contos

A Noite de Ontem

O bar do barbudo estava fechando, cadeiras na mesa, menina sozinha no balcão tomando a saideira. Enchemos os copos de plástico e descemos a rua. No caminho, grupos de adolescentes vestidos como adolescentes ouvem o funk do momento em volume de adolescente. As meninas rebolam com suas micro-saias e seus poucos anos, ignorando o frio de outono curitibano e buscando os olhos masculinos estacionados ou de passagem. Passado o trauma, como bem disse um amigo, seguimos até a rua debaixo, com os copos vazios e os espíritos enfraquecidos. A esquina mais alternativa da cidade carecia de um bar com cerveja barata e assim, continuamos andando até sermos surpreendidos por pessoas tatuadas e topetudas na frente do que parecia ser mais um bar, dessa vez, no melhor sentido do termo. Cerveja de garrafa, barata, gelada e de quebra com uma decoração original, sem forçar a barra, assim, meio de improviso, como poderia sempre ser. No canto, um fliperama e um pinball do star wars, do tempo em que as crianças fumavam gudang no subsolo do Müeller e te pediam moedas para trocarem por fichas douradas. No som, o velho Lou canta Vicious enquanto jogamos futebol com um copo de plástico vazio movido pelo ar vindo de um ventilador de teto, tentando acertar um gol feito de garrafas, vazias também.

Nosso amigo japonês encarna o estereotipo de seu país passando horas na frente do fliper. Do lado de fora converso com um senhor nascido no ano da ditadura que me fala da sua falta de dedos e ao mesmo tempo da sua pequena história de superação, se transformando em um arquiteto e escultor. Ele diz que nasceu assim e me pergunta: “Você já teve uma casa de campo na Suécia?”, “Então, se você nunca teve, também nunca vai sentir falta.” Do lado dele uma mulher topetuda distribui palavras obscenas ao ar e a quem quiser ouvi-la.  O portão pichado fecha, pegamos mais um copo de plástico para nosso amigo suspeito e saímos. O japonês agora dorme na porta de alguma loja que também já fechou há muito tempo. Pra cima avistamos mais um boteco, com outras pessoas persistentes e que parecem quererem ir até o fim de sei lá o que. Lá somos assustados com uma sensação provocada por um cara que parece experimentar seu spray de pimenta e que aparentemente também emite alguma tinta colorida suficiente para marcar uma parede amarela, virgem nesses assuntos. Com a respiração trancada, saímos de perto para minutos depois vermos um jovem alto e grande dar um soco na cara do cara que parecia ser seu amigo e companheiro de discussões. O cara levanta e pergunta pro outro, quem havia lhe dado aquele soco. Nisso o jovem alto e grande já havia se misturado na pequena multidão que cercava a porta de onde saíam as cervejas azuis. E para decretar o fim da noite, um bafo quente e de odor químico invade o ar, desta vez oriundo de um bueiro ao nosso lado.

Acordo em um carro na frente de casa. Na cama durmo como um bebê e acordo lembrando da noite de ontem.

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3 comentários sobre “A Noite de Ontem

  1. …”pessoas persistentes que parecem querer ir até o fim de sei lá o quê.” Esse “sei lá o quê” é talvez a questão que mais tem habitado a minha mente ultimamente. Que bom estarmos vivos para tentar descobrir!
    Salve!

    1. é isso aí my friend, esse desconhecido que tb muito me interessa.

      “Every time I get the inspiration
      To go change things around
      No one wants to help me look for places
      Where new things might be found”.

      – Brian Wilson

      às vezes, pode haver companhia nessa busca =)

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