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Juízo Final?

Era uma noite qualquer do mês de dezembro de 2012. As comemorações para o suposto fim do mundo haviam durado a semana toda, culminando na noite de 21 de dezembro, conforme o calendário maia previa. Festas de todos os tipos e shows para todos os gostos se espalharam pelas grandes cidades. No interior, as pessoas foram menos eufóricas e se restringiram a reuniões familiares, com fartura de comida e muito vinho. Em cultos religiosos obscuros, animais foram sacrificados.

Mas como uma parcela de cientistas já havia previsto, o fim do mundo tinha sido mal calculado e não cairia mais no dia 21 e sim, uma semana depois.

Nessa noite, uma tempestade tomou conta de praticamente qualquer pedaço de terra do planeta. Durou pouco ou o suficiente para não alagar tudo e assim, acabar com o mundo de uma vez só. Alguns minutos antes do fim da chuva, luzes brancas de proporções gigantescas começaram a aparecer em diversos pontos do globo. De início, as pessoas achavam que eram apenas raios e trovões, mas logo perceberam que as luzes se movimentavam e que emitiam um sonido agudo constante e de volume baixo.

A tempestade já havia passado, quando os bilhões de habitantes das cidades iniciaram uma marcha silenciosa e lenta, em direção a espaços abertos: parques, praças, campos de futebol, calçadões e pistas de patinação ao ar livre. No interior, as famílias se reuniram em suas fazendas, em campos abertos e nos pastos. Curiosamente, ninguém falava com ninguém e o único som que se escutava, além das passadas das multidões era aquele estranho sonido agudo, que agora aumentava gradativamente de volume.

Pouco se soube do que realmente aconteceu naquela noite. No dia seguinte, várias mudanças foram notadas, muitas pessoas morreram e outras que estavam doentes acordaram saudáveis e sem nenhum resquício da doença no corpo. Paralíticos voltaram a andar e mudos agora cantavam, enquanto algumas pessoas perfeitamente sadias desapareceram, sem deixarem nenhum rastro pelo caminho.

Após alguns meses de caos e de luto por aqueles que haviam partido, a ordem foi sendo restabelecida com novos governantes no poder, enquanto outros foram derrubados. Ironicamente a maior parte deles havia sido dizimada, de forma inexplicável. Porém algo mais importante do que tudo isso havia mudado, mesmo que ninguém conseguisse lembrar do que aconteceu naquela fatídica noite de 28 de dezembro. Muitas hipóteses foram criadas e cada crença ou religião possuía a sua versão dos fatos. Sem provas ou imagens, aquele dia passou a ser conhecido como “O Dia Em Que a Terra Parou”, em uma alusão ao filme e a canção de Raul, mesmo que nada daquilo tivesse acontecido, ou caso tivesse, não havia uma pessoa sequer que pudesse comprovadamente relatar o ocorrido.

Dois anos depois, o mundo era outro. Questões fundamentais para nossa sobrevivência tinham sido resolvidas, não havia mais aquele medo generalizado por conta do aquecimento global, do desmatamento da floresta amazônica, do perigo de uma superpopulação ou de alguma crise econômica mundial. A vida tinha ficado mais tranqüila e todos agora trabalhavam não para si próprios, visando algum tipo de enriquecimento pessoal, mas para o outro, sempre pensando no todo e no planeta que agora dava os primeiros passos de uma nova Era. Os valores eram outros, bem como os maias previram. A ganância, o luxo, a inveja e a agressão deram espaço para a fraternidade, a humildade e o respeito ao próximo. O conhecimento passou a ser democrático e agora todos possuíam as mesmas oportunidades. O lixeiro passou a ganhar o mesmo que um médico, pois chegaram à conclusão de que todos são iguais e merecem os mesmos benefícios. Os animais finalmente receberam o respeito devido e deixaram de fazer parte das indústrias alimentícias, passando a viverem livres e felizes. A justiça também sofreu mudanças drásticas, sendo instaurada uma nova lei mundial, baseada em novos princípios universais. A tecnologia seguiu evoluindo a passos largos, porém agora ela andava atada nas questões éticas e morais e ao invés de servir para os interesses de grandes corporações, ela buscava um único objetivo: o bem comum.

De fato muito havia se transformado após aquele misterioso dia 28, a luz finalmente havia chegado aos corações e o amor passou a ser eterno novamente.

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3 comentários sobre “Juízo Final?

      1. Igor,

        Interessante o texto. Lembra-me do livro de Thomas More (Utopia), que uns entendem como representando uma sociedade imaginária ideal, enquanto que outros o interpretam como uma sátira à Inglaterra do século 16. Em vez do grego “eu topos”, lugar ideal, o grego “ou-topos”, ou lugar nenhum. Espero que na realidade prevaleça o otimismo da última frase de sua crônica.

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