contos

O Festival, de Distrações e Paixões

Foto: André Smirnoff (editada)

A noite prometia, havia uma espécie de alegria no ar, querendo ser botada pra fora, em excessos, por adolescentes, jovens e até pelos velhos também. O estacionamento era caro e as tendas eram grandes, de cores fortes e nelas as marcas exclamavam seu peso. Da cerveja da moda, do refrigerante de sempre. Era noite de lembranças da década passada, daquela banda de barbudos, que segundo um fã de carteira, ainda está pra surgir alguma melhor e mais influente por esses lados.

O frio se aproximava e o jeito era se misturar nas multidões, ainda frias e sem tempero, talvez hipnotizadas pelas distrações, pela asa-delta pendurada no guindaste, ou pelo bar também suspendido no ar por outro guindaste, ou talvez pelo ligeirão azul, um ônibus fumacento que chacoalhava com os garotos e garotas de calças provocantes que dançavam descontraidamente dentro dele. Mas diferente de algum outro busão do Magical Mystery Tour dos anos 60, nesse a fumaça era provocada por outra substância, inodora e politicamente correta, assim com o tal combustível do busão.

Havia também os imensos barris da cerveja esverdeada, os comes de circo e os tacos do México. Na tenda alternativa, mulheres pretas e brancas mostravam todo seu suingue em um palco animado, colorido pelos olhos, vestidos, e pelo som da banda do momento sem um nome conhecido. Na platéia, jovens ainda tímidos, agasalhados e sem pressa.  A noite havia começado.

E eis que chega a próxima atração, uma linda mulher com sua melancolia misturada com uma psicodelia redundantemente maluca, alternada por suspiros relaxados provocados por suas canções de algum baile decadente e belo na simplicidade. Sem falar dos reggaes gostosos pra se dançar na companhia de algum vento qualquer. Bastam quatro ou cinco canções para cativar a galera, agora hipnotizadas por algo mais puro, o tal sentimento universal tão bem descrito nos livros antigos. Assim, fica mais fácil de encontrar o caminho de casa, como bem canta a moça.

Mas espere, o show dos barbudos já vai começar e os amigos te chamam, te dizendo que o grupo não pode se dividir, que é preciso procurar um lugar bom pro show, mas que antes as cervejas precisam estar nas mãos. O céu se fechou e agora é hora de seguir para a próxima estação, um verão em pleno inverno do sul.

Com pressa, parte do grupo se perde no formigueiro e só resta você e teu amigo, interessado nas suas piadas e em te ajudar na tarefa de obter mais uma latinha de cerveja. As mensagens de texto começam a chegar e a gincana também. “Estamos ao lado de três números gigantes”, o tesouro está lá perto. Mas a conversa sobre o Raul e as estrelas estava boa, e sem foco, decidem ficar na ilha da cabeça de vocês.

O show começa e no telão de alta definição dá pra ver os sinais dos tempos, a barba branca de um deles, os óculos e as rugas dos outros. Dá pra ver também o brilho nos olhos de cada barbudo, o suor e os detalhes retrô de cada roupa, uma mistura de fazendeiros com intelectuais, como bem disse um rapaz aí. Não havia dúvidas, eles estavam de volta e com espíritos rejuvenescidos, loucos por uma boa festa. Os convidados, agora um pouco mais aquecidos, agradeciam e distribuíam sorrisos pros amigos e pras câmeras de alta definição. A menina tocava sua bateria imaginária, enquanto seu amigo real soprava um trompete, imaginário também. No final, o mega-hit de outrora e amado por George, seguido por uma seqüência de antigos clássicos, ao estilo Ramones, sem tempo para recuperar o fôlego.

E quando tudo parece acabar, explosões multicolores invadem o céu, fazendo seus olhos regredirem anos e mais anos. A fumaça que fica vai formando efêmeros e misteriosos barbantes entrelaçados e você abraça seu amigo, o desejando feliz ano novo. A década mudou, mas como eles mesmos dizem, a estrada vai muito além do que se vê.

De volta com seus amigos, você troca histórias e descobre que onde eles viram o show o povo estava pacato e preocupado em manter certa distância, como forma de proteger a namorada e coisas do gênero. E assim, descobre que o show na terra deles foi bem melhor, já que por lá, essas frescuras parecem não existir.

São quatro da manhã e a festa continua, ainda tem uma tal Karina no palco alternativo e seu amigo estrangeiro e de novo corte de cabelo diz que vale a pena ficar pra conferir-la. Além das dezenas de remanescentes, está você e seus seis amigos e amigas. O frio está pegando e pra te ajudar, teu amigo te arranjou um cachecol que encontrara no chão, além de um gorro, estilo boys in the hood. No palco, as figuras começam a aparecer, um rapaz de barba longa testa o som da guitarra, enquanto outro moço arrumadinho repete palavras ao microfone.

Em instantes, duas feras da guitarra de tempos diferentes, assumem seus postos, em lados alternados. Mais atrás, o baterista, o baixista de toca e barba estilo Bin Laden assumem a cozinha ao lado do tecladista e de outra figura conhecida no trompete. Um dos guitarristas assopra as mãos, enquanto o ar condensado sai de sua boca. E eis que chega a menina, ainda de mansinho, sem grandes alardes, exceto pelo figurino provocante. O sotaque vem lá de cima e as letras vêm pra te acordar e te esquentar desse frio também provocante.

O show cresce, as guitarras berram e a menina agora escala uma estrutura metálica lateral como se fosse algo normal. Em seguida ela se joga no chão e se arrastando, vai de pé em pé dos companheiros em uma performance instigante, ainda que aparentemente fora das proporções de um show daqueles. De fato, não havia muito mais que oitenta pessoas por ali. E dessas, quase todas pareciam estar vidradas nas piruetas e maluquices naturalmente exibidas pela garota.

Seis da manhã e agora você caminha com seus amigos para o portão de saída e nota, ao olhar para trás, que vocês são os últimos sete a saírem de lá. Os sete anões de uma branca de neve enlouquecida, outra cidadã instigada que faz o mundo se mexer e fazer você esquecer as distrações da vida, ou no caso, desse festival.

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3 comentários sobre “O Festival, de Distrações e Paixões

  1. Oi Igor, o texto traduziu literalmente a nossa noite.
    Desencontros, descobertas, boas conversas e um final estonteante.
    Beijos,

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