contos

Pedro José e Os Ratos Equatorianos

Cuenca era até grande e com todos os ruídos característicos do chamado “progresso”, mas em sua primeira semana Pedro José dormia ao lado do rio que atravessava e separava a cidade antiga da nova. Ao invés das buzinas e arrancadas e freadas e das trocas de marcha e dos alarmes disparados sem motivo aparente, muito comuns nessa parte moderna da cidade, Pedro José dormia apenas com o som da correnteza e dos pequenos choques provocados pela água nas milhares de pedras de diferentes tamanhos e formatos que compunham o famoso rio cuencano. Porém o trajeto até sua cama se mostrava ligeiramente complicado, e não foram poucas às vezes em que se assustava com os imensos e lendários ratos equatorianos que cruzavam seu caminho.

Algumas criaturas beiravam meio metro de altura e eram capazes de emitir perturbadores ruídos – os quais chegavam aos ouvidos de Pedro José com profunda intensidade, uma vez que naquele lado do rio, carros e seres humanos raramente eram vistos.

Certa noite, ao retornar de mais uma longa caminhada pela parte antiga da cidade em busca de algum alimento que pudesse considerar seu jantar, Pedro José se deparou com quatro unidades da mesma espécie de roedores, que dessa vez devoravam ferozmente a carne do que parecia ser um cachorro de rua, sem raça definida e com três diferentes colorações de pêlo. Os quatro ratos teriam não mais que quarenta centímetros de altura e seus rabos aparentavam medir em comprimento o triplo de suas alturas.

Em um mixto  de medo e curiosidade, Pedro José permaneceu imóvel e em absoluto silêncio numa distância que julgou ser segura. Em seguida, uma quinta criatura velozmente se aproximou do suposto banquete, provocando um espanto em Pedro José e até mesmo nos outros quatro imensos ratos equatorianos que roíam a carne daquele pobre cachorro.

Emitindo o mesmo ruído perturbador em um volume claramente maior que os demais, esse rato também possuía outros diferenciais.  Seu tamanho era evidentemente maior que seus semelhantes e apesar de ser da mesma espécie de roedores, seu pêlo era branco como açúcar, mostrando pertencer a alguma variedade albina. E por breves segundos, Pedro José pôde ver fogo nos olhos vermelhos daquela imensa criatura. Um fogo raivoso que sem deixar dúvidas, transparecia uma fome de proporções irreais.

Petrificado e sem ação, Pedro José permaneceu em seu lugar, que nessas alturas, já estava longe de ser considerado seguro, e por minutos ele testemunhou aquele animal sem igual triturar as diferentes partes que ainda restavam do pobre cachorro.

Surpreendentemente e definitivamente antes da época esperada, a primeira chuva de guarda-chuvas do ano começava a cair, fazendo todos os ratos, dos pequenos aos grandes, retornarem para seus buracos, naturais ou urbanos, e Pedro José para sua cama, onde dormiria ao som do rio que atravessava Cuenca e que normalmente lhe tranqüilizava.

Porém nessa noite ele seguiria atormentado pelo imenso rato branco que não sairia de seus pensamentos.

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