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Navegar é Preciso

Capurganá, noroeste colombiano. A viagem até Panamá e de volta a Colombia não deveria levar mais que algumas horas, e o único propósito era obter alguns carimbos oficiais. Infelizmente, as leis panamenhas mudaram e assim fui obrigado a permanecer no país por 24 horas, junto com meu novo companheiro de viagem, um irlandês chamado Gavin e conhecido entre os colombianos como ”El Pibe”, em uma clara alusão ao ídolo local, Carlos Valderrama.

Com a roupa do corpo e poucos dólares no bolso, fomos até um restaurante e logo começamos a conversar com um casal jovem que comia pescados em uma das mesas. Ela era argentina e ele coinscidentemente também vinha da Irlanda. De lá pegou um voo até Bahamas, onde decidiu comprar um barco e velejar até Cartagena, mesmo sem ter experiência alguma em alto mar. No caminho o motor do barco pifou e ele agora navegava somente com a ajuda do vento. Mas como nem tudo poderia dar errado, em Cartagena ele conhece sua atual namorada e parceira de aventuras, e juntos foram parar em Capurganá, com a intenção de conhecer algumas ilhas caribenhas, onde tribos indígenas viviam em completo isolamento. Sem vento, decidiram passar uns dias em Puerto Baldia, em território panamenho.

Nos primeiros minutos de conversa eles disseram para não criarmos expectativas em relação ao povoado – o que horas depois comprovamos com nossos próprios olhos. A parte da polícia fronteiriça, havia uma sorveteria que também funcionava como lan house, isto é, se houvesse luz na cidade. No único supermercado, quatro prateleiras, alguns miojos e latas de feijão e milho. Havia também um bar, onde compramos um litro de rum e algumas latas de algum refrigerante local com gosto de coca-cola. Tudo pela bagatela de quatro dólares por pessoa.

Sentamos em um gramado próximo ao mar e nos embebedamos lentamente, enquanto compartilhavamos historias de viagem, além de pensamentos filosóficos e políticos, típicos de qualquer mesa de bar que se preze. No dia seguinte, eles partiriam para uma ilha com pouco mais de trezentos indígenas, onde haveria uma festa para celebrar a primeira menstruação de uma nativa. Nesse dia todos seriam obrigados a tomar chicha – a bebida local, e quem desrespeitasse essa ordem, deveria pagar uma multa. Durante os outros dias, aqueles que estivessem na rua depois das 21 horas, também deveriam pagar a tal multa. Certa vez, sacos de cocaína foram encontrados na praia, provavelmente de algum carregamento colombiano com destino a algum país centro-americano. Sem a menor noção do que aquilo poderia ser, os indígenas acabaram usando kilos da droga para espantar e matar as formigas da região.

Gavin e eu nos despedimos do simpático casal e quem sabe, se o vento permitir, algum dia voltaremos a ve-los. E em Capurganá, um padre é assassinado por dois cubanos. Mas essa é outra historia.

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