contos

Série “Taxistas Curitibanos” – Episódio #4: O Justiceiro das Madrugadas

taxistas_curitibanosSão 1:11 da madrugada de terça. Entro no banco da frente de um taxista de barba grisalha e obesidade padrão. Dou boa noite, levemente alcoolizado e alterado, depois de uma festa de aniversário familiar, em algum bar morto da cidade. O senhor, com os olhos naturalmente inchados, responde brevemente, meio sem parecer querer muito papo. Pergunto se ele sempre trabalha nesse horário e coisas do tipo e, quando me dei conta, ele estava nos primeiros detalhes de uma história digna dos melhores (ou piores) filmes policiais que qualquer aficionado ou interessado pelo tema gostaria de ouvir.

E assim o senhor, de barba grisalha e palito no dente, começa sua saga em mais uma escura madrugada de terça-feira, depois de me contar brevemente um causo em que ele teria atropelado intencionalmente um assaltante de rua de revólver na mão:

“Eram umas três da madruga, eu estava no ponto do tráfico, ali perto da catedral, quando vejo um traficante, todo felizinho pela grana que descolou na noite, tentar uma corrida com meus colegas de profissão. Depois de levar um não atrás do outro, eles indicam:

– Se quer um taxista que te leve, vá até o último da fila, o louco do velho te leva!

Eis que chega o trafica e pergunta:

– Quanto cê faz até as Oficinas?

Respondi que, por menos de 90, não era possível.

– Porra, mas não costuma passar de 40!

– Meu chapa, cê já ouviu o ditado: ladrão que rouba de ladrão tem 100 anos de perdão?

Depois que cheguei lá na casa do maluco, ele desceu, pegou seu brinquedinho e retornou para o acento traseiro. Botou nas minhas costas e deu voz de assalto. Falei calmamente que, primeiro, ele tinha que ir pro banco da frente se quisesse continuar conversando. Quando ele sentou do meu lado, lhe disse:

– Agora você vai conversar com o Tata, estilo caranguejo, por que quem assalta por trás é veado. Agora, vai me dizendo onde cê quer me levar e eu sigo guiando.

Esperei meu momento e, quando pude, pisei no freio e joguei o vagabundo pro pára-brisa!  Nessa, peguei sua arma, dei-lhe um choque com meu aparelhinho e falei:

– Agora quem é que tá no comando?

Levei-o para um passeio turístico pela cidade e, depois de chegar num dos meus becos escuros prediletos, pedi pra criança descer do carro, mandei ela se despir, a amarrei numa árvore e liguei pro comandante:

– Tô com mais um aí pra vocês.

Antes que eles chegassem, tirei as balas do revólver (e as vendi no outro dia por 60 pratas) e joguei sua arma sem registro num mato, pra não acharem que eu que matei algum idiota por aí.

E assim o velho Tata termina sua saga, diminuindo a velocidade à medida que nos aproximamos do fim da corrida, garantindo que sua história chegasse ao fim, e ele fosse coroado como o justiceiro das madrugadas. Agradeci pela história e preferi lhe pagar em dinheiro.

 

Para ler os outros episódios (desconexos) desta série, clique nos links abaixo:

Episódio #3: Ecotaxis
Episódio #2: Vídeo-game
Episódio #1: Um Som Caipira Dos Bons

Anúncios

3 comentários sobre “Série “Taxistas Curitibanos” – Episódio #4: O Justiceiro das Madrugadas

    1. Pela riqueza de detalhes (ainda esqueci de contar que ele havia ficado com os 1200 reais que o trafica tinha conseguido naquela noite), acredito que realmente tenha acontecido algo do gênero, talvez em menor intensidade, mas são dessas coisas que as boas histórias costumam ser contadas.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s