo – o guarda do posto policial tinha outras intenções. Mas o bom moço motorista risonho prefere não cair no jogo sujo do homem mau e assim o grupo recebe uma pomposa multa por conta de cintos de segurança traseiros propositalmente esquecidos. Como diria o poeta Solda, a vida é bela, só não vale chute na canela, pensa um deles.

Minutos depois, lá estão eles esvaziando o carro cheio de tranqueiras úteis posteriormente responsáveis por momentos culinários inesquecíveis. Tudo isso sem adição de carne ou exploração animal, como diria uma das garotas.

Passado aquele típico momento de reconhecimento de território e de rearranjamento objectual da casa, é hora do lanche, das piadas e do papo furado. A praia, as pedras e o sol ficam pro dia seguinte. Mas esperem, antes da contagem de carneiros, alguém ficou de contar separar feijões!

No café, suco de caju, goiabada para sobremesa! de laranja espremido pelas delicadas mãos da estrela do grupo – um jovem artista sugestor de boas viagens e participante assíduo de plenos livres sobre idéias malucas. Para salgar o paladar, um interessante patê caseiro de grão de bico, servido em um pão de milho sempre bem-vindo.  O lado doce da mesa fica por conta de uma rica geléia de uva pouco vista em hotéis amargos por aí.

Na calçada, simbólicas gralhas enfeitam a orla. Na grama, jovens espiritualistas saúdam o sol. Na praia, famílias se acalmam com a brisa e o som terapêutico que vêm lá do mar gigantesco.  Outras fofocam sobre seus parentes e os filhos dos vizinhos, enquanto dois amigos dividem uma refrescante água de coco. Outros dois correm na areia, assim como costumam fazer em um tal parque da cidade grande, enquanto a moça querida decide deixar seu fiel companheiro orelhudo em casa – afinal a placa é explícita: amigos não são permitidos na areia.

E assim o tempo passa na praia, descompassado, fluído, leve e sem pressa pra nada. O grupo de amigos agora descansa na areia, divagando sobre filosofias de vida alternativas e construções sem sentido ao lado de lindos e florestais rochedos.

Após a feijoada (com direito a patofu defumado e tudo) e a prova que é possível se comer pratos típicos (sem que haja mortes no processo), uma inevitável siesta de curtas horas.

À noite, o grupo passeia na maior atração turística da cidade ao alcance de todos: bicicletas coloridas em modelos coletivos com capacidade de até cinco adultos com algum senso de humor. Crianças também são aceitas. Como diria qualquer garoto-propaganda daquele parque temático da TV, é diversão garantida!

Na madrugada, o pocket show lá na casa é cancelado por motivos pessoais: a estrela parece não querer levantar da sua segunda siesta, esta tardia, logo após outra refeição caprichada. As garotas decidem acompanhá-lo, porém, em camas separadas. Em paralelo, os dois velhos amigos caminham rumo a uma estranha luz verde, passando por um curioso solo lunar, cheio de ondas arenosas disformes, crateras, animais pré-históricos e um vento acolhedor.

É, a praia tem desses mistérios.

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6 comentários sobre “A Praia e Seus Mistérios

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