contos

Nasci Chaveiro

Nasci chaveiro. Isso mesmo que você ouviu agora em sua cabeça ao ler essa sentença. Sentença? Talvez seja uma mesmo. Há homens que nascem para ser advogados, médicos, engenheiros e há também aqueles que nascem para ser… Chaveiros!

Desde pequeno sempre desconfiei disso. Desde cedo já aprendi naturalmente, isto é, sem a necessidade de alguém me ensinar, a abrir portas mesmo sem o uso de chave alguma. Na época utilizava o mesmo arame que os ladrões costumam usar para invadir propriedades privadas. Minha mãe costumava me perguntar: “Mas filho, como você entrou em casa? Você estava sem chave!”. Envergonhado com esse dom particular, eu respondia que não sabia, apenas havia entrado.

Os anos se passaram e minhas habilidades foram crescendo. Amigos me pediam para invadir as casas das professoras, com o intuito de modificar notas de prova e fazer com que eles, que como eu, também não gostavam de estudar, passassem de ano sem grandes dificuldades. Com a lei não tive problemas, pois era rápido e aprendi com um colega (que anos depois havia se tornado um famoso assaltante de bancos) a não deixar pistas.

Na hora de escolher uma carreira para estudar na faculdade, fiquei extremamente chateado. Afinal, um curso acadêmico que ensine as pessoas a serem chaveiras profissionais simplesmente, não existe. Pressionado por meus pais, resolvi escolher engenharia mecânica com a esperança de aprender detalhes sobre a construção de fechaduras inteligentes. Frustrado por não aprender isso ou qualquer coisa minimamente relacionada ao tema, cheguei a escrever uma monografia, onde pude me aprofundar no assunto e contribuir em um nível teórico, a profissionais do ramo.

As discussões, em especial com a minha mãe, aumentaram e ela não conseguia entender como um rapaz saudável de classe média quisesse ser um chaveiro. Dizia a ela que era somente isso que me interessava e que eu via até certa poesia no ofício, nesse lance de abrir e fechar portas, físicas ou não. Passei um ano em um emprego medíocre como engenheiro mecânico em uma multinacional alemã, apenas para economizar um dinheiro suficiente para abrir meu próprio negócio no ramo das chaves. Abri meu chaveiro em uma sala de quinze metros quadrados, em um ponto central da cidade e logo comecei a receber trabalhos variados e necessários para pagar as contas da empresa. Nesse período inicial, minha mãe passou alguns meses em depressão por saber que o filho havia largado a carreira “promissora” como engenheiro em uma multinacional. Tentava lhe explicar minhas reais motivações, mas ela não me ouvia e chegou até ao ponto de não atender minhas ligações.

Confiante no meu trabalho, passei a trabalhar longas horas e para diversos clientes: ricos ou pobres, de diferentes nacionalidades, homens ou mulheres, feios ou bonitos, burros e alguns inteligentes também, porém todos haviam algo em comum, todos estavam atrás de suas queridas ou malditas chaves: dos carros importados, das casas de campo, dos baús de fotos de família, dos cofres, dos cases onde guardavam suas armas, dos quartos, dos cadeados, de tantas coisas que eu poderia ficar um dia todo para lhe dizer, talvez, dez por cento de tudo aquilo que alguém, por algum motivo, havia decidido criar uma fechadura para impedir que outros tivessem acesso àquele determinado bem. E desde que o ser humano é humano, o erro faz parte de sua natureza e assim, não são raros esses mesmos seres perderem suas chaves e sabe-se lá Deus porquê o fazem, e tornam a repetir o mesmo erro e a depois a implorar para mim para resolver o problema da maneira mais rápida possível – e em alguns casos, a qualquer custo. Sim, já vi até cliente chorar em minha frente, suplicando por uma cópia de chave.

Vinte anos depois e depois de um trabalho árduo, porém recompensador, virei referência na minha cidade e hoje posso me gabar de ser o melhor chaveiro da região. Minha empresa cresceu consideravelmente e hoje possui duas filiais. Meu salário talvez não seja o mesmo daquele engenheiro mecânico que ficou lá atrás e que se tivesse continuado na carreira, hoje provavelmente estaria ultrapassando os vinte mil reais mensais, mas te digo que estou feliz fazendo o que faço e mesmo sem uma valorização da profissão, consigo viver uma vida tranqüila e sem problemas financeiros. Problemas que minha mãe jurava que eu iria passar, com o perigo de “viver na rua, com fome”, nas palavras dela.

Precisei batalhar muito para chegar onde estou e por escolher esse caminho, um tanto esquisito eu sei, mas o que se pode fazer quando a gente nasce assim e descobre mais cedo ou mais tarde, que é isso e somente isso que poderia nos fazer mais feliz.

Benditas chaves.

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2 comentários sobre “Nasci Chaveiro

  1. também sou chaveiro amigo, aqui no guarujá, o desconhecimento das pessoas em relação a nossa profissão é enorme, por um lado é bom o outro ruim.O bom é claro dificilmente você tem noticia de que o estabelecimento de um chaveiro foi roubado, pensa-se que ganhamos miseros trocados pra trabalhar, o oposto é que também marginaliza -se o profissional, mas assim como vc sou muito respeitado,ora pois atendemos aqui desde de um senhor humilde a prefeitos ,vereadores, pastores ,grandes hotéis e grandes empresas, o cliente fica feliz ao abrirmos aporta mas a alegria maior é minha, o cliente logo vibra quando se abre o carro do mesmo ou quando fazemos a chave difilculta-codificada , mas acredite o prazer maior é nosso ao ouvir o ronco do motor . ser chaveiro pra mim é unir o útil ao agradavél, é meu hobby e meu oficío, serviço não nos falta, por isso nós investimos cada vez mais, pois assim como outras profissões houve mudanças e uma tecnologia incorporada que não é barata, e que também da prazervencer a engenharia por trás disso, vencer a montadora, a fiata volks, a valeo, a huf, a siemens, e etc… Obrigado senhor

    1. obrigado você, e parabéns por escolher aquilo que te faz bem, independente do que os outros pensam. viva os chaveiros, pequenos, médios e grandes. um forte abraço.

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