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Altas Confusões Na Sessão da Noite

Lua cheia na capital, dia de semana, comemoração no apê do amigo. Pássaros na tela do computador, em perfeita sincronia com a eclética seleção de músicas feita tempos atrás pelo nobre aniversariante. A teoria do Dark Side of the Oz caí por terra, segundo Valdir. “É tudo uma questão de ritmo”, diz ele.

Presentes diversos: uma lista telefônica, uma cabeça personalizada e artesanalmente pintada, um livro politicamente correto. Um bolo e um kibe veganos. A vela também é natural. Mas o vizinho reclama, bate educadamente na porta para depois desaparecer subitamente pelo corredor. No elevador, brincadeiras de criança, o pote pequenino se transforma em um lixão reciclável. Mais risadas.

Em dois carros, os oito amigos saem e tentam chegar ao mesmo ponto. Infelizmente um deles precisa parar, o pneu furou e a alegria por alguns segundos passou. No outro, o casal discute e acerta prontamente a relação, enquanto Pedro e Bravo seguem pro bar da esquina. Os dois pegam uma cerveja e no que Pedro assiste o jogo esverdeado na TV com um senhor trajado elegantemente, Bravo reencontra ex-colegas da faculdade de uma tal engenharia que ele não terminou, ou melhor, mal começou. As meninas são bonitas, mas por algum motivo, Pedro não demonstra muito interesse e prefere focar na imagem chiada que sai da TV e no último bolinho de soja do boteco garrinchiano. Vai ver que é a nova namorada, ou sei lá o quê.

Lá fora, Bonifrate confraterniza um cigarro diferente com Céu, que nessa noite estava mais infernal do que nunca.

Algum tempo depois, os quatro amigos reaparecem e Davi, o moço das pelotas, joga moedas no copo de cerveja de Pedro, em mais uma tentativa bem sucedida de irritar o pobre rapaz, preocupado com a possível contaminação das moedas, já em circulação no país há décadas. Mas é hora de pensarem no futuro, não da nação como já diria alguma canção qualquer, e sim daquele animado grupo, que por alguma razão astrologicamente explicada, permanecia unido, apesar dos interesses e egos diversos.

Tem o sambão naquele bar surrealista, tem o eletro-moderninho naquele outro e tem também o rock anos 90 pra pular feito doido. Isso sem falar na troca do bar das chuteiras por algum outro semelhante, que não precisasse pagar pra entrar e ficasse aberto até mais tarde. Davi puxa o povo pro bate cabeça no bar tradicional, mas antes que todos cheguem muito perto da porta, dois casais se vão. Por motivos diferentes, mas isso pouco importa.

O bando é enfraquecido ou pelo menos é assim que Pedro pensa, enquanto Bravo se entretém com a possibilidade de conhecer novas garotas novas: uma loira e outra morena, bem vestidas (entenda o que quiser) e aparentemente disponíveis. Davi e sua namorada Flavinha de jaqueta colegial entram empolgados. Pedro diz que já vai entrar, assim que seu tabaco acabar, e assim Bravo descobre que as meninas são suas vizinhas.  A loira aguarda seu namorado e sua perna direita não pára um segundo. Pedro lhe pergunta há quanto tempo eles namoram. Seis anos e é seu primeiro, diz ela. O sujeito não chega e os quatro decidem entrar.

A banda ferve e no palco, no meio de tantos homens, uma garota com um microfone na mão e um vestido preto curto e sacudo se sobressai. Ela dança, pula, grita e faz os quarenta homens solteiros e outros tantos casados a cobiçarem. Até Flavinha se interessou. Isso sem falar nas canções que ela e seus colegas de palco trovejavam aos quatro cantos, acompanhadas de guitarras raivosas.

Como já mencionado, eram clássicos do rock radiofônico dos anos 90. Sim, daqueles mais agitadinhos, pra polgar e curtir e lembrar dos velhos tempos de escola. E como não podia faltar em qualquer show dessa época, casais se pegavam perto do palco. O garoto seguia tentando esfregar a mão boba no traseiro da menina, e essas coisas do gênero.

Bravo foi ligeiro e logo ele e a morena solteira eram só beijos e abraços ritmados, mais tímidos que os desse outro casal aí. A loira ficou lá perto do palco, talvez pra fugir do rapaz ligeiramente embriagado que a perseguia com os braços, bobos também. Pedro ficou no canto, escorado na parede negra ao lado de um segurança engravatado e de Flavinha, que vez ou outra se atracava com Davi, emocionado com aquelas canções que o faziam lembrar também da sua antiga banda.

Porém a alegria durou pouco. Davi inicia uma roda de polga e logo Flavinha lhe acompanha, sendo a única representante do seu gênero, enquanto Bravo procura proteger sua moreninha dos braços e das pernas livres daquele tipo de modalidade. Mas calma lá, tudo estava indo ainda muito bem, em harmonia com o som daquelas caixas e o clima que, apesar de aparentemente nervoso, era de camaradagem. E foi só Bravo resolver colocar seu copo de cerveja no palco que o segurança ao lado de Pedro, resolve agir, derrubando a porra do copo no chão, para em seguida retirar Bravo a força, por supostamente romper com as leis da casa, além do copo, é claro.

Pedro explica a situação à Flavinha e logo se dirige a entrada do bar para tentar tirar o amigo que nesse momento, estava fazendo jus ao nome (com razão); logo Davi, ainda com o sangue aquecido oriundo do quebra-quebra amigo, chega criticando ferozmente a atitude do segurança, que agora era amparado por outro, ainda menos colaborativo. Flavinha chega e pergunta onde está o gerente daquela merda, pois segundo ela e segundo pessoas de bom senso, somente ele poderia definitivamente decidir a situação, vetando ou não a entrada de Bravo no recinto.

Pedro de início fica calado e quando intervém, decide dar uma pequena lição pros engravatados bombados, lhes dizendo que se eles mantiverem essa postura agressiva, ele também não possui mais o mínimo interesse em permanecer naquele bar. A resposta veio seca como a falta de humor daqueles moleques (quem sabe em outra situação pudessem ser senhores): “Então saia duma vez”, gritou um deles. “Ok”, disse Pedro, mas antes me deixem fumar um cigarro lá fora.

Mas como não poderia ser diferente, diante de meninos e lobos, quem realmente decidiu a parada foi Flavinha que depois de falar com o gerente, conseguiu que Bravo voltasse pro rock e pra sua nova garota. Depois da confusão, esta era uma boa desculpa pra ele sair logo dali, agora ao lado das recém conhecidas vizinhas, vindas do interior do estado.

Pedro termina seu segundo cigarro e entra novamente para o fim do show e passa pelos seguranças como se nada tivesse ocorrido. Lá dentro o clima é de fim de festa, sem rodas de loucurinhas e sem mais graça nenhuma.

Que nada, pros três remanescentes do grupo aquilo tudo era assunto pra boas risadas.

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2 comentários sobre “Altas Confusões Na Sessão da Noite

  1. Pra quem viveu a noite Curitibana alternativa (por assim dizer), longe de seus bateis e coisas do genero, seus textos transformam a leitura em uma orgastica sensacao de nostalgia, pois sem dizer voce nada sabemos exatamente aonde voce estava, somente sorvendo a descricao da sensacao da fria noite curitibana e seus pitorescos lugares.

    Se estou certo, este lugar realmente nao e mais o mesmo e a ignorancia dos segurancas que aumenta a cada dia e triste, fico triste pelo ocorrido, mas feliz que tenham conseguido dar risada no fim.

    Um forte abraco das (por enquanto) quentes terras do Tio Sam.

  2. Amigo, fico agradecido com suas palavras e vc está certo, infelizmente aquele lugar não é mais o mesmo há tempos. Os tempos mudaram, mas é justamente esses “pitorescos lugares” que de alguma forma acabo encontrando e me interessando.

    Outro grande abraço desse frio-pra-kralho que anda fazendo por aqui.

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