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Natal e Frio No Hemisfério Sul

Na pista de gelo, crianças patinam com seus modernos patins reluzentes alugados. Nas portas automáticas, pessoas com seus volumosos casacos passam. Ao lado, filas nos caixas eletrônicos dos diferentes bancos. Na vitrine da grande loja avermelhada, promoções e sugestões para um verão inexistente e um natal que se aproxima na velocidade das patinadas das crianças mais experientes.

É verão no hemisfério sul, mas o clima e as roupas não condizem com essa realidade. Pelo menos não em uma tal cidade sorriso anunciada em fotogramas descompassados e gastos do longínquo ano de 1949.

Do lado de fora uma insistente garoa cai sobre os ombros desprotegidos que carregam sacolas com presentes supostamente obrigatórios. “Não vai esquecer de dar alguma coisa pra Marieta”, diz uma moça atenta.

Próximo a outra imponente construção amarelada, um intrigante e excessivo odor de pão adocicado é sentido. Na calçada, uma humilde família de passarinhos divide uma migalha do pão que ficou do lado de fora. Os filhotes parecem ser os primeiros da fila. Na muretinha do lado, um cidadão da rua dorme tranqüilo por entre cobertores do inverno que passou e que parece ter retornado antes da hora. Desconfia-se que aquele pão fora deixado por esse mesmo cidadão.

Na TV do típico boteco decadente onde alguns trabalhadores terminam seus PF´s tardios, o moço do tempo mostra uma enorme mancha azul pelo país todo, indicando que a chuva deve persistir e que não é algo exclusivo para os moradores dessa florescente capital araucariana.  Os ambulantes moços vendedores de guarda-chuva terão um natal promissor.

Na famosa rua numérica de largos calçadões adaptada para poucos tipos de calçados, os postes recebem luzes vermelhas e verdes e as lojas, clientes dispostos a encontrar as melhores promoções daqueles tais presentes supostamente obrigatórios. No sempre restaurado palácio, lindas crianças cantam canções de algum natal idealizado, porém não menos desejado. Há um tempo, algumas delas faziam fila para dividir migalhas de pão com outros cidadãos mais experientes.

Na praça, a feira satisfaz (com sobra) os paladares e olhares dos transeuntes: a variedade de peças de artesanato, chocolates, bolachas, alfajores, bombons, bolinhos, salgadinhos, sanduíches, crepes, pamonhas, acarajés, fogazzas e samosas, estão lá, a preços relativamente acessíveis. E nesse frio todo, essas coisas certamente esquentam quaisquer corpos que porventura estejam desprotegidos. As sacolas continuam nos ombros.

E não é que essa história de chuva e frio até combina com esse tal natal, que todos insistem em comemorar?

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