contos, Dicas Musicais

Ao Homem Bom do Sertão

Para Cá e Para Ti

almir_e_cia

“O temor amigo

É um mito antigo

Tanto tempo faz

Que a gente se arrepia

Alma do outro mundo

Gosta é de poesia

Dos bares da moda

E de muita folia”

– Almir Sater

Amigo das estradas, dos mitos e dos arrepios, venho aqui lhe contar mais um causo desses que você também costuma contar nas noites de alegria e de muita folia.

 

Era sexta-feira e era dia de índio, e não sei se por obra do destino mais atrevido que não nos cansa de ensinar, ou talvez de algum sonho guardado na mente com lábios de doce melaço, esses mesmos lábios que outrora me beijavam e que depois foram usados para concretizar o sonho de vê-lo ao vivo no palco do grande teatro do povoado de Curitiba. E como seria a primeira vez, fez-me espantar como criança, ou seriam pares que o destino preferiu aproximar?

A prima, a irmã e o pai foram alguns dos protagonistas dessa louca história que fez com que eu e meu bem estivéssemos tão perto do calor e do mistério dessa sua viola.

Nem vou aqui detalhar os pormenores dessa saga, já contada em prosa pelas mãos da amada, mas farei questão de mostrar-lhe, em meras palavras, a satisfação e a magia de vê-lo tão tenro e tão vivo, sob o elegante chapéu que o esconde e sob aquelas luzes tão lindas, tão bem orquestradas e, que juntas, formam a janela de estrelas que você nos possibilitou sentir.

E por falar em orquestra, aqueles moços que o acompanhavam eram de fato pedras raras, daquelas pra botar qualquer índio ateu de volta no trilho, compreendendo a marcha e essa estrada que não acaba jamais.

Tinha a família, irmãos da lua e do sangue, sua irmã de voz grande e seu irmão de outra estatura tocando a outra viola do compasso mágico, tinha um moderno rasta no contrabaixo e tinha também um gaiteiro pomposo arrancando gritos das senhoras e senhoritas do outro lado do palco – que nessa altura já nos lembrava um rico pastoreio.

E, se somente quando o homem sonha, vai ao céu, o resto é pelo chão. Chão que você nos preparou e que não poderia ser diferente, feito de gente vivida que não se cansa nunca de aprender e sabe, desde sempre, que sempre haverá uma maneira simples de viver, longe em espírito dessas maluquices da grande cidade, verdadeiros fugitivos de guerra, dessa guerra sem sentido e que insistimos em criar em nossas mentes inquietas, poluídas com o caldo venenoso dos dias cinzas, da farra capitalista e das noites aflitas.

Nesse palco encantado, suas histórias sobre “el niños e aninhas”, vindas de sábios caipiras, acendem os corações dos curitibanos e dos parceiros dessa tal comitiva esperança, que aos poucos cresce em membros e em sentido.

E como era noite de sexta-feira, talvez alguma bruxa tenha possuído minha mulher, que nessa ocasião, correu pro salão, agarrou minha mão e me pôs pra dançar, sem sairmos das cadeiras do auditório. Nossas almas estavam lá, nesse salão que você e seus compadres ajudaram a criar, com a maestria da simples cantoria e o requinte da canção sem coro.

E, no final, é você que tira o chapéu, coisa de homem bom do sertão e que um dia, lá pra trás, já teve pressa, mas que agora anda devagar, trazendo o sossego de longe.

E se você não é louco, poeta, profeta ou monge, talvez seja porque você é tudo isso e mais um monte!

E se esse causo de doido não fizer muito sentido e lhe soar como mentira, saiba que essa lágrima que agora sinto em minha pele de índio branco da montanha é a mais pura verdade que lhe posso contar.

Obrigado amigo e até mais ver.

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5 comentários sobre “Ao Homem Bom do Sertão

  1. Este texto está belíssimo e emocionante. Eu que o diga; apaixonado que sou pela viola de Tonico e Tinoco, maiores mestres da música folk (folclórica) brasileira, já senti diversas vezes a sensação de ser um índio branco da montanha que viajou por entres as veias deste Brasil, e foi parar em terras frias quase uruguaias; mas que por algum motivo sente a nostalgia destas músicas de terras distantes.
    De Almir Sater não há dúvida que o show seja de extrema elegância, embora conheça e me chama mais atenção seus discos instrumentais, os quais já postei em páginas de um outro blog pessoal!

    beijos

    1. valeu guga, fico agradecido pelas gentis palavras e pelo português, cada vez mais refinado. os discos instrumentais dele são realmente excelentes, e o show mistura um pouco de tudo, te leva longe e ao mesmo tempo muito perto (do nosso coração). beijo.

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