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A Ablação De Victor

Eram pouco mais de três da manhã e Victor ainda se revirava na cama do quarto de hóspedes, gentilmente cedido por seu amigo Pedro para aquele fim de semana pré-operatório. Dali algumas horas, treze mais precisamente, Victor sofreria uma ablação em seu coração, resultado de uma recém descoberta médica sobre um raro tipo de arritmia congênita. Os detalhes técnicos ele evitava comentar, ainda que seu característico nervosismo o dificultasse pensar sobre assuntos corriqueiros.

No cantar dos passarinhos daquela madrugada inquieta, Victor esboça um início de um sono profundo, resultado de um trabalho respiratório intenso aprendido em suas primeiras aulas de Yôga e em sites relacionados ao tema. Nos minutos posteriores, têm sonhos cômicos e banais, fazendo-o acordar com uma leveza e uma confiança necessárias para um procedimento cirúrgico bem sucedido, em sua (sempre estranha) lógica mental.

Já no hospital, ele aguarda com sua amiga Juliana a chegada de seu pai. Evitando crises de ansiedade, Victor prefere aguardar no lado de fora, respirando o ar teoricamente puro que vêm dos corredores de prédios, e conversando com sua amiga sobre coisas que o fizessem sentir mais leve, como seus sonhos cômicos e banais. Por uma falha de comunicação, seu pai chega com um atraso de trinta minutos. Outros trinta minutos e Victor é chamado para seu quarto. Seu coração permanece pulsante e ansioso, porém ainda em um nível aceitável para os padrões de Victor. Juliana o abandona por motivos profissionais, restando a companhia de seu pai, aparentemente interessado nas notícias locais transmitidas pela TV do quarto do hospital. Para evitar o aumento de tensão, Victor puxa conversas aleatórias e assim, mantém o foco longe de seu coração. Sua pressão permanece regular, doze por oito.

Mais alguns minutos e em uma esquisita premeditação dos eventos posteriores, o coração de Victor começa a bater fortemente e a pulsar em um ritmo descompassado. Em segundos, ouve-se a porta do quarto abrir e duas enfermeiras o colocam em uma maca. Profissionais na tentativa de acalmar seus pacientes, elas fazem algumas piadas, porém a cabeça aérea de Victor tem dificuldade em assimilá-las.

Na enfermaria, ele move sua cabeça lateralmente e vê duas senhoras em macas recebendo soros, enquanto escuta uma enfermeira comentar com a outra sobre o atraso dos médicos naquele dia. A solidão daqueles míseros minutos o deixa mais ansioso e o atraso desses médicos, também. Finalmente um jovem assemelhando-se a um médico vem conversar com Victor, explicando o procedimento que será realizado, enquanto assiste os gols de mais um domingo de futebol. Na enfermaria, as TVs também dominam.

Na sala de cirurgia, o clima gélido do ar condicionado é contrastado com o bom senso de humor dos enfermeiros e enfermeiras que ali trabalham. Ao fundo, um rádio toca um rock clássico terapêutico. O jovem Gustavo diz que brigou novamente com sua esposa. Ao sair da sala, Maria explica que essa briga tem haver com a viagem dele para praia, desacompanhado. Victor permanece deitado e recebe uma modesta picada em sua mão esquerda, enquanto Josefina raspa seu peito, introduzindo fios elétricos frankensteineanos. Com uma típica serenidade oriental, a anestesista Misseda adentra a sala cirúrgica, cumprimentando Victor com um suave “boa tarde”. Minutos depois, Victor observa os desenhos nipônicos na toca de Misseda, tecendo um breve elogio sobre aqueles simpáticos bonecos. Naquele momento, o rádio amigo toca os “sultões do balanço” dos Dire Straits, inconscientemente induzindo o relaxamento de Victor.

Algum misterioso tempo depois, Victor acorda com curativos em seu pescoço e em sua virilha direita. A abertura do peito e as dezenas de pontos permanecem no imaginário dos leigos e nos livros de anatomia dos séculos passados. Victor estava curado.

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