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Me Chamo Karl e Vivo na Rua

Me chamo Karl e tenho 29 anos. O nome é alemão, mas venho de Johannesburgo, na África do Sul. Como vim parar nas ruas de Quito? Só Deus sabe, mas vou tentar te explicar. Supostamente um cara me daria um emprego nessa cidade, então eu voei até Buenos Aires, depois Lima e dali até Quito. Quando finalmente vi esse cara, ele não só não me deu o emprego que havia prometido, como roubou tudo que eu tinha, incluindo meu passaporte. Não demorou muito para uns policiais me encontrarem na rua e logo me colocarem na prisão, já que estava sem a merda do passaporte e muito menos com algum dinheiro para molhar a mão desses filhos-da-puta.

Emprego? Sim, já trabalhei aqui e ali. Fui jardineiro em um restaurante, pintei muros pixados por adolescentes imbecis, lavei pratos e limpei chãos em troca de comida. Mas não é fácil, quando eles olham um branco como eu e que não fala a língua deles direito, eles é que me pedem dinheiro, saca?

Ah bro, e se você quiser sobreviver nas ruas dessa cidade, fique de olho nos colombianos. Eles são uns covardes de merda, e violentos pra caralho. Sempre te pegam em grupo, isso quando não estão armados. Nunca me esqueço do dia que eles pegaram meus amigos. Eu não faço ideia o que eles aprontavam, mas porra, tenho certeza que eles mereciam um castigo diferente. Estava no restaurante quando esses malditos colombianos descarregaram suas armas neles. Só posso te dizer que não tem nada haver com essas coisas que você vê nos filmes. O barulho é ensurdecedor. Você vê fumaça de pólvora por todo lado e só pensa em sair dali o mais rápido possível. E foi justamente isso que fiz. A merda foi que eu tava tão apavorado e desnorteado que não demorou muito pra um carro me pegar em cheio. Quando a policia chegou, me viram estatelado no chão e só posso agradecer a Deus por não ter me fodido muito nesse acidente. Acabei sendo levado pelos policiais pra explicar o que eu tava fazendo ali e claro, ainda tive que reconhecer os corpos dos meus amigos.

Família? Tenho um irmão mais novo e ele ate já me disse que pagaria a passagem pra eu voltar pra minha terra, mas isso foi há um ano e meio atrás e faz exatamente esse tempo que não ligo pra ele. De certo ele deve pensar que estou morto. Por que não ligo pra ele? Ressentimento, orgulho, não sei, chame do que quiser.

(…) Uma vez tentei me esconder em um carregamento dum navio que ia ate a Cidade do Cabo. Mas não sei, acho que não estava preparado para voltar, saca? Os caras me encontraram e me encheram de porrada. Essas cicatrizes são desse dia. Estou escrevendo um livro sobre essas historias, quando eu morrer você o verá por ai. Será um best-seller.

Bro, valeu pela ajuda e pela conversa. Usarei esses dólares para dormir em uma cama e tomar um bom banho quente. Não que eu queira me sentir com um rei alguma merda assim, mas é bom se sentir seguro de vez em quando, não é?

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