contos

Tom Zé, Beatles, As Mulheres e A História Sem Fim

A moça do café cult-intelectualóide me recebe prontamente. “Mesa pra quantos?”, “Sentarei com as meninas da sala ao lado, mas pra adiantar, quero uma taça de vinho, argentino ou coisa parecida, merlot, o mais econômico que tiverem”. Na mesa, uma amiga turca criada em Berlin come uma massa esbranquiçada com cogumelos frescos e escuros, enquanto na sua frente, sua amiga, curitibana e norte-americana por opção, ingere um caldo de feijão, brasileiro, por tradição. As duas dividem uma cerveja, brasileira também.

O vinho não chega e elas me contam que tiveram que esperar um par de horas para os pratos. Decido levantar e avaliar a situação e de fato a moça do café estava mais ocupada em organizar o pomposo buffett de frios, a trinta reais por pessoa, se esquecendo dos clientes interessados em simples taças de vinho, no caso esse chato que vos fala.

Hora de partir e ir para o museu ocular de grandes proporções, de um tal arquiteto famoso aí. “Hoje vai rolar show do Tom Zé, de graça, numa tenda lá”, havia dito uma amiga horas atrás. Levemos a gringa e a curitibana-estadunidense também, afinal, elas precisam conhecer o museu, mesmo que a noite e com o foco estando fora dele, no caso, na tenda mencionada. Também terei a oportunidade de encontrar essa amiga de bom gosto e rosto jovial, e que apontara a direção.

Chegamos e enquanto fumo meu tabaco sob olhares diversos, as explico (para a turca e a curitibana) quem é esse homem, um dos pais da tropicália e que ficara no ostracismo por uma série de motivos, e que graças a David Byrne e como o próprio Tom Zé havia dito, a um erro de um vendedor de discos que achava que seu trabalho se enquadrava no estilo samba e que sim, representava de alguma maneira a música brasileira de outrora – esse homem já com mais de 70 anos de corpo, renasceu no cenário cultural, realizando shows por toda a Europa e depois no Brasil, por que ainda tem essa coisa de fazer sucesso primeiro lá fora e aquele blábláblá todo. Pensei em lhes falar sobre aquele disco dele que é uma opereta da mulher ou daquele outro que a capa é um cu, como na primeira sílaba da palavra que dá nome a essa cidade, mas achei desnecessário, já que o homem estava ali, no palco e poderia lhes mostrar muito mais do que qualquer discurso cult-intelectualóide, normal para o café de momentos atrás.

O show começa e sem êxito, não encontro minha outra amiga e assim, me contento em permanecer distante do palco, ao meio de conversas furadas e atravessadas entre os grupos de pessoas ao redor.  Olho pra turco-alemã e que agora se assemelha a algum personagem do filme Persépolis (cult-intelectualóide também) e anuncio: “Vamos mais pra a frente pra sentirmos melhor essa coisa chamada show”. Timidamente nos aproximamos mais uns dez passos do palco, girafeio pros lados, mas continuo sem encontrar minha amiga, pequenina e no meio de uma multidão de desconhecidos. Tento mensagens de texto, tão em voga no momento, mas logo percebo que o lance é deixar para encontrá-la depois e que diferentemente das outras pessoas próximas e conectadas a redes sociais irreais, eu preferia estar com minha mente e meu coração abertos praquele homem, setentista de idade e de idéias, e sua banda de tirar qualquer chapéu (cult-intelectualóide) e que parecia se proliferar na platéia.

E por trás de todos esses chapéus e de alguns namorados-malas, daqueles que te olham feio quando você pede licença pra passar, estava eu, agora, com todos os olhos voltados a Tom Zé, que alternava suas peripécias no palco, hora tocando uma serra-fita, hora comendo um jornal e sempre intercalando cada canção (na falta de uma palavra mais adequada) com algum dizer, normalmente dirigido pro público ou pra banda: “agora mais baixinho…”.  No bis ele satisfaz os fãs-mutantes de plantão, cantando o hino do rock rural e premonitório, aquele sobre o tal astronauta libertário, uma verdadeira ode aos tempos modernos onde somos “casados e solteiros”, “baianos e estrangeiros”, e é o “computador que resolve” a equação.  Uma pena que naquela platéia, uma parte parece ainda incrustada em alguma época antiga, conservadora e machista, e para esses, é bom ler a mensagem da banda agigantada pelo telão: “Machismo Mata”, em sintonia com a passeata das vadias e com aquela história do policial também incrustado em algum tempo remoto.

E antes que me esqueça, falarei mal da Alemanha, também lembrada por Tom Zé no fim do espetáculo. Afinal, ô país paradisíaco das mil maravilhas, onde todo mundo se respeita (?), ninguém rouba (?) e acho que ninguém passa frio também, já que todos são tão legais que devem emprestar suas jaquetas e luvas a quem as precise (ok, não esqueci dos aquecedores centrais). Todos têm seus defeitos e os curitibanos costumam ser exímios críticos nesse sentido, especialmente ao falarem da Europa (?).

Mas não são sobre essas coisas que gostaria de falar, talvez o mega-cérebro do Tom Zé tenha feito um pirulito na minha ciência, me fazendo viajar em temas distantes da história sem fim que pretendia contar.

Mas vamos lá, no final do show, encontro minha amiga e ao apresentá-la as outras, a curitibana-estadunidense faz a inocente pergunta: “Mas fulana, o que você faz?”, emendando com outra indagação muito pertinente: “Colégio?”. “Não, eu faço faculdade”, responde ela com sua fala mansa e suas bochechas coloradas, e por aí a conversa andou, em marcha-lenta, e em modo ultra-criativo. Mas como o branco pode ser preto e vice-versa, como os norte-americanos já devem ter percebido, a curitibana mostrou seu outro olhar, ao associar a lua a um poste de luz redondo e branco – observação compartilhada com minha amiga, que agora passou a falar “Bah”, como meus amigos gaúchos e algumas placas de automóveis por aí.

E foi esse grupo, agora com a inserção de um novo membro novo (minha querida amiga), que seguimos para a próxima atração da noite, a famosa banda cover dos Beatles, ou Liverpoolgas, como eles são chamados, em um bar estilo anos 80 freqüentado por jovens alternativos com preferência por cores escuras. Pego umas cervejas e as sirvo em uma mesa de madeira e momentos depois reparo na presença de um dos músicos da noite, um rapaz bacana e o qual já havia conversado diversas vezes em tempos e visuais atrás. Hoje ele está de aparelho, sem barba e de cabelo mais curto, estilo Beatles na transição da primeira pra segunda fase, enquanto eu, como ele mesmo brincou, estou no estilo “filósofo” ou Dom Pedro I.

Após um convite até a esquina mais próxima e uma viagem paralela prontamente atendida e experienciada, retornamos ao recinto para momentos depois, perdermos uma integrante antes mesmo de a banda iniciar suas atividades. A curitibana decide ir pra casa, alegando cansaço e dor nas pernas, provocada pela idade avançada (segundo ela). Brinco dizendo que idade é um estado de espírito, mas também lembrei mentalmente que cada um conhece seus limites (ou vaidades) e nesses casos, não adianta discutir.

 

Porém para encurtar a história e continuar seguindo os padrões blogueiros atuais, só tenho a acrescentar que a noite se estendeu por mais algumas horas, não vimos o show beatlemaníaco por inteiro, mas comemos um baita cachorro-quente vegetariano, esse sim, por inteiro e com muito gosto, enquanto discutíamos sobre algumas diferenças entre a Alemanha e o Brasil e aquele papo sobre lá ser tudo corretinho e simpático, enquanto aqui alguns gringos ainda morrem de medo da violência e da imprevisibilidade constante por esses lados.

E viva Tom Zé, os Beatles, Curitiba, Alemanha, Turquia, Brasil, o cachorro-quente vegetariano e principalmente, as diferenças!

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2 comentários sobre “Tom Zé, Beatles, As Mulheres e A História Sem Fim

  1. Porra Ígor! De novo não ficou até o fim do show dos Liverpoolgas!?!

    Dança da lula nem pensar…

    Tá véio ou vaidoso?

    Abraço!

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