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O Último Dia

No último dia, de trabalho, Pedro fez quase tudo igual. Como de costume, chegou atrasado, perto das onze da manhã. Cumprimentou todos com um singelo “bom dia”, sentando em sua cadeira preta desregulada, para não dizer quebrada. Ligou seu computador pensando onde iria almoçar. Faria ele algum almoço especial comemorativo? Chamaria mais alguém para acompanhá-lo?

Evitando responder tais perguntas, Pedro prefere desviar sua atenção checando seus e-mails pessoais. Nada de novo, apenas e-mails automáticos comerciais e respostas a alguma lista de discussão batida e sem graça. Deveria ele cancelar seu e-mail de tal lista? Deveria cadastrar seu e-mail em alguma outra lista de discussão, mais pertinente a seus novos desafios? Ah, fodam-se os e-mails, pensou ele.

Para não dizer que não fez nada de produtivo no último dia de trabalho, Pedro faz alguns ícones para algum sistema em eterno desenvolvimento. Para ele, produção mesmo era dialogar com pessoas interessantes via MSN ou desenvolver qualquer trabalho minimamente artístico de seu interesse pessoal ou para seus queridos amigos. Atualizar seu blog também era algo que lhe agradava. E muito.

Chegando próximo de seu horário de almoço tardio (Pedro preferia sair mais tarde para evitar congestionamentos nas filas dos buffets e ainda aproveitar promoções específicas para determinados horários), ele esvazia sua gaveta, retirando desenhos toscos feitos em caneta bic preta ou azul. Tais desenhos buscavam retratar, toscamente, seu universo mental paranóico e turbulento. Eram resultado de longos e enfadonhos dias à frente de seu computador, sem nada pra fazer, aguardando alguma tarefa maluca que seu chefe inventaria. E dali surgiam personagens esquisitos que o fariam companhia, mesmo que por breves minutos.

Após uma da tarde, Pedro decide almoçar. Como de costume, vai sozinho e como está chovendo, prefere ir a um restaurante japonês mais próximo de sua quase extinta empresa. Paga mais caro que de costume, mas lembra que é seu último dia e merece qualquer coisa supostamente de maior valor. Retorna rapidamente, decidido em resolver suas últimas pendências e sair dali o quanto antes.

Ao olhar para o chão da antiga sala, percebe que não verá mais aquele piso quadriculado “cafonérrimo” (como diria Caetano), tão pouco as paredes amareladas ou os computadores pré-históricos. Fodam-se todos os computadores, pensa ele, os modernos também.

Apesar de alguns de seus pensamentos, Pedro está calmo e apenas sorri ao escutar uma velha discussão entre seus quase extintos colegas sobre cartões-ponto e horas-extra. Pedro pretende abster tais palavras de seu vocabulário, pelo menos por um longo tempo. Talvez para sempre, espera ele.

E assim, aproveitando alguma deixa inventada na hora, Pedro se despede de seus colegas, abrançando-os e demonstrando algum tipo de carinho mínimo distante do ambiente corporativo que fez parte, por longos dez anos. Estava ele livre para finalmente ser ele mesmo? Essa pergunta certamente ainda ecoa em sua mente, enquanto bebe sua cerveja imaginária em algum boteco latino-americano de seus mais belos sonhos.

 

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Um comentário sobre “O Último Dia

  1. É engraçado como nosso ser interior, por meio de comportamentos automáticos, se adere e se reconforta em certas rotinas. Geralmente só quando damos ou levamos um tranco em nossa situação, é que temos alguma noção de todo o espaço ao nosso redor e de toda a pequenice a qual estamos de certa forma presos pela nossa cegueira.

    É isso aí. A vida segue e nosso ser multiforme vai, mais ou menos como uma ameba, se deslocando e se desdobrando pelas possibilidades da vida. Que bom o movimento e que boa a vida.

    Salve!

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