contos

“Projeto Zero”

Na praça central ou quem sabe na única praça daquela cidade no meio do deserto há um homem de meia idade. Ele carrega seu carrinho de bebê e a única outra forma de vida que o acompanha é seu cachorro, também de rua, preso em uma coleira feita com alguma corrente. No carrinho, alguns pães que são distribuídos aos poucos ao cachorro, saudavelmente faminto.

No fim da tarde, o senhor de barba rala regressa à sua casa, ao lado da ponte usada pelos mochileiros para conseguir alguma carona até a cidade grande mais próxima. Nesse momento, seu carrinho de bebê é usado para carregar a terra e o pó que cercam seu lar. No horizonte próximo, formações arenosas compõem um cenário desértico sereno de cores pastéis. E ainda em seu terreno improvisado, o senhor de meia idade utiliza seu carrinho de bebê cheio de terra e pó para construir o que ele chama de “Projeto Zero” – uma quadra de tênis feita da terra e do pó do deserto, com uma rede feita de sacos de plásticos ou batatas. Observando tudo do lado de fora da quadra, está seu cachorro, agora sem correntes e com o olhar atento.

Paciente e com um objetivo fixo na cabeça espessa, o homem descarrega seu carrinho de terra e mira um casal de mochileiros dizendo a eles que caso eles não consigam a desejada carona, há espaço em sua humilde casa feita de barro, logo ao lado de sua nobre construção esportiva feita de coração, suor e daquele pó do deserto, responsável por colorir as mochilas e roupas daquele casal de viajantes.

San Pedro de Atacama, Janeiro de 2011

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