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Ermelino Na Metade Do Mundo

 

Em um momento oportuno e com o ônibus parado para a habitual subida de novos passageiros, Ermelino se aproxima do motorista e pede em tom educado: “Poderia descer na metade do mundo?” “Está bem”, responde o jovem motorista com um simpático sorriso emoldurado por seu bigode.

Desprevenido, Ermelino sente um pouco de frio ao chegar à metade do mundo. “Deve ser a tal briga do inverno contra o verão, comum por essas bandas”, pensa ele. Talvez a altitude elevada do local também explicasse a questão, mas o fato era que Ermelino acabou sentindo mais os ventos gélidos trazidos pelo inverno do hemisfério sul do que a possível corrente de ar quente, provocada pelo verão do hemisfério norte. E outra surpresa para Ermelino foi perceber que as pessoas que vivem ou trabalham na metade do mundo são amáveis e pouco se assemelham aos habitantes das extremidades desse mesmo mundo.

Como não poderia deixar de ser, os preços das refeições e lanches são altos, já que a procura pela metade do mundo vem atraindo turistas de ambos os lados. Em contrapartida, a criminalidade segue inexistente, mostrando que pelo menos na metade do mundo, políticas de educação e segurança podem ser realmente eficazes.

Sem perder seu valioso tempo, Ermelino aproveita a ocasião para sentar-se na linha que divide os dois hemisférios e pela primeira vez em sua vida, dizer a si mesmo que o mundo finalmente está girando ao seu redor. “É uma sensação difícil de ser descrita”, diria ele anos depois para um jornal de seu bairro.

Tendo conhecido, em seus primeiros anos de vida, o começo do mundo, Ermelino experenciou, no alto de seus quarenta anos, a metade dele. Restava agora ele conhecer seu fim.

Quando desceu por engano na última parada do ônibus metropolitano que o tirou da metade do mundo, pensou ter encontrado. De fato há partes de Quito e de qualquer cidade grande que definitivamente assustam.

 

 

 

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