contos

A Despedida

Disseram que o bar não costumava abrir naquela noite. Mas a noite era de despedida e era especial e era pra ser cheia de emoções e de outros bons clichês também, comuns e esperados nesse tipo de evento, tipo “festa fechada”, tipo “bota-fora”. Um casal estava deixando o país, a pátria amada, tão aparentemente odiada por alguns por aí. Eles estariam indo em direção ao centro do mundo, ou pelo menos chegando bem perto dele, considerando as palavras de Lennon que dizia que se ele tivesse nascido na época dos romanos, gostaria de ter morado em Roma, hoje, Nova Iorque é o lugar.

Mas deixarei esse papo cosmopolita de lado, já que naquela noite, os espíritos estavam concentrados aqui pertinho, em um bar de esquina meio apimentado e em construção, onde ventiladores me lembravam do frio lá de fora, e canções me levavam praquele lugar comum e seguro, chamado rock´n´roll. Cerveja gelada de garrafa, vestimentas de cores escuras, mesas de madeira, homens por toda a parte, fumantes de plantão, um palco, alguns banquinhos e… alguns violões! Sim, fique calmo, isso ainda é rock´n´roll (assim como aquele acústico do Nirvana) e feito da forma mais genuína possível, entre amigos, sem compromisso e sem ensaio.

O querido rapaz com passagem comprada pros states me disse que se colocassem todas aquelas canções dentro de uma coletânea em formato mp3, ficaria maravilhoso e quem sou eu pra discordar, ô repertório bacana esse, de Cash a Raul, de Young a Led, tudo intercalado por Beatles, incluindo um lado B do Abbey Road, além do moço citado aí em cima, com a linda e sincera Jealous Guy. Até quase pintou um Tim Maia na parada. Ainda fiquei com a imagem de felicidade do viajante bacana cantando “Mamãe, não quero ser prefeito”.  Pois é, e não é mesmo que no palco estava uma das estrelas da noite, o amigo de todos que junto com a noiva partirão para terras mais frias, lanches mais rápidos, shows para todos, estradas mais longas e sonhos mais altos. Sim, ele estava lá, no centro, viola na mão, cordas mais grossas, acompanhando seus parceiros, antigos professores, amigos para sempre.

O telefone móvel toca, atendo prontamente e tento me afastar do som amigo, me dirigindo para o lado de fora, até dar de cara com um vidro escuro. Splash de cerveja gelada na superfície parcialmente transparente e retangular, galo na cabeça, conversa no celular interrompida, risadas da mesa da namorada e dos amigos de carta.

É hora de convencer o amigo das vodkas com energéticos, raras no meio de tantas garrafas grandes e douradas, a permanecer por lá. A idéia inicial era de sair, comer, voltar, curtir, se despedir. Ele até aceitou, mas dado sua condição etílica, ou melhor, sua equação do porre, ele acabou vendo que a coisa ia demorar antes de finalmente acontecer, e acabou voltando pra casa um pouco mais cedo.

E logo percebemos que precisávamos partir também e assim começaram as longas sessões de despedidas, um misto de alegrias e tristezas. Primeiro com a simpática e sorridente noiva que me dissera conhecer um amigo meu, um sujeito de cabelo loiro comprido e de filosofia dudeísta (outro dia explico o termo), em outras palavras, muito boa praça. Depois foi a vez do amigo do peito, das cartas e dos programas de rádio, e depois de interrompermos outra despedida em curso entre nosso camarada e uma jovem garota, foi a vez de outros rapazes nos interromperem, afinal, o show no palco havia acabado e aos poucos era hora de se lembrar da vida e dos compromissos do dia seguinte, e assim, uma despedida foi emendando na outra, feito estrela de rock depois de algum pocket show exclusivo para a família e os amigos.  Mas o abraço final veio, mas menos intenso, já que uma segunda despedida havia sido sugerida.

E como diria Almir Sater, “um dia a gente chega e no outro vai embora”.

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9 comentários sobre “A Despedida

  1. Nossa, não sei nem o que dizer! Só posso agradecer as palavras e dizer que sou imensamente feliz de ter consido uma pessoa como você, que sempre esteve ao lado para coisas boas, ruins, papos, filosofias e tudo mais. Aprendi muito com você e levarei o aprendizado e o amor de um grande amigo para o resto da vida. Um grande abraço e um até mais 😉

  2. Fantástico texto Igor, como sempre expressando de forma poética os acontecimentos cotidianos da vida! E não se preocupe que outro dia vamos tomar todas e ir no dogão ! 😉

  3. ..tendo uma opção vegetariana, melhor, paulo!
    grande julio, tenho certeza que a gente ainda vai rir muito, seja num apê em curitiba ou em alguma casa suburbana americana ou ainda em alguma casa de sapê, rs. foi um prazer conhece-lo tb. mas ainda mais prazeroso será tê-lo como amigo eterno. boa sorte nos novos desafios e que seus sonhos se tornem verdade, como já diria dylan =) abração.

  4. Boa piazão!! Um abraço pra Aimone e pro seu noivo, sucesso na empreitada gringa. Mas eu gostei mais da parte que fala do “sujeito de cabelo loiro comprido e de filosofia dudeísta (outro dia explico o termo), em outras palavras, muito boa praça”. Excelente 🙂 Abraços seu puto!

  5. Show de bola Igor! Melhor descrição daquela noite impossível! =)
    Espero que não demore muito possamos estar todos reunidos novamente, quem sabe na grande maçã! 😉

  6. Pessoal achei linda esta foto as palavras do Igor me deixaram sem “palavras” rsrsr gostaria muito que me mandassem as fotos ,será que é possível? Sandra mãe do fujão …

    1. Bacana Sandra, fico feliz que tenha gostado do texto..a foto de cima imagino que tenha sido tirada pela Aimone, só deixei ela em preto-e-branco pra deixa-la ainda mais especial.

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