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O Velho e o Moço

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O velho diz que sua tia, internada no hospital há semanas é a parenta mais velha da família. Diz que quando ela partir, cronologicamente ele será o próximo. O velho diz que não quer ficar muito velho, e acabar em algum asilo esquecendo seu próprio nome. O moço na sua frente lembra-se do homem centenário que acabara de terminar uma maratona. O indiano? O velho pergunta com um sorriso no rosto e se lembra que também é possível acabarmos assim, triunfando para milhões de expectadores do famoso canal do medo.

O velho diz que já fez muita coisa, ajudou zambianos a terem água potável, ajudou a construírem uma fábrica de açúcar para os nigerianos e criou empregos para dezenas de compatriotas. Talvez tenha se esquecido de seu principal feito, doando seu corpo, mente e coração para uma causa, aparentemente perdida. Paixões têm dessas coisas.

Desde o ocorrido, o velho diz que só dorme depois de um copo de cerveja, uma taça de vinho e uma dose de uísque doze anos com água. Talvez mais um renascimento pareça improvável, mas ele parece vislumbrar algum futuro. Sabe que não pode mais contar com seu corpo e nem com sua conta bancária. Mas ele também já parece ter percebido que a vida é feita de coisas simples, de intenções e de outras possibilidades.

O velho diz que gosta de plantar e do processo e do encanto que é materializar uma vida, dando alimento e luz e alguma proteção. O amor pode e deveria ser algo simples, mesmo que seu coração partido diga o contrário.

O velho agora está no avião rumo a terras frias e insensatas e na sua cabeça as lembranças de sua última estadia no país do sorriso se misturam com suas escolhas pessoais de uma vida cheia de interrogações e de algumas decepções. Nunca chorou tanto quanto nas últimas horas antes e depois de entrar na aeronave. O velho só se esquece do quanto foi importante para aquele moço e para algumas pessoas que ainda procuram alguma compreensão maior, algo sincero que os conforte, mas que não os impeçam de sentir a velha montanha russa de emoções que costumam abraçar a chamada “vida”.

Esse mesmo grupo já aprendeu desde cedo que essa mesma vida é o que acontece enquanto estamos ocupados fazendo planos, como diria o velho roqueiro que a cada ano, fica mais novo. E com isso no coração, eles sabem que sozinhos nada de bom acontecerá, mas que é fundamental pensar e sentir cada ação individual, deixando o umbigo ou qualquer velha idéia de lado, e focando no próximo, seja lá em qual condição esse próximo esteja e sempre, sempre, mantendo o sonho vivo e possível.

No fim, chega a ser algo até lógico, uma vez que se o outro existe e precisa de ajuda, logo ele faz parte do grupo, independente do grau de conexão afetiva, espiritual ou familiar e mesmo que essa conexão tenha sido estabelecida momentaneamente, talvez explicada por alguma teoria metafísica, ainda ignorada pela maioria e compreendida por algumas filosofias orientais ou não.

E assim, dentro de suas limitações e sem grandes pretensões, ainda que externamente talvez não pareça, o moço segue seu caminho, simples, intuitivo e com alguma compreensão material do todo, enquanto o velho continua revendo suas escolhas e buscando algum outro caminho, diferente de seus planos anteriores.

Sua casa está fechada há muito tempo, mas sempre há a esperança de um dia, alguma janela se abrir, mesmo que pra isso, outro vendaval precise acontecer.

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2 comentários sobre “O Velho e o Moço

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