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Tudo Pode Dar Certo, ou melhor, “Whatever Works”

Sobre a arte de fazer filmes (precisamente quase um por ano desde 1965), Woody Allen esclarece: “eles me distraem da imprevisibilidade da vida, do inevitável envelhecimento e da inevitável morte, além da morte dos meus entes queridos; genocídios e fome, dos holocaustos – não apenas da carnificina produzida pelos humanos, mas da posição existencial que cada um se encontra.” Fico feliz deles poderem te ajudar Sr. Allen, tenho certeza que eles também me ajudam.

E no ano passado, lá estava ele lançando seu quadragésimo filme intitulado “Whatever Works” (ou na tradução capenga, “Tudo Pode Dar Certo”), novamente com créditos iniciais em fontes brancas serifadas sobre uma tela preta e com algum animado tema de jazz tocando ao fundo. Talvez algum outro cineasta se preocupasse em coroar sua carreira na tentativa (normalmente frustrada) de produzir alguma obra-prima pretensiosa para seu aniversário de 40 títulos em sua filmografia.  Não foi bem o caso do velho Woody, que decidiu resgatar um roteiro dos longínquos anos 70 (em outra entrevista ele já disse “pegar” novas idéias de sua maleta, assim como Tom Zé faz com suas músicas, gravadas em trechos em fitas cassete ao longo da vida).

Depois dessa informação relevantíssima, é curioso notar como boa parte das problemáticas abordadas nessa comédia (homossexualidade, poligamia, falsas moralidades, apego a religiosidade como forma de ocultar condutas duvidosas, entre outras) continuam presentes nessa coisa maluca que acostumamos chamar de sociedade. Não poderia ser diferente, afinal estamos caminhando a passos lentos, rumo a uma extinção da espécie, como o próprio Boris cansa de apontar durante o filme todo – se ele seria o alter ego de Allen, há poucas dúvidas, apesar do próprio cineasta cansar de repetir que seus personagens são meramente ficcionais (hmm, tá bom, me engana que eu gosto).

Porque continuo interessado em saber a história desse tal Woody Boris, afinal eu mal o conheço e ele mesmo diz ser um cara chato. Simpatia nunca foi uma prioridade para ele, não é mesmo? E Boris ainda me diz que esse não será aquele tipo de filme que me fará sentir bem. Caso eu seja um desses “idiotas que precisam se sentir bem”, eu deveria procurar uma massagem para meus pés. Ok Boris, você parece ser mesmo um cara chato, desiludido, intelectualmente favorecido e miserável em sua existência sem sentido. Mas sabe que eu até gosto das suas visões sobre esse mundo cheio de “horror, e corrupção, e ignorância, e pobreza, e genocídio, e AIDS, e aquecimento global, e terrorismo, e valores familiares idiotas, e idiotas armados.”

Sim Boris, eu tenho meus próprios problemas e não posso ficar pensando nisso tudo. Preciso focar em minhas “pequenas esperanças tristes e nos meus sonhos. Minha previsível insatisfatória vida amorosa e minha carreira profissional fracassada.” Afinal, o que funcionar pra mim (Whatever Works), está valendo não é? Desde que eu não machuque ninguém no caminho e muito menos tente vender meu ideal de felicidade para os outros, é claro. (…)

E assim o fim do ano chega novamente, com todas suas celebrações, confraternizações, resoluções  e aqueles presentes todos. E na noite de Reveillon, é como você mesmo diz, “todos estão desesperados para se divertir. Tentando celebrar de alguma forma patética. Celebrar o que? Um passo mais perto da morte?” Pois é, às vezes acho que você é aquilo que alguns chamam de gênio, capaz de enxergar a totalidade dessa tela que outros chamam de vida. Prazer em conhecê-lo Boris, me chamo Pedro.

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