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Sabonetes, Privadas E Algo Mais

O primeiro cachorro que ela vê naquele país é azul e branco.

“No Peru, eles não tinham pêlo, será que aqui no Equador eles são assim?”, confusa, ela se pergunta. São os últimos minutos de claridade e ela viaja sozinha, em um ônibus semi-vazio. Atrás dela, um casal de ingleses checa informações na bíblia azul dos viageiros e mais na frente, dois meninos equatorianos de uns doze anos de idade viajam desacompanhados.  Há ainda um senhor de uns quarenta anos e que aparenta ser alguma espécie de homem de negócios, e fora esses seres mencionados, o restante dos acentos estão vazios.

O rádio do ônibus toca as mesmas canções latinas de mau gosto há mais de seis horas consecutivas, mas ela mantém os ouvidos concentrados no som que sai de seus fones. O motorista faz sua última parada antes de chegar a seu destino final, o homem de negócios desce com sua maleta, e surpreendentemente o casal de ingleses também desce com suas coisas. Agora ela parece ser a única estrangeira a bordo e esse pensamento parece lhe incomodar um pouco.

Por entre montanhas, a estrada esburacada e cheia de caminhões também não colabora, mas ela se acalma ao ver na janela amarelada as primeiras luzes da cidade, misturadas com as estrelas de um céu sombrio e ao mesmo tempo, mágico. O rádio é substituído por mais um daqueles previsíveis filmes americanos de ação dublados em espanhol, e ela prefere fixar o olhar na janela em busca de mais estrelas, porém o reflexo da TV no vidro a distrai.

Quase duas horas se passam e nesse tempo passam muitos pensamentos aleatórios e algumas dezenas de músicas de seu mp3, também tocadas de forma aleatória, numa espécie de rádio pessoal limitada; além de grandes e pequenas preocupações, como por exemplo, saber se naquele país também não haverá acentos nas privadas ou sabonetes nas pias, como na maioria dos restaurantes e hotéis peruanos que esteve recentemente. Em sua mente passam muitas outras coisas, mas ela prefere não dar importância a nenhuma delas e apenas concentrar sua pouca atenção no endereço e no nome do hotel que passará a noite.

Finalmente o ônibus chega à rodoviária da cidade, os meninos encontram seus pais e ela pega sua enorme mochila, indo ao encontro de algum daqueles táxis amarelos que transitam lentamente à procura de passageiros. Acostumada a pechinchar no Peru, ela tenta fazer o mesmo no novo país, mas recebe um categórico “não”, seguido de uma pisada no acelerador estupidamente grosseira – para o julgamento dela, é claro.

No táxi, as ruas chamam sua atenção, já que nelas, ela não vê cachorro algum, seja sem pêlos, brancos, azuis, ou de qualquer outra cor; e ao invés deles ou dos barulhentos carros peruanos com suas incessantes buzinas, apenas modernos veículos 4×4 de marcas japonesas transitando de forma organizada.

E no hotel ela se assusta positivamente, ao dar de cara com um banheiro coletivo limpo, com acento no vaso e pasmem, até mesmo um sabonete líquido na pia – o que a deixaram instantaneamente contente em estar mais uma vez, em um país diferente.

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Um comentário sobre “Sabonetes, Privadas E Algo Mais

  1. Adoro detalhes, pequeninos de simplicidade.
    Fazem diferença por onde olhamos. Sermos pequenos para perceber o que há de pequeno e o grande apenas um objetivo dimensional.
    Adoro quando o negativo existe para darmos atenção de quando o positivo nos vem aos olhos.

    Gosto de ser pequena.
    Lembra? Sofia Paula, sabedoria pequena.

    É como a estrela, sabemos que é grande, mas a vemos tão pequenina. E não nos importa o seu tamanho, sua beleza é reconhecida puramente.

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